25 junho 2014

Resenha Crítica: "Coming Home" (2014)

 Terno, comovente e delicado. Assim se poderia facilmente descrever "Coming Home", o recomendável novo filme do realizador Zhang Yimou. Gong Li e Chen Daoming ajudam a elevar o trabalho do cineasta, marcado por uma cinematografia cuidada, pequenas pinturas em movimento que realçam os fortes sentimentos que perpassam por este drama competente, onde os traumas do passado parecem ser demasiado fortes para serem debelados no presente. O panorama histórico, político, cultural e social da China tem alguma influência, em particular a Revolução Cultural Chinesa (1966-1976), algo que explica a detenção de Lu Yanshi (Chen Daoming), um antigo professor que foi enviado para um campo de trabalhos forçados em Xining. A sua filha, Dandan (Zhang Huiwen), praticamente não o conheceu, encontrando-se na transição para a idade adulta, enquanto a sua esposa, Feng Wanyu (Gong Li), uma professora, sofre com a ausência do marido. Dandan pretende assumir o papel principal de uma peça de bailado, sendo uma bailarina promissora, embora o facto do seu pai ser considerado um criminoso conduza a que esta não consiga alcançar o seu objectivo. Quando Lu foge do local onde se encontrava aprisionado e visita a filha, esta logo procura evitar o encontro entre o progenitor e a mãe, denunciando o pai às autoridades tendo em vista a ficar bem vista para conseguir o papel no espectáculo de ballet, uma situação que conduz à nova detenção deste, para desespero de Feng, que entra num enorme pranto por voltar a ficar afastada do marido. A cena da detenção é marcada por enorme emotividade, com o trabalho de câmara e montagem a adensar toda a inquietação em volta deste momento, onde um elemento é perseguido devido às suas posições ideológicas. Três anos depois deste incidente, a Revolução Cultural Chinesa termina, algo que conduz à libertação de Lu, com este a ser recebido pela filha. Esta trabalha numa fábrica e vive no dormitório do local, encontrando-se algo afastada da mãe desde o célebre episódio em que denunciou o progenitor, embora este perdoe a filha, culpando-se por todo o tempo que esteve ausente da vida desta. No entanto, os momentos mais dramáticos surgem quando Feng encontra Lu e esta não conhece o esposo, embora aguarde de forma terna e comovente pelo mesmo. Poderíamos salientar que a narrativa entra pelo melodrama, mas isso seria simplificar ao máximo aquilo que Zhang Yimou tem para nos dar, com este a colocar-nos perante alguns momentos de partir o coração sem incorrer na lamechice, enquanto nos deixa perante este casal que esteve separado durante um longo período de tempo.

Feng ama o marido, sente a sua falta, espera ansiosamente pelo seu regresso, mas os traumas a que foi sujeita conduziram a que tenha perdido a memória em relação à figura do mesmo. Inicialmente pensa que este é Fang, um soldado que a maltratou, algo que conduz Lu a afastar-se da esposa e a consultar um médico que salienta que a personagem interpretada por Gong Li padece de uma doença do foro psicológico que lhe tolda uma parte da memória. Esta recorda-se de muitos episódios do passado, mas perdeu as feições do esposo e apresenta notórias debilidades a nível mental. Lu não se afasta desta, bem pelo contrário, assumindo várias identidades distintas tendo em vista a procurar estimular a memória da esposa e procurar que esta se recorde de si. Neste sentido, procura ensaiar um regresso falso, para tentar que Feng o reconheça quando espera pelo mesmo na paragem do comboio, no dia 5, uma data mencionada na carta enviada por este, mas logo a personagem interpretada por Gong Li fica desiludida por não conhecer ninguém, enquanto Lu percebe que o seu plano falhou, com ambos a ficarem muito próximos a nível corporal, mas distantes do ponto de vista emocional. Posteriormente, Lu finge ser um indivíduo que afina o piano do dono da casa, tocando uma canção no mesmo, algo que gera um momento de cortar a respiração, onde esta se recorda do esposo, abraça-o, mas não consegue discernir quem este é na realidade. Quando assume a função de elemento que ajuda Feng a ler as cartas escritas pelo marido, Lu começa a aproximar-se cada vez mais da esposa, embora a personagem interpretada por Gong Li pense que este é outra pessoa. A partir deste momento, parece começar a ficar claro para Lu que o melhor é procurar continuar a cuidar da esposa, mesmo que esta pense que ele é outra pessoa, sacrificando-se em prol da mesma, tal como esta fizera em relação à sua pessoa no passado, protagonizando alguns ternos momentos com a protagonista. A história surge marcada por vários momentos dramáticos, mas também de alguma ternura, sendo quase de partir o coração a forma como estes dois personagens sofrem com as ausências. Lu sofre com a ausência de memória da esposa (notando-se um enorme sentimento de culpa devido à sua ausência e prisão terem contribuído para esta situação), enquanto esta espera pelo marido, ouvindo atentamente os textos que este lhe escreveu e escreve, não desconfiando que o mesmo se encontra a seu lado.

Gong Li dá uma lição de interpretação como esta personagem, reunindo-se com o realizador que marcou a sua estreia na interpretação cinematográfica e com quem teve alguns dos melhores momentos na Sétima Arte. Veja-se as colaborações de ambos em obras como "Red Sorghum", "Raise the Red Lantern", "The Story of Qiu Ju", "To Live", "Shanghai Triad", entre várias outras obras cinematográficas que expõem bem as magníficas colaborações entre este realizador de especial relevância e uma das actrizes mais talentosas da sua geração, com "Coming Home" a procurar emular o sucesso de alguns destes filmes. O olhar e os gestos de Gong Li transmitem-nos uma imensidão de sentimentos ao longo do filme (veja-se o seu rosto quando a protagonista aguarda esperançosa pelo marido na paragem de comboio), com a actriz a beneficiar ainda da delicadeza com que Zhang Yimou expõe a sua personagem diante do espectador. Veja-se quando Feng grita para o marido fugir das autoridades, encontrando-se um comboio em circulação a separar estes dois, mas também o destino, para além dos momentos ao lado do personagem interpretado por Chen Daoming, muito marcados por aproximações e afastamentos, com a condição mental da protagonista a tardar em melhorar. A personagem interpretada por Gong Li olha regularmente para o calendário, espera sempre pelo dia cinco, data do suposto regresso, mas nunca encontra o marido, embora ele esteja tão próximo, apesar desta apenas se recordar das memórias do passado. Podemos encontrar nesta personagem uma metáfora para uma China a procurar lidar e recuperar de alguns episódios menos gloriosos da história recente, enquanto tenta prosseguir com o presente, com Zhang Yimou a não descurar algumas mensagens subtis ao longo do filme. Embora padeça de falta de memória, Feng não se esquece dos desaguisados com a filha, não tendo problemas em salientar que esta "afinal tem um coração" quando Dandan lhe entrega uma fotografia do pai quando era mais jovem. Dandan é outra das personagens de relevo, surgindo, tal como os pais, amargurada em relação ao passado. Sonhou ser bailarina mas agora trabalha numa fábrica, tendo denunciado o seu pai num acto de rebeldia que trouxe graves consequências para os progenitores. Lu procura formar uma ligação com a filha, após todos estes anos de ausência, enquanto Feng ainda pensa que esta é uma bailarina, algo revelador do distanciamento entre estas duas mulheres.

A jovem estreante Zhang Huiwen tem uma interpretação muito positiva como Dandan, mas acaba algo abafada pela dupla de protagonistas, algo que não a impede de ter um lugar de destaque. Dandan é uma jovem inicialmente fiel ao partido, mais até do que à família, apresentando uma militância tão rígida como os complexos passos de dança que tem de seguir no espectáculo de ballet que procura protagonizar. A relação com a mãe está longe de ser pacífica, enquanto a relação com o pai vai sendo construída de forma gradual, com ambos a procurarem ajudar a personagem interpretada por Gong Li a recuperar a memória, parecendo certo que Dandan procura ser perdoada pela protagonista. Gong Li brilha, mas também Chen Daoming o consegue fazer em grande nível. Daoming consegue transmitir com enorme naturalidade a dor, o desespero e a culpa que o seu personagem sente devido à condição de Feng, ficando claro que este antigo professor não parece disposto a desistir de procurar recuperar a memória da personagem interpretada por Gong Li, mesmo que para isso tenha de fingir ser outras pessoas para estar perto dela. Esta procura de Lu em ajudar Feng acaba por funcionar como uma prova de amor e de gratidão, com o protagonista a demonstrar que os anos de separação não destruíram os sentimentos que tinha pela esposa, uma situação que fica relativamente evidente ao longo do filme. Lu e Feng protagonizam alguns momentos de enorme ternura mas também de grande desespero, parecendo certo que as suas vidas nunca ficarão verdadeiramente completas, embora se esforcem para seguir em frente, com Zhang Yimou a aproveitar de forma paradigmática a dinâmica muito positiva que Gong Li e Chen Daoming apresentam quando estão juntos. Zhang Yimou tem em "Coming Home" uma obra terna e delicada, marcada por um argumento relativamente simples e dois protagonistas capazes de prenderem a nossa atenção e gerarem a nossa preocupação em relação aos seus destinos. O cineasta "agarra" por completo a narrativa, regressando às temáticas da Revolução Cultural Chinesa, após "Under the Hawthorn Tree", remetendo também para um hábito de inculcar elementos históricos da China nas suas obras, embora em "Coming Home" o centro da narrativa esteja neste regresso do personagem do título a casa. Isso não implica que através do caso particular destes dois personagens não possamos abrir possibilidades sobre uma realidade mais lata, nomeadamente para outros elementos que se viram afastados devido a estas detenções durante a Revolução Cultural.

As questões políticas raramente são abordadas com a mesma assertividade do drama que envolve a dupla de protagonistas, mas nem por isso deixamos de encontrar elementos como a perseguição a intelectuais como Lu, referências ao Partido Comunista, entre outros exemplos. Veja-se ainda o espectáculo de ballet marcado pela propaganda política, mas também o busto de Mao na casa da personagem interpretada por Gong Li, com a figura do político a ser exposta num momento de repressão, para além dos símbolos colocados nos vestuários dos personagens, algo que revela alguma subtileza e atenção aos pormenores. Temos ainda as figuras de Lu e Feng, dois elementos que procuram lidar com o que lhes aconteceu no passado, algo que pode simbolizar um olhar da China actual em relação ao seu passado, procurando "reconciliar-se" com o mesmo. Nas mãos de outro realizador e de outro elenco poderíamos estar perante um drama irrelevante, até por estarmos perante uma história relativamente simples, mas "Coming Home" está longe de não deixar marca, evidenciando-se ainda por uma cinematografia exemplar, um bom trabalho a nível de caracterização e uma banda sonora capaz de incrementar os momentos sem sobrepor-se aos mesmos. Cada plano parece ter sido composto com enorme cuidado, sobressaindo sobretudo as cenas filmadas em cenários interiores, marcadas por uma iluminação bastante sóbria e uma decoração adequada às personalidades dos personagens (veja-se a casa da protagonista, muito marcada pela simplicidade e pela presença de elementos como a estante com livros, reveladora da educação e cultura do casal, mas também o piano que esteve tapado durante todo o tempo em que Lu esteve ausente, com este objecto a simbolizar a longa espera de Feng), embora também devamos elogiar a eficaz utilização de alguns cenários exteriores, algo visível nos sublimes planos finais marcados pela presença da neve, com esta a adensar a atmosfera de melancolia que rodeia os mesmos. Temos também o marcante momento em que Dandan chora à chuva, num cenário tão escuro e obscuro como os sentimentos que esta sente, após ter sido colocada de fora de uma posição de relevo da peça devido a ser filha de um criminoso. Diga-se que não vemos ninguém a dizer directamente a esta que não foi seleccionada para protagonizar o espectáculo de ballet, com Zhang Yimou a não ficar refém de demasiadas explicações, confiando na inteligência do espectador, embora em alguns momentos se repita nas questões relacionadas com a perda parcial de memória da protagonista, ao longo de um enredo que teve como base o livro "The Criminal Lu Yanshi" de Geling Yan (autora de "13 Flowers of Nanjing", um livro que serviu de base para "Flowers of War"). Entre um casamento apenas vivo pelas memórias do passado e uma relação conspurcada pelos traumas de outrora, "Coming Home" surge-nos como um drama humano terno e delicado, capaz de nos envolver na sua teia narrativa e emocionar. Zhang Yimou pode ter alguns tropeções ao longo da sua carreira, mas este certamente não é um deles.

Título original: "Coming Home".
Realizador: Zhang Yimou.
Argumento: Zou Jingzhi.
Elenco: Chen Daoming, Gong Li, Zhang Huiwen.

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