23 junho 2014

Resenha Crítica: "Dragnet Girl" (1933)

Em "Dragnet Girl", a sua vigésima nona longa metragem, Yasujiro Ozu coloca-nos perante uma película que muito parece ter dos filmes de gangsters que se encontravam a ser elaborados nos EUA na década de 30. A história acompanha elementos como Joji (Joji Oka), um antigo pugilista e gangster de pouco relevo, e a sua namorada Tokiko (Kinuyo Tanaka), uma tipógrafa constantemente cortejada pelo filho do seu chefe, uma mulher que esporadicamente ajuda a sua cara metade nos crimes. Quem pretende integrar o gang de Joji é Hiroshi (Kōji Mitsui), um jovem estudante e praticante de boxe, cuja irmã é Kazuko (Sumiko Mizukubo), uma mulher que recebe pouco mas o suficiente para manterem uma vida estável. Joji logo desenvolve algum interesse por Kazuko, uma mulher distinta de Tokiko, sendo mais frágil e cândida do que esta última, algo que desperta alguns ciúmes por parte da personagem interpretada por Kinuyo Tanaka. Kazuko procura que o irmão não se envolva no mundo do crime, embora o roubo que este efectua à caixa da sua loja conduza a uma série de eventos que podem ou não trazer a redenção ao casal de gangsters, ao longo desta relevante obra cinematográfica. A história de "Dragnet Girl" é bastante simples e por vezes até descai para o melodrama, mas Yasujiro Ozu agarra a narrativa ao apresentar-nos a um conjunto de personagens amplamente humanos, capazes do melhor e do pior, enquanto tentam sobreviver neste espaço citadino de Yokohama. Yasujiro Ozu ainda não utiliza exclusivamente os planos fixos (veja-se os tracking shots), embora já conte com os seus célebres pillow shots, onde não contamos com a presença humana e as sequências são divididas. Não temos os célebres planos com a roupa a ser estendida, mas nem por isso deixamos de estar perante um relógio a ser realçado e cheio de simbolismo. Os ponteiros do relógio avançam inexoravelmente mas estes personagens parecem tardar em encontrar um rumo para as suas vidas, sobretudo Joji e Hiroshi. Curiosamente, ou talvez não, as mulheres pretendem seguir rumos correctos para as suas vidas, com Tokiko a pretender mudar de vida com Joji, e Kazuko a pretender que o seu irmão não se envolva em problemas, algo aparentemente complicado de ser concretizado.

As relações familiares são fulcrais no cinema de Yasujiro Ozu, algo que não é diferente em "Dragnet Girl", pese estarmos num filme de gangsters. Nesse sentido, a relação entre Kazuko e Hiroshi quase que nos faz recordar a dos protagonistas de "Woman of Tokyo", com a irmã a sustentar o irmão, embora a sua história apresente características distintas. Temos ainda a redenção de dois gangsters, com Joji Oka a destacar-se como um indivíduo algo imponente, cuja face pode expressar uma atitude temível. O guarda-roupa deste personagem, destacando-se o pomposo chapéu, muito parece ter da representação dos gangsters de Hollywood, com Yasujiro Ozu a dar uma atenção latente às roupas dos seus personagens para expor as suas personalidades (veja-se as vestes tradicionais de Kazuko e as vestes ocidentalizadas de Tokiko), enquanto estes elementos deambulam pelos cenários citadinos que permeiam a narrativa. Esta é uma obra que se desenrola maioritariamente em espaços urbanos, com Yasujiro Ozu a explorar acima de tudo os espaços interiores, tais como o clube de boxe, um local que por vezes parece fazer uma ligação com os clubes nocturnos das obras de gangsters made in Hollywood, mas também os cenários exteriores, algo visível no intenso último terço da narrativa, onde temos um aproveitamento notável das ruas escuras nas quais os personagens interpretados por Joji Oka e Kinuyo Tanaka protagonizam alguns momentos inquietantes. Se de Joji Oka já elogiámos a interpretação, vale a pena realçar o trabalho de Kinuyo Tanaka, uma das grandes actrizes do cinema japonês, com esta a dar vida a uma mulher de índole duvidosa, uma vamp fumadora e sedutora, embora seja capaz de se redimir. Temos ainda Sumiko Mizukubo como a frágil Kazuko, uma mulher trabalhadora, séria, recatada e algo frágil, que procura afastar o Hiroshi do mundo do crime. Este é interpretado por um convincente Kōji Mitsui, com o actor a dar vida ao personagem que despoleta boa parte dos acontecimentos do filme, um indivíduo que procura ganhar dinheiro facilmente, embora os seus actos se preparem para trazer graves repercussões. Apesar de todos estes elementos positivos, quem mais sobressai em "Dragnet Girl" é Yasujiro Ozu, com o cineasta a voltar a revelar-se exímio na exploração dos relacionamentos e sentimentos humanos, elaborando uma obra marcada por uma boa utilização das sombras (veja-se as sombras dos estores a indicarem as grades de uma prisão), um argumento eficaz e uma realização como apenas este cineasta nos sabe dar, mesmo quando não estamos perante uma das suas obras maiores. Nesse sentido, "Dragnet Girl" surge como uma obra algo distinta de Yasujiro Ozu ao apresentar um mundo dos gangsters que foge das famílias de classe média que o cineasta nos apresenta em várias das suas obras cinematográficas, mas também das temáticas entre pais e filhos, naquele que é o seu terceiro filme deste subgénero (os primeiros foram "Walk Cheerfully" e "That Night's Wife"). Os cenários e a cinematografia foram supostamente inspirados nas obras de Josef von Sternberg, em particular "Underworld", onde também tínhamos gangsters como protagonistas, embora "Dragnet Girl" esteja longe de ser "apenas" um filme de gangsters. É um filme sobre laços entre seres humanos, sobre erros e redenções, sobre uma irmã e um irmão, sobre um casal de criminosos, entre muitas outras temáticas subtilmente abordadas por Yasujiro Ozu, um dos grandes cineastas da História do Cinema.

Título original: "Hijôsen no onna".
Título em inglês: "Dragnet Girl".
Realizador: Yasujiro Ozu.
Argumento: Tadao Ikeda.
Elenco: Kinuyo Tanaka, Joji Oka, Sumiko Mizukubo, Koji Mitsui, Yumeko Aizome.

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