29 junho 2014

Resenha Crítica: "The Docks of New York" (1928)

 Penúltimo filme mudo realizado por Josef von Sterneberg, "The Docks of New York" sobressai pela sua imaculada e magnífica cinematografia, enquanto nos coloca perante Bill Roberts (George Bancroft), um indivíduo que trabalha nas caldeiras a vapor dos navios, que salva Mae (Betty Compson), uma bela prostituta, de se afogar. Logo no início da narrativa somos deixados perante as dificuldades da profissão do protagonista, no tempo em que o carvão ainda era o combustível das embarcações, com Bill e os seus colegas a trabalharem arduamente, com os seus corpos a surgirem suados e sujos de carvão. Estes preparam-se para gozar um dia de folga, até a embarcação partir no dia seguinte, divertindo-se pela tasca local, pelo menos até Bill salvar Mae. O cenário é marcado por fortes nevoeiros e águas agitadas, com este a carregar Mae nos seus braços, levando a personagem interpretada por Betty Compson para o interior de um quarto nas imediações do bar, colocando-a com cuidado na cama. Estão em contraste a força bruta e protectora de Bill com a delicadeza desta "bela adormecida" que o protagonista espera ver acordar. Quando a encontra acordada, logo vê Mae a fumar, algo mal-visto quando se trata de uma figura feminina (na época em que o filme foi lançado), mas também simbolizador que esta se encontra longe de ser "uma santa". Corteja Mae, embora esta rechace alguns dos seus avanços, até decidir casar com a mesma, embora alguns contratempos possam colocar a relação de ambos em perigo. A história de "The Docks of New York" é extremamente simples, remetendo até para obras posteriores como "Anna Christie" e "Moontide", onde também tínhamos estes cenários rodeados pela presença do mar e as embarcações. No caso de "The Docks of New York" voltamos a ter a mulher sedutora que facilmente encanta a figura masculina, algo relativamente comum de encontrar em obras de Josef von Sternberg como "Der Blaue Engel", "Morocco", "The Devil is a Woman”, mas também um romance improvável estabelecido ao longo da narrativa. Bill é um indivíduo duro, pronto a exercer as suas opiniões pela força dos punhos, contando com os braços tatuados com os nomes das suas conquistas, contrastando com a aparente fragilidade de Mae. Ela veste-se de forma sensual e capaz de exacerbar as suas formas corporais, ele parece meio descuidado e pronto a considerar a primeira como sua posse. A rodear os personagens desta adaptação cinematográfica do livro "The Dock Walloper", encontram-se cenários exteriores marcados por nevoeiros vastos, que adensam a incerteza em volta dos destinos destes personagens, algo visível desde os momentos iniciais onde somos deixados perante as docas de Nova Iorque.

  Os personagens vagueiam sem saberem bem para onde vão, algo visível desde logo por Bill, que anda de local em local no seu barco, sem poiso certo e grandes objectivos, parecendo até envolver-se com Mae mais por diversão do que por ter perspectivas de futuro, embora até se case com esta. Mae é uma prostituta mas parece ceder às investidas do homem que salvou a sua vida, apresentando algum interesse no mesmo. Estamos perante dois personagens à margem da sociedade, um pouco como tínhamos em "Underworld" e "Der Blaue Engel", entre outras obras de Josef von Sternberg, que tem em "The Docks of New York" uma obra capaz de facilmente nos prender à sua história e deliciar com as magníficas imagens em movimento que nos são apresentadas. Existe não só um notório sentido estético, mas também uma noção de como utilizar o requinte das imagens ao serviço do enredo, algo visível nos já abordados nevoeiros, mas também na iluminação e até em cenários interiores como o interior do salão do bar onde Mae e Bill dialogam bastante. É também neste bar onde encontramos Andy (Mitchell Lewis num papel secundário com alguma relevância), um superior de Bill a procurar envolver-se com Mae (apesar de ser casado com a personagem interpretada por Olga Baclanova), bem como personagens a beberem muito, a dançar e à pancada, num cenário marcado por alguma imoralidade e perversão. Sente-se a necessidade destes personagens em sentirem e viverem, mas também uma certa incapacidade em mudarem as suas vidas, uma situação que conduziu Mae a procurar cometer suicídio. Betty Compson, embora longe do carisma de uma Greta Garbo ou Marlene Dietrich (a grande musa de Josef von Sternberg), consegue sublinhar através da sua interpretação a complexidade desta personagem, que varia entre uma ligação ao passado, uma vida de prazeres e dinheiros tão efémeros como o fumo dos seus cigarros, e uma vida como mulher casada e respeitável. Já George Bancroft atribui alguma empatia ao seu personagem, um indivíduo que apesar do acto heróico do salvamento e do casamento com Mae, está longe de estar livre dos seus pecados e de episódios pouco recomendáveis. As interpretações sobressaem pela sua discrição, bem como o argumento, com "The Docks of New York" a ser elevado pela forma como Josef von Sternberg nos expõe o enredo e explora os cenários (uma imagem de marca do cineasta). Josef von Sternberg esculpe as imagens, aproveita os nevoeiros latentes, as sombras que rodeiam os cenários, mas também as luzes, colocando-nos perante gente das margens, humana, pronta a viver e a errar, atribuindo uma dimensão superior a uma história simples, resultando numa obra magnífica.

Título original: "The Docks of New York".
Título em Portugal: "As Docas de Nova Iorque".
Realizador: Josef von Sternberg.
Argumento:  Jules Furthman.
Elenco: George Bancroft, Betty Compson, Olga Baclanova.

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