24 junho 2014

Resenha Crítica: "Garrincha - Alegria do Povo" (1963)

 Desporto apaixonante, capaz de aglutinar multidões, embora nem sempre seja compreendido, o futebol tem uma capacidade única para gerar ídolos junto dos adeptos. Pelé, Maradona, Eusébio, entre muitos outros encantaram adeptos dos respectivos clubes e selecções, incluindo aqueles que nunca os viram jogar ao vivo, mas assistiram a repetições dos jogos ou ouviram os pais ou outros familiares a falarem sobre os mesmos. Nesse sentido, é delicioso poder ver "Garrincha - Alegria do Povo", não tanto pelo valor cinéfilo do documentário mas sim pelas suas interessantes imagens de arquivo, mescladas com alguns depoimentos de Garrincha e algumas filmagens elaboradas para o filme (veja-se quando Joaquim Pedro de Andrade coloca uma câmara de filmar a seguir o quotidiano de Garrincha e exibe a forma como este agitava as multidões). Nascido Manuel Francisco dos Santos, conhecido no mundo do futebol como "Garrincha" (nome atribuído a uma espécie de pássaro), tendo o epíteto de "O Anjo de Pernas Tortas" devido à sua perna direita ser seis centímetros mais curta que a esquerda, sendo flexionada para o lado esquerdo, este craque canarinho tem no documentário realizado por Joaquim Pedro de Andrade um interessante retrato sobre o seu talento e popularidade, visível na forma como os adeptos o rodeavam, mas também como chegava a ser procurado por políticos em campanhas eleitorais. Essa popularidade é bem visível ao longo deste documentário lançado em 1963, ainda nos tempos de fulgor de Garrincha no Botafogo, onde actuava a "ponta direita", embora muitas das vezes ultrapassasse as barreiras da posição. O talento do atleta em campo é visível quando "Garrincha -  Alegria do Povo" nos deixa perante imagens de arquivo relacionadas com os treinos do atleta no Botafogo, onde foi craque e jogou entre 1953 e 1965, bem como trechos dos jogos pelo clube e pela selecção (campeão do Mundo em 1958 e 1962, tendo jogado com Pelé, Zagallo, Vavá, entre outros), entre outros momentos. Os trechos dos jogos deixam-nos um aperitivo do que Garrincha conseguia fazer em campo, com este a apresentar um talento desinibido e destinado a grandes feitos, apesar de nunca ter atingido o reconhecimento e a popularidade de Pelé, contando com uma personalidade dada a algumas polémicas. O documentário não consegue dar um retrato da complexa figura que foi este marcante atleta da história do futebol, procurando não problematizar as temáticas relacionadas com a sua vida pessoal, embora as imagens em movimento sejam um regalo para quem aprecia este desporto e o seu passado, com este "Anjo de Pernas Tortas" a merecer ser recordado e reverenciado por tudo aquilo que contribuiu para o futebol. Os tempos de lazer de Garrinha também são expostos, quer com as suas filhas, quer a jogar em Pau Grande com os amigos, descalço, no pelado, quais crianças a divertirem-se, onde o brinquedo é a bola e a recompensa é uma cerveja (como narra Heron Domingues). Como salienta Carlos Drummond de Andrade, Garrincha "Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas". No fundo, um jogador de futebol não é um mero indivíduo que dá pontapés na bola, mas sim um fabricante de sonhos, de alegrias e tristezas, que gera ódios e paixões, emoções fortes, sobretudo os grandes craques, capazes das proezas aparentemente impossíveis e ao alcance de poucos. Garrincha foi um desses homens. A sua morte prematura, aos 47 anos de idade, vítima de uma cirrose hepática, não apaga os grandes feitos de Garrincha, recordados em parte neste documentário de interesse para quem gosta deste desporto.

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