18 junho 2014

Resenha Crítica: "Enemy" (O Homem Duplicado)

 Como reagir se encontrássemos um duplo da nossa pessoa? No caso de Adam Bell (Jake Gyllenhaal), este decidiu contactar Anthony St. Claire (Jake Gyllenhaal), o seu duplo, embora o comportamento de ambos seja dicotómico. Adam é um professor universitário de História, que conta com um quotidiano marcado por uma rotina enfadonha e uma relação sentimental com Mary (Mélanie Laurent), enquanto Anthony é um actor relativamente obscuro que se encontra casado com Helen (Sarah Gadon), uma mulher na casa dos trinta anos de idade, que se encontra grávida deste último. Quando descobre a presença de Anthony num filme, Adam logo desenvolve uma obsessão algo "Hitchcockiana" pelo mesmo, procurando contactar o actor, percebendo que todos os confundem, incluindo Helen, com esta a mostrar a sua surpresa em relação a esta situação. Adam e Anthony logo entram em diálogo, embora o actor inicialmente evite conhecer o seu duplo, até entrarem num perigoso jogo psicológico que promete ter graves e imprevisíveis repercussões. Jake Gyllenhaal é a pedra de toque para boa parte de "Enemy" funcionar, com Denis Villeneuve a voltar a conseguir criar uma atmosfera opressora, tal como tinha feito em "Prisoners" (um filme elaborado depois de "Enemy"), enquanto deixa o seu actor destacar-se e explorar as idiossincrasias dos personagens que interpreta. Em certo sentido, esta adaptação ao grande ecrã da obra "O Homem Duplicado", de José Saramago, acaba por remeter para "The Double", de Richard Ayoade, onde tínhamos Jesse Eisenberg num duplo papel, embora Jake Gyllenhaal seja muito mais convincente e Denis Villeneuve atribua uma maior complexidade à obra, que facilmente sai das fronteiras do filme sobre um doppelgänger, chegando a abordar questões relacionadas com a política e a mente humana. Jake Gyllenhaal convence como ambos os personagens, surgindo algo atrapalhado, mais sensível e controlador como Adam, um professor universitário que no início do filme encontramos a falar sobre o controlo exercido pelos estados totalitários e as obsessões dos mesmos ao longo da História e as repetições ocorridas ao longo desta última, com estes episódios históricos a surgirem em parte como uma metáfora para alguns dos acontecimentos que vão surgir ao longo do filme.

Os personagens de "Enemy" estão sujeitos não só "à ditadura" dos seus desejos e impulsos, mas também às imposições de Denis Villeneuve e quem sabe de outras entidades que surgem pelo meio, bem como ao espaço que os rodeia, algo visível quando os encontramos quase presos às paredes que os envolvem (veja-se a saída de Adam da universidade e a entrada na sala de aula). Por sua vez, Jake Gyllenhaal surge mais impulsivo como Anthony, um actor de cinema (uma arte que Adam praticamente ignora) cuja mulher se encontra grávida, embora nas relações íntimas este e Adam apresentem algumas semelhanças, apesar das ligações com ambas as mulheres serem distintas ou talvez até estas não sejam assim tão diferentes como podemos inicialmente pensar. Mélanie Laurent e Sarah Gadon não comprometem mas estão longe de sobressair em relação a Jake Gyllenhaal, com as suas personagens a surgirem maioritariamente subjugadas à figura masculina, ao contrário da personagem interpretada por Isabella Rossellini que contribui ainda mais para o mistério que envolve a narrativa, ao longo desta obra marcada por uma atmosfera de paranoia e inquietação, meio surreal, por vezes próxima de um sonho, onde nem sempre tudo é como inicialmente parece. O artifício por vezes sobrepõe-se ao conteúdo, mas nem por isso deixa de ser particularmente agradável verificar a cuidadosa composição dos planos e a exploração dos cenários. Este espaço citadino que nos é apresentado é marcado por prédios elevados com vidros de proporções generosas, uma presença notória de poluição, num tempo indefinido e num local distópico de Toronto, onde uma tarântula gigante pode invadir os espaços e perspectivar várias interpretações, tais como uma invasão que outrora ocorrera ou se encontra a acontecer (uma teoria com algum interesse exposta por Forrest Wickman), ou talvez uma teia que se encontra a ser tecida pela própria mente de Adam. A cidade é um local propiciador de toda esta atmosfera de inquietação e paranoia que rodeia o filme, onde gradualmente percebemos que Adam e Anthony não apresentam tantas diferenças como inicialmente poderíamos pensar e Denis Villeneuve se "diverte" a colocar pequenas pistas que praticamente nos obrigam a visualizar "Enemy" mais do que uma vez.

Esta é uma obra marcada por sombras e assombros, almas negras mergulhadas no interior de um espaço permeado por várias metáforas escondidas que gradualmente se vão revelando. Nem sempre tudo em "Enemy" faz sentido, nem o pretende, sendo que o rumo que a narrativa leva a partir do momento em que Anthony e Adam se encontram pode gerar algumas divisões e apresta-se a interpretações várias. Serão a mesma pessoa? Quais os objectivos de ambos? Nem sempre o conflito psicológico entre ambos é devidamente explorado, tal como as relações com as respectivas caras metades, com Denis Villeneuve a procurar acima de tudo questionar-nos, gerar duvidas dentro das nossas pessoas e criar discussão em volta do enredo. Essa situação é notória quando percebemos que saímos do filme de doppelgänger e entramos em áreas bem mais complexas, embora fique a ideia que falta alguma sustentação na abordagem dos acontecimentos, com "Enemy" a destacar-se mais pela atmosfera de inquietação e opressão que Denis Villeneuve cria do que pelo aprumo a nível do argumento. Os cenários ajudam a essa inquietação e paranoia, mas também a própria banda sonora e as tonalidades algo amareladas que povoam as imagens em movimento, sobressaindo ainda a fotografia saturada, embora a iluminação dos espaços interiores por vezes seja demasiado escura. Por vezes esse artifício cria uma sensação de mistério, mas nem sempre resulta ao longo desta teia tecida por Denis Villeneuve, onde as reviravoltas por vezes não são consistentes, embora se elogie a ambição do cineasta que parece ter bebido muita inspiração em David Lynch, Alfred Hitchcock e David Cronenberg, enquanto procura afirmar-se com o seu cunho. Os momentos finais ficam particularmente na memória, embora não pareçam fazer grande sentido, ou talvez até façam muito sentido e surjam recheados de significado. "Enemy" não é um filme que pareça ter sido feito para fazer sentido, mas sim para explorar sensações, emoções e inquietações do espectador, mas também levantar-lhe questões, intrigá-lo e até confundi-lo, um conjunto de elementos em que é relativamente competente. No início do filme, encontramos a seguinte citação retirada do livro de José Saramago: "O Caos é a ordem ainda não decifrada". No final fica a certeza que Denis Villeneuve não nos enganou e procurou seguir este lema.

Título original: "Enemy". 
Título em Portugal: "O Homem Duplicado".
Realizador: Denis Villeneuve. 
Argumento: Javier Gullón.
Elenco: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini.

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