20 junho 2014

Resenha Crítica: "The Ghost and Mrs. Muir" (1947)

 Existe algum lirismo, candura e estranheza a rodear a narrativa de "The Ghost and Mrs. Muir", um filme cujo enredo muda diversas vezes de tom, por vezes de forma nem sempre homogénea, embora facilmente nos faça compelir a seguir a história de Mrs. Muir. No início do filme, que se desenrola na viragem para o Século XX, encontramos Lucy Muir (Gene Tierney), uma mulher viúva há um ano, a anunciar à sua sogra e cunhada que vai abandonar a casa destas, despertando a raiva das duas. Lucy vai acompanhada pela sua filha, a jovem Anna (Natalie Wood), e a sua criada Martha (Edna Best), uma mulher com quem tem grande cumplicidade. Para a escolha da casa, Lucy contacta Coombs (Robert Coote), um agente imobiliário com uma personalidade peculiar que logo procura sensibilizar a protagonista para esta não alugar a casa do falecido capitão Daniel Gregg (Rex Harrison), em Whitecliff, uma zona costeira aparentemente ideal para se viver em paz e sossego. Coombs salienta que a casa é assombrada, com todos os clientes que alugaram a habitação a fugirem da mesma na primeira noite. Estes momentos iniciais são marcados por algum humor mas também suspense, sobretudo quando percebemos que a casa está mesmo assombrada, algo que fascina Lucy, com esta a comunicar com o fantasma e a não se parecer assustar com a presença do mesmo. A casa é bastante espaçosa, com dois andares, divisórias com dimensões consideráveis, sendo rodeada pela praia e belas zonas naturais, embora no seu interior Daniel procure inicialmente afugentar a protagonista. Se Lucy é uma mulher com uma enorme candura, educada, aparentemente frágil embora mantenha alguma coragem e capacidade de tomar decisões complicadas, já Daniel é um indivíduo rude, algo cínico, pronto a afastar tudo e todos da sua casa, embora gradualmente se aproxime da protagonista. Este mostra-se irritado perante todos pensarem que cometeu suicídio, embora a sua morte tenha sido um acidente provocado involuntariamente pelo próprio, algo que deixa o espectro deste marinheiro a manter-se temporariamente no interior da casa. Apenas Lucy consegue ver e falar com Daniel, visto que este apenas aparece e fala com quem quer, algo que por vezes causa alguns mal-entendidos, embora ambos comecem a formar uma relação de proximidade que contrasta com a tensão inicial entre os dois personagens. 

O romance é impossível. Lucy ainda se encontra viva, enquanto Daniel já faleceu, formando-se uma terna ligação emocional entre ambos, por vezes marcada pela bizarria própria da situação. Daniel aceita a presença de Lucy na sua casa, ajudando até esta mulher a escrever um livro sobre as memórias do marinheiro, tendo em vista a ajudar as finanças da protagonista. No local onde apresenta o livro a Mr.Sproull (Whitford Kane), o editor, esta conhece Miles Fairley (George Sanders), um indivíduo galanteador que escreve livros infantis, deixando-se seduzir por este embora a relação conheça uma reviravolta inesperada, com a narrativa a mudar de rumo nesta fase e entrar no melodrama até ao final de enorme impacto, onde a vida, a morte, o corpo e a alma não parecem ser impeditivos para um grande amor. Joseph L. Mankiewicz arrisca nas mudanças de rumo, ritmo e género da narrativa, embora o centro do enredo esteja sempre na figura de Mrs. Muir, interpretada por uma sempre sublime Gene Tierney. Tierney já foi Laura, regressada dos mortos sem ter nunca saído do mundo dos vivos, e agora contacta com um fantasma que promete mudar a sua vida. A dinâmica desta com Rex Harrison funciona quase na perfeição. Enquanto Harrison surge confiante, algo machista, mais cínico e pragmático, já Tierney nunca perde uma faceta frágil e solitária, embora seja capaz de tomar decisões complicadas para a sua vida e esteja longe de ter uma personalidade fraca, procurando cuidar da filha com a ajuda de Martha. A relação de Lucy com a filha nem sempre é explorada devidamente, embora se note uma proximidade entre ambas, sobretudo no último terço, quando a jovem Anna surge diante do espectador em idade adulta. No entanto, o que sobressai mais ao longo de "The Ghost and Mrs. Muir" é a relação de Lucy e Daniel, dois elementos que se complementam na perfeição, embora não possam durante boa parte do filme ter uma relação. Lucy procura reconstruir a sua vida após a morte do seu marido, procurando a independência que não tinha junto da sogra e da cunhada, tendo em Daniel um estranho apoio, após alguns momentos de tensão inicial. 

Existe algum misticismo e elementos góticos a rodearem esta relação, mas também momentos de humor, algo visível quando Lucy recebe em sua casa a sogra e a cunhada, com Daniel a instigá-la a proferir alguns diálogos menos agradáveis. Vale ainda a pena destacar a presença de George Sanders como Miles Farley, um indivíduo bem falante, aparentemente educado, que seduz e ganha a confiança da protagonista, embora guarde alguns segredos que vão ser devastadores para a relação. Quase tudo gira em volta desta mulher, com Gene Tierney a sobressair, ao longo de uma obra onde Joseph L. Mankiewicz consegue superar com algum sucesso as mudanças de rumo da narrativa. Nem sempre estas mudanças parecem homogéneas, mas o cineasta consegue que facilmente nos preocupemos com estes personagens, atribuindo alguma credibilidade à relação entre Lucy e Daniel, associada à química entre a dupla de protagonistas. Por vezes especulamos se Daniel é um elemento criado pela imaginação de Lucy, mas nem por isso deixamos de querer ver estes dois personagens a dialogar nesta casa à beira-mar na viragem do Século XIX para o Século XX. Os cenários interiores desta adaptação do livro homónimo de R. A. Dick são credíveis, embora os espaços exteriores tenham sido filmados em Palos Verdes e perto do Big Sur, territórios distintos do local onde supostamente se desenrola o enredo, apesar de serem bem aproveitados por Joseph L. Mankiewicz. Apesar do bom aproveitamento dos cenários, "The Ghost and Mrs. Muir" destaca-se acima de tudo pela sua história envolvente que parece ter saído de uma fábula de contos de encantar, apresentada com enorme classe e distinção por Mankiewicz, conseguindo facilmente cativar a nossa atenção. Não podemos ainda deixar de destacar a banda sonora de Bernard Herrmann, capaz de incrementar esta atmosfera algo poética do filme, para além da cinematografia de Charles Lang, pronta a expor um romance que nos fascina pela sua estranheza e beleza, onde a vida e a morte se encontram mas nem por isso apagam os sentimentos. 

Título original: "The Ghost and Mrs. Muir".
Título em Portugal: "O Fantasma Apaixonado".
Realizador:  Joseph L. Mankiewicz.
Argumento: Philip Dunne.
Elenco: Gene Tierney, Rex Harrison, George Sanders.

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