30 junho 2014

Resenha Crítica: "Der blaue Engel" (1930)

 "O Anjo Azul" do título deste filme que lançou Marlene Dietrich para o estrelato remete para o cabaré de uma cidade alemã, onde Immanuel Rath (Emil Jannings), um recatado professor de literatura e inglês num Gymnasium, conhece o amor e a perdição da sua vida. Immanuel é um homem recatado, algo anafado, pouco dado a relacionamentos, que é alvo de algumas paródias por parte dos seus alunos. Quando descobre que os alunos frequentam o Anjo Azul, onde admiram as bailarinas, em particular a bela Lola-Lola (Marlene Dietrich), de quem guardam fotos, logo Immanuel vai procurar controlar as actividades nocturnas destes elementos. O local é marcado por bailarinas, prostituição, números com palhaços e algum erotismo, onde as mulheres seduzem os clientes e os fazem gastar mais do que a conta. Immanuel sente um misto de sentimentos neste local. Inicialmente de repulsa, mas também alguma atracção por Lola-Lola. Esta é sensual, encantadora, pronta a utilizar as suas formas corporais e capacidade de sedução para atrair os homens, uma vamp que facilmente desperta a atenção. Dietrich surge deslumbrante naquele que é o seu primeiro talkie, mas também o seu primeiro trabalho com Josef von Sternberg, um cineasta que a alçou ao estrelato, tendo com esta uma frutuosa relação profissional da qual resultaram obras como "Morocco", "The Scarlett Empress", entre outras. A iluminação parece contribuir para este deslumbramento causado por Dietrich, cuja personagem que interpreta vai encantar Immanuel, qual canto da sereia que se prepara para se revelar fatal. Na primeira vez que se encontram a impressão não é a melhor, mas, na segunda vez, Immanuel defende-a de um cliente que queria os serviços sexuais desta, mostrando o seu interesse nesta mulher e arranjando uma enorme confusão no "Anjo Azul", onde também se encontravam os seus alunos. Bebe muito champanhe, passa a noite com Lola-Lola e prova o doce néctar do amor, embora este gradualmente se comece a azedar e a destruir a sua vida. No dia seguinte, Immanuel logo é gozado na escola pelos alunos, acabando posteriormente por ser despedido quando anuncia que pretende casar com Lola-Lola. Está dado o mote para a sua queda em desgraça, com este a seguir com o grupo, a ver-se forçado a ganhar dinheiro a vender fotos da esposa, até chegar ao cúmulo final de trabalhar como palhaço. De humilhação em humilhação, Immanuel vai perdendo a cabeça até chegar ao poderoso final, onde facilmente nos condoemos da sua situação, mas nada podemos fazer para além de partilhar a sua dor e observar alguns momentos magníficos protagonizados por Emil Jannings ao longo desta adaptação cinematográfica do livro "Professor Unrat" de Heinrich Mann. 

Emil Jannings até tinha encontrado alguns problemas com Josef von Sternberg quando trabalharam juntos em "The Last Command", uma situação que voltou a acontecer em "Der Blaue Engel" mas não se repercutiu no trabalho final, com o actor a ter uma interpretação que facilmente fica na memória, tal a intensidade e realismo incutido na queda do seu personagem em desgraça, naquele que é o primeiro talkie do intérprete. Inicialmente encontramos Immanuel como uma figura algo tirânica e autoritária que procura exercer o seu poder em relação aos alunos, chegando até a humilhar um elemento que soletra mal, mas tudo muda quando conhece Lola-Lola. Immanuel apaixonou-se, um acto comum ao ser humano, embora neste caso o relacionamento acarrete a destruição da sua vida, com a sua obsessão por Lola a conduzi-lo à desgraça (a obsessão e a repressão sexual são temáticas comuns a várias obras do cineasta, algo visível por exemplo em “The Devil is a Woman”). Não deixa de ser curioso que inicialmente parece ser Immanuel o protector e Lola-Lola a personagem a necessitar de protecção, mas no último terço esta logo revela a sua verdadeira faceta, enquanto o primeiro vê todo o seu quotidiano desmoronar. É visível o seu desespero quando está a ser humilhado em palco e nos bastidores está a ver a sua amada a traí-lo, momentos intensos, com Jannings a sobressair como este indivíduo desfeito e Dietrich a mostrar todo o seu lado de mulher fatal que leva o protagonista à perdição. Esta ficou ainda famosa pelo momento em que cantou "Ich bin von Kopf bis Fuß auf Liebe eingestellt" (Falling in Love Again [Can't Help It]), uma música composta por Friedrich Hollaender, imbuída de algum erotismo e sensualidade, com Marlene Dietrich a roçar a perfeição na forma como expõe a mesma. As imagens em movimento contribuem para Dietrich sobressair, explorando as suas formas e feições, expondo o carisma desta e dando espaço para esta brilhar. O guarda-roupa contribui também para a sensualidade atribuída por Dietrich à personagem, mas também a iluminação, com Josef von Sternberg a contribuir para o nascimento de um ícone da História do Cinema. Diga-se que as imagens em movimento são marcadas por um enorme cuidado, sobressaindo algumas influências do expressionismo alemão, não só no aproveitamento nas sombras, mas também na própria exposição dos cenários exteriores, marcado por ruas labirínticas e edifícios por vezes a parecerem distorcidos nas suas formas. 

 O cuidado aplica-se ainda aos cenários interiores. Veja-se inicialmente a casa de Immanuel, marcada pela presença de vários livros, um pássaro recentemente falecido (mau presságio), mas também a sala de aula onde o protagonista raramente consegue manter a sua autoridade, para além do clube nocturno onde o personagem interpretado por Emil Jannings conhece o amor e a perdição. A queda deste ao abismo pode ser vista como um simbolizar de uma classe média/alta que se desfaz, ou não estivéssemos perante a Alemanha da República de Weimar, com Josef von Sternberg a regressar ao seu país após realizar vários trabalhos dos EUA e elaborar um dos últimos grandes filmes da UFA. Não deixa de ser curioso que este tenha regressado à Alemanha, efectuando um percurso algo inverso do que o que estava a acontecer, realizando uma das suas obras maiores, até voltar aos EUA, conseguindo pelo caminho elevar Marlene Dietrich ao estatuto de símbolo. Esta seduz o protagonista e o espectador, criando uma mulher com enorme sensualidade e malícia ao longo de um filme que conta ainda com um elenco secundário relativamente coeso. Ainda estamos nos primórdios dos talkies, algo que pode justificar alguns momentos a fazerem recordar os filmes mudos, sobretudo quando o protagonista se encontra a dar aulas, por vezes fitando demoradamente e silenciosamente os seus alunos, ao longo de uma obra realizada nas vésperas da ascensão de Adolf Hitler, mas também no período posterior à I Guerra Mundial, com o protagonista a quase simbolizar a queda de um intelectual que cede aos prazeres da carne, um pouco como alguns alemães vão ceder ao populismo de Hitler, embora a comparação tenha muitas limitações. No entanto, outro dos mistérios passa pelas razões para Lola-Lola se ter casado com Immanuel, para além da segurança e o cuidado que este inicialmente lhe dava. Todos a querem mas esta fica temporariamente com Immanuel, mantendo-se bela, enquanto este se desfaz emocionalmente e fisicamente, com a sua alma a ser arrasada pela perda do amor e pela noção que traiu todos os seus valores. Existe tragédia, imoralidade, algum humor e vários símbolos escondidos, ao longo deste filme onde Marlene Dietrich interpreta uma mulher sedutora que desperta a paixão de um homem, enquanto este gradualmente cai num abismo difícil de sair.

Título original: "Der blaue Engel".
Título em inglês: "The Blue Angel". 
Título em Portugal: "O Anjo Azul". 
Realizador: Josef von Sternberg. 
Argumento: Carl Zuckmayer, Karl Vollmöller, Robert Liebmann, Heinrich Mann, Josef von Sternberg.
Elenco:  Emil Jannings, Marlene Dietrich, Kurt Gerron, Rosa Valetti, Hans Albers, Reinhold Bernt.

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