19 junho 2014

Resenha Crítica: "The Desperate Hours" (1955)

 Quando Glenn Griffin (Humphrey Bogart), o seu irmão Hal Griffin (Dewey Martin) e Simon Kobish (Robert Middleton), três foragidos que escaparam da prisão, invadem a casa dos Hilliard, logo o quotidiano desta família de classe média é alterado com as vidas dos seus elementos a serem colocadas em perigo. Liderados por Glenn, um indivíduo frio e impiedoso, pronto a agredir e a matar para alcançar os seus intentos, estes foragidos procuram um espaço onde se esconder da polícia e esperar pelo dinheiro enviado pelo contacto do criminoso. Na casa encontra-se inicialmente Eleanor Hilliard (Martha Scott), a esposa de Daniel C. Hilliard (Fredric March), juntando-se posteriormente este último e os dois filhos do casal, Cindy (Mary Murphy), uma jovem mulher na casa dos vinte e poucos anos, e Ralph (Richard Eyer), um rapaz na casa dos seis ou sete anos de idade. A família vive de forma pacata, embora Daniel lide de forma pouco simpática com o romance da filha com Chuck Wright (Gig Young), enquanto o jovem Ralph começa a exibir alguns sinais de impertinência de forma a mostrar que está a crescer. A chegada dos criminosos acrescenta elementos de enorme tensão ao quotidiano da família, gerando uma disputa de vontades entre Glenn e Daniel, ambos personagens algo calculistas e prontos a agirem de forma pragmática, com Humphrey Bogart e Fredric March a darem enorme dimensão a estes personagens. Bogart como o criminoso cruel, pronto a liderar o grupo e a inquietar os reféns, mais próximos dos gangsters que interpretara nos anos 30 do que os papéis a que teve direito depois de atingir o êxito como Rick Blaine. Este foi o penúltimo filme protagonizado por Humphrey Bogart, com o actor a regressar a um papel próximo do seu Duke Mantee, um dos seus primeiros personagens de relevo, com Glenn a procurar manipular a família e tentar que estes vivam como se nada se passasse, embora o seu plano conheça alguns contratempos. Já March atribui uma enorme segurança ao seu personagem, um indivíduo pronto a proteger a família a todo o custo, procurando esperar pelo melhor momento para encontrar um erro dos criminosos. Por vezes parece que se esboça uma certa relação de respeito entre ambos, formada através do despeito entre estes dois líderes, enquanto William Wyler gere a narrativa com pinças, criando a incerteza em relação ao destino dos personagens, transformando a espaçosa casa do protagonista num local claustrofóbico e tenso, onde nada parece poder ficar como era antes. 

 A tensão permeia a narrativa ou não estivéssemos perante uma família que se encontra cativa de um grupo de criminosos do pior, cujos elementos apresentam algumas distinções a nível de comportamentos, embora pretendam todos fugir às autoridades. Hal parece ser o mais desconfortável em todos estes actos do irmão, procurando evitar maiores constrangimentos, contrastando com a rudeza de Kobish, um indivíduo de comportamento violento. Estes três colocam a família em perigo, mas também aqueles que deles se aproximam, algo que adensa a inquietação em volta dos acontecimentos da narrativa. Veja-se o caso do indivíduo que recolhe o lixo da casa dos Hilliard, mas também da professora que procura saber informações sobre Ralph e até o namorado de Cindy. Para além desta temática central, temos ainda a investigação desenvolvida pelas autoridades, com Jesse Bard (Arthur Kennedy) a procurar a todo o custo capturar o grupo criminoso sem que este efectue novas vítimas. Estabelece-se uma espécie de jogo entre o gato e o rato, onde parece difícil que não surjam vítimas mortais, enquanto William Wyler realiza um thriller psicológico inquietante, naquele que é um dos mais marcantes filmes de invasão ao lar. O elenco permite elevar o nível do filme, bem como a realização de William Wyler, em particular a forma como este gere os ritmos da narrativa e aproveita o espaço da casa, para além de conseguir fazer evoluir os personagens de forma consistente ao longo do enredo e fazer-nos temer o pior em relação aos destinos da família Hilliard. O argumento é coeso e capaz de nos deixar perante um conjunto de situações relativamente credíveis, sobretudo se pensarmos que ainda não existiam telemóveis, internet e afins, que poderiam facilitar a comunicação em casos de emergência, sobressaindo ainda pelos diálogos certeiros proferidos pelos vários elementos do elenco. Temos ainda um conjunto de tensões no seio familiar, nomeadamente entre o filho que considera que o pai devia agir de forma decidida, e no interior do grupo criminoso, com Hal a parecer querer distanciar-se das acções dos outros dois elementos, algo que incute uma maior profundidade a todos estes acontecimentos até chegarmos ao desfecho. O último terço é marcado por enorme tensão, com William Wyler a prender a nossa atenção em relação ao desenrolar dos acontecimentos, enquanto coloca os seus personagens em momentos de enorme inquietação, sem lhes dar grandes contemplações ou descanso. 

Título original: "The Desperate Hours".
Título em Portugal: "Horas de Desespero".
Realizador: William Wyler.

Argumento: Joseph Hayes.
Elenco: Humphrey Bogart, Fredric March, Arthur Kennedy, Martha Scott, Dewey Martin.

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