22 junho 2014

Resenha Crítica: "A Bill of Divorcement" (1932)

 A relação profissional entre Katharine Hepburn e George Cukor revelou-se particularmente frutuosa, remetendo para as memoráveis colaborações entre os actores/actrizes e os realizadores que marcaram a História do Cinema. Katharine Hepburn não é a Marlene Dietrich de Josef von Sternberg nem a Greta Garbo de Clarence Brown, mas nem por isso deixou de ser um ícone da História do Cinema, tendo colaborado com George Cukor em filmes como "Little Woman", "Sylvia Scarlett", "Holiday", "The Philadelphia Story", num total de oito colaborações, boa parte das quais marcadas por obras bastante recomendáveis. Foi exactamente com George Cukor que Katharine Hepburn se estreou na interpretação cinematográfica, nomeadamente em "A Bill of Divorcement", uma obra lançada originalmente a 20 de Setembro de 1932, tendo como base a peça homónima de Clemence Dane. A história é bastante simples, remetendo para as famílias de classe média/alta de obras como "The Philadelphia Story" e "Holiday", embora "A Bill of Divorcement" não conte com o nível elevado destas últimas películas, faltando-lhe um argumento com mais classe e capaz de explorar com maior minúcia as questões abordadas. O enredo acompanha uma família que se depara com o regresso inesperado de Hilary (John Barrymore) a casa, após quinze anos de ausência devido a ter estado internado numa clínica psiquiátrica. Os momentos iniciais colocam-nos perante a véspera de Natal de Margaret Fairfield (Billie Burke), a antiga esposa de Hilary e mãe da filha deste, Sydney (Katharine Hepburn), duas mulheres que se encontram prestes a casar. Sydney encontra-se noiva de Kit Humphreys (David Manners), enquanto que Margaret está prestes a casar-se com Gray Meredith (Cavanagh), um advogado que a ajudou no processo de divórcio. Sydney e Margaret vivem numa habitação espaçosa, com dois andares, decorada com alguns luxos, reveladora das posses desta família, habitando ainda neste local a tia Hester (Elizabeth Patterson), o único elemento deste núcleo familiar que parece acreditar na recuperação do personagem interpretado por John Barrymore. Estes momentos iniciais de "A Bill of Divorcement" servem sobretudo para apresentar os personagens, em particular a relação entre Sydney e a mãe, bem como os relacionamentos destas com os respectivos noivos, até Hilary fugir da clínica devido a ter recuperado a memória após um suposto choque durante a I Guerra Mundial. Este recuperou finalmente a memória, padecendo de uma doença genética que pode vir a afectar Sydney e os seus descendentes, procurando recuperar o tempo perdido embora muito tenha mudado na sua ausência, algo que logo vai esbater a sua felicidade inicial. Hilary procura recuperar a sua esposa, embora esta apenas sinta pena do antigo marido, enquanto Sydney tenta acalmá-lo e conviver com o progenitor, tendo consciência que um dia pode vir a padecer da mesma doença.

 Embora Sydney esteja longe de ser uma das personagens mais memoráveis ou complexas que interpretou, Katharine Hepburn sobressai na sua primeira obra cinematográfica, atribuindo uma candura e fragilidades muito próprias a esta jovem, embora esta esteja longe de ser um elemento fraco, não tendo problemas em expressar a sua opinião e defender as suas ideias. O sacrifício final de Sydney parece algo excessivo e nem sempre se parece coadunar com o rumo da narrativa, embora nem por isso retire valor ao papel de Hepburn. George Cukor teve uma relevância notória na carreira de Katharine Hepburn, algo desde logo visível por ter escolhido a actriz para o elenco de "A Bill of Divorcement" (indo contra as ideias do produtor David O. Selznick), mas também por ter sido um dos cineastas que mais soube tirar proveito do talento da mesma. Em "A Bill of Divorcement", George Cukor exibe-se mais uma vez como um cineasta exímio na construção das personagens femininas e na exposição dos relacionamentos humanos, conseguindo aproveitar sagazmente o argumento relativamente simples que tem à disposição e elevar o nível desta obra cinematográfica. Veja-se desde logo a forma eficaz como Cukor estabelece o quotidiano destas mulheres e as suas personalidades, até romper com a rotina das mesmas com a chegada do personagem interpretado por John Barrymore, deixando os acontecimentos da narrativa fluírem de forma quase natural e a um ritmo adequado. O cineasta destaca-se ainda pelo aproveitamento do cenário primordial do filme, a casa de Hilary, onde não falta a presença de um piano que vai proporcionar alguns momentos de ligação entre este e a filha. Barrymore atribuiu alguma densidade a este personagem algo trágico, mas ao mesmo tempo proporcionador de alguns momentos de humor, recuperando a memória vários anos depois de ter regressado da I Guerra Mundial. Para Hilary o Mundo parou, embora para os restantes elementos a vida tenha continuado, algo que vai gerar um choque neste e naqueles que o rodeiam. A doença deste raramente é explorada, bem como o quotidiano do mesmo na clínica onde se encontrava internado, com o filme a procurar antes aproveitar as dinâmicas familiares entre estes elementos e a forma como Hilary veio romper com o status quo. Sydney e Margaret sofreram com a sua ausência, mas já se encontravam a seguir com as suas vidas, ficando perante um dilema de difícil resolução que o filme procura resolver com alguma leveza. A lei do título remete para a possibilidade de alguém se poder divorciar de outra pessoa devido à insanidade de outro cônjuge, algo que Margaret activa, procurando ser feliz junto de Gray. Billie Burke não se destaca ao nível de Barrymore e Hepburn mas consegue ser bastante eficaz a explorar os dilemas emocionais desta personagem, que parece nunca ter amado verdadeiramente o marido no passado e fica numa encruzilhada no presente quando Hilary regressa. "A Bill of Divorcement" destaca-se acima de tudo por ser o filme que marca a estreia de Katharine Hepburn no grande ecrã, embora aborde algumas temáticas relevantes como a hereditariedade de algumas doenças do foro mental, para além de nos deixar perante mais uma boa interpretação de John Barrymore e uma realização bastante assertiva de George Cukor. 

Título original: "A Bill of Divorcement".
Título em Portugal: "Vitimas do Divórcio".
Realizador: George Cukor. 
Argumento: Howard Estabrook e Harry Wagstaff Gribble.
Elenco:  John Barrymore, Billie Burke, Katharine Hepburn, David Manners.

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