09 junho 2014

Resenha Crítica: "The Barefoot Contessa" (1954)

 "The Barefoot Contessa" conta-nos maioritariamente em flashback a história de Maria Vargas, uma mulher que pareceu viver um conto de fadas, embora este tenha terminado em tragédia, algo que podemos comprovar quando no início do filme nos deparamos com o seu funeral. O cenário é marcado pela presença da chuva e um ambiente pesado, enquanto Harry Dawes (Humphrey Bogart), um realizador e argumentista, nos conta a história de como conheceu Maria Vargas (Ava Gardner), antes desta ser a estrela "Maria D'Amata", internacionalmente conhecida e desejada por todos os homens. Mas o que terá conduzido à sua morte prematura? São esses acontecimentos que nos vão ser relatados maioritariamente por Harry, bem como por Oscar Muldoon (Edmond O'Brien) e o Conde Vincenzo Torlato-Favrini (Rossano Brazzi), três homens que acompanharam parte da sua vida. Não deixa de ser curioso que boa parte da imagem que vamos ter de Maria D'Amata seja fornecida por elementos que acompanharam a sua vida, com a sua história a ser contada do ponto de vista daqueles que rodearam esta misteriosa mulher que apresentava ares de diva e uma personalidade sonhadora, aparentemente pouco adequada a Hollywood e aos seus excessos. Temos assim mais um filme certeiro sobre os bastidores no meio artístico e sobre Hollywood, depois de obras magníficas como "All About Eve" e "Sunset Boulevard", com Joseph L. Mankiewicz a deixar-nos perante a ascensão e queda de Maria Vargas, ao mesmo tempo que nos coloca perante um lado mais negro da Sétima Arte e do ser humano. A primeira vez que a encontramos é em Espanha, quando Kirk Edwards (Warren Stevens), um milionário de Wall Street que pretende produzir um filme e descobrir uma nova estrela, dirige-se ao país acompanhado por Oscar Muldoon (Edmond O'Brien), um elemento responsável pelas relações públicas, Harry, bem como uma jovem que acompanha o personagem interpretado por Warren Stevens, sendo expulsa por este. Neste local, os elementos ligados ao filme procuram por Maria Vargas, conhecida pelo seu talento para a dança e pela sua beleza, uma mulher de origens humildes que estes procuram convencer a aceitar o desafio de fazer um teste em Roma para protagonizar uma obra cinematográfica. Esta recusa aparecer junto destes devido a ter uma regra de nunca se juntar aos clientes do local onde trabalha, embora seja convencida por Harry Dawes a aceitar a proposta. Maria fica pouco agradada com a arrogância de Kirk, com este a ser representado como um produtor frio, pouco preocupado com aqueles que rodeiam, procurando dominar tudo e todos, incluindo a protagonista, algo que não agrada a esta mulher, sendo descrito por Harry como alguém que "Tinha tanto em comum com a arte como eu com a física nuclear".

Harry Dawes é um antigo alcoólico, apresentando um semblante geralmente calmo, revelando sempre algum pragmatismo, acabando por convencer Maria a viajar com estes. Os seus melhores tempos como realizador já parecem ter passado, mas Maria Vargas logo traz um novo fulgor à sua carreira, enquanto Jerry (Elizabeth Sellars) é o baluarte perfeito para a sua vida pessoal, mantendo uma sólida relação com esta mulher. Dawes realiza os únicos três filmes da carreira de Vargas, elevando-a ao sucesso, formando com esta uma relação de enorme proximidade, algo que este realça quando comenta que é "Amigo, realizador, confessor, psiquiatra em tempo parcial". Humphrey Bogart cria um personagem apelativo, um cineasta pronto a ajudar a sua estrela, condescendente, por vezes algo cínico na forma como observa o Mundo que o rodeia, procurando regressar aos seus melhores momentos, enquanto tenta evitar que elementos como Kirk Edwards se intrometam em demasia no seu trabalho. A relação de Dawes com Maria é marcada por enorme candura, com Bogart e Ava Gardner a apresentarem uma dinâmica notável, enquanto "The Barefoot Contessa" nos deixa perante alguns momentos magníficos entre estas duas lendas. Gardner tem boa parte do brilho do filme, esta interpreta a Condensa descalça, uma personagem algo ingénua e exótica, pronta a não esquecer as suas raízes, não fumadora, que procura não ser contaminada por Hollywood. Ava Gardner atribui uma graciosidade impar à sua personagem, ou não viesse aureolada com o carisma e o talento apenas ao alcance de poucos, concedendo um enorme mistério a Maria. Esta vive uma história próxima de um conto de fadas, comparando-se por vezes a Cinderela, embora "The Barefoot Contessa" nos exiba paradigmaticamente que a vida não é um conto de fadas. Maria permite expor um olhar algo crítico em relação a Hollywood e à forma como os produtores pretendem interferir na criação artística, na pouca relevância dada ao factor humano, com Joseph L. Mankiewicz a por vezes parecer querer emular a fórmula de "All About Eve", uma das suas obras-primas, onde nos deixava perante os bastidores da Broadway. Em "The Barefoot Contessa", Mankiewicz por vezes cai no melodrama excessivo, sobretudo a partir do momento da festa em casa de Maria (a fazer recordar a festa de "All About Eve" que marcava o regresso de Bill e o seu aniversário), onde esta discute com Kirk e acaba por aceitar a proposta de Alberto Bravano (Marius Goring), um milionário da América do Sul, tendo em vista a viajar com este último. Nada acontece entre ambos, com Alberto a estar mais interessado em mostrar para o exterior que pode existir uma relação sentimental, logo a deixando após uma violenta discussão onde esta é defendida pelo Conde Vincenzo Torlato-Favrini. Este é um indivíduo galanteador e ambicioso, que pretende alguém deslumbrante para abrilhantar a sua linhagem, iniciando com Maria uma relação que parecia um conto de fadas mas vai terminar em tragédia.

A existência de Maria é marcada pelos homens que a rodeiam e influenciam a sua vida, algo que permeia toda a narrativa. Nos momentos iniciais Kirk, Oscar e Harry pretendem convencê-la a fazer os testes para perceberem se esta sabe representar e pode ficar com o papel de protagonista do filme, algo que a conduz a formar uma forte ligação com o realizador e uma relação intempestiva com o produtor. A relação de Maria com os homens não se fica por aqui. Veja-se quando tem de regressar a Espanha devido ao pai se encontrar em tribunal devido a ter assassinado a mãe, com Maria a procurar defender o progenitor em tribunal, salientando que este era mal-tratado e alvo de agressões. Temos ainda o boémio Alberto Bravano, um homem dado aos luxos, poderoso, mais preocupado com as aparências do que com a realidade. Posteriormente temos ainda a relação desta com o conde Vincenzo Torlato-Favrini, com o filme a deslocar a protagonista de local em local, de relação em relação, deixando-nos perante a sua ascensão, qual Cinderela, até cair na realidade e perder o brilho que emana. No final fica sempre a dúvida sobre quem é realmente Maria Vargas. Dançarina bela, quente e sensual em Espanha, actriz de sucesso em Hollywood, namorada dedicada em Itália com o Conde, amiga verdadeira de Harry Dawes, esta é sempre um mistério que nunca chegamos a desvendar verdadeiramente, apresentando uma personalidade complexa, exposta maioritariamente pelos olhares dos outros ao longo de um drama sublime. Joseph L. Mankiewicz mostra mais uma vez uma enorme capacidade para dirigir actores e tirar destes interpretações magníficas, criando com os mesmos personagens que se destacam, sobressaindo ainda o magnífico argumento. As falas são marcantes, com os actores a saberem colocar as mesmas em prática, destacando-se Ava Gardner e Humphrey Bogart, mas também Edmond O'Brien como Oscar Muldoon, um indivíduo pouco confiável, que exibe uma ambição tão grande como o seu suor, não tendo problemas de trocar o trabalho com Kirk pelo trabalho com Alberto Bravano. Este é um dos três narradores do filme, tendo parte activa do mesmo, enquanto somos deixados perante a história de Maria D'Amata. O aproveitamento dos cenários sobressai, com Mankiewicz a filmar os interiores no Cinecittà em Rome, enquanto os exteriores foram filmados em locais como Tivoli, Sanremo e Portofino, sobressaindo particularmente o último terço onde somos colocados perante a luxuosa habitação do conde. A história foi livremente inspirada no casamento entre Rita Hayworth e o Príncipe Aly Khan, mas também em elementos da vida de Ava Gardner (que teve um caso com Howard Hughes), com Joseph L. Mankiewicz a criar uma drama envolvente e de grande valor, onde nos apresenta à inesquecível Maria Vargas. Ava Gardner surge com uma graciosidade e uma presença digna da aura quase divina criada em volta da sua personagem, dançando, encantado, mantendo os seus pés descalços mesmo quando atinge o estatuto de Condensa, protagonizando alguns momentos de enorme intensidade emocional naquela que tem sido uma obra demasiado subvalorizada.

Título original: "The Barefoot Contessa".
Título em Portugal: "A Condessa Descalça".
Realizador: Joseph L. Mankiewicz.
Argumento: Joseph L. Mankiewicz.
Elenco: Humphrey Bogart, Ava Gardner, Edmond O'Brien, Marius Goring, Warren Stevens, Rossano Brazzi.

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