13 junho 2014

Resenha Crítica: "The Anderson Tapes" (1971)

 Não deixa de ser curioso que "The Anderson Tapes" tenha sido desenvolvido e lançado pouco tempo antes do chamado "Caso Watergate" e surpreendentemente continue tão actual nos dias de hoje, expondo o controlo a que estamos sujeitos pelas agências de segurança e a ilegalidade de alguns dos seus actos, algo paradigmaticamente representado no desenrolar e nos momentos finais deste filme de assalto realizado por Sidney Lumet. Tendo como base o livro homónimo de Lawrence Sanders, "The Anderson Tapes" coloca-nos perante John "Duke" Anderson (Sean Connery), um criminoso que passou dez anos na prisão devido a assaltos cometidos. O acto de arrombar cofres e propriedades alheias assemelha-se a um prazer quase sexual para este criminoso, algo revelado por Duke quando salienta que "The beauty of it was, I was falling in love with the whole thing". Este é um revoltado contra o sistema e as instituições, uma situação que evidencia logo nos momentos iniciais do filme quando comenta de forma corrosiva: "What's advertising but a legalized con game? And what the hell's marriage? Extortion, prostitution, soliciting with a government stamp on it. And what the hell's your stock market? A fixed horse race. Some business guy steals a bank, he's a big success story. Face in all the magazines. Some other guy steals the magazine and he's busted". De saída da prisão, acompanhado por William "Pop" Myer (Stan Gottlieb) um indivíduo que esteve preso durante toda a II Guerra Mundial e afins devido a ter assassinado um polícia, e "The Kid" (Christopher Walken), um jovem adulto que fora detido devido ao tráfico de droga, Duke decide ir ter com Ingrid Everleigh (Dyan Cannon), a sua antiga namorada, uma mulher que vive num luxuoso apartamento em Nova Iorque. Ingrid é uma mulher directa, pronta a terminar com o namorado quando se reencontra com Duke, embora seja interesseira o suficiente para não se entregar totalmente, tendo com o protagonista uma relação marcada por uma grande abertura a nível sexual.

Duke prepara um assalto aos vários apartamentos do prédio da namorada, contando com o financiamento de um mafioso que aparentemente procura seguir caminhos "mais legais", reunindo "The Kid", "Pop", Tommy Haskins (Martin Balsam), Spencer (Dick Anthony Williams) e "Socks" (Val Avery), este último a mando de Pat Angelo (Alan King), o gangster que financia a operação. O assalto encontra-se a ser preparado para decorrer durante o fim de semana do Labor Day, de forma a que Duke e os restantes elementos consigam aproveitar a possibilidade de alguns residentes não se encontrarem no interior das suas casas, ludibriando as câmaras e a forte segurança do prédio. Enquanto isso assistimos a gravações ilegais por parte de estranhos, que gradualmente descobrimos serem elementos do Departamento do Tesouro (no caso das escutas a Pat Angelo), de uma agência contratada pelo namorado de Ingrid (no caso das escutas à casa desta), do FBI (no caso das escutas a Tommy Haskins), da divisão de Narcóticos (no caso de Kid), algo que traduz bem o clima de vigilância exacerbada que rodeia "The Anderson Tapes", ao mesmo tempo que os criminosos procuram cometer o suposto "crime perfeito" que afinal não vai ser tão fácil de colocar em prática como aparentemente poderia parecer. Nos dias de hoje a vigilância intensa da NSA e das variadas agências de segurança à actividade on-line da população, bem como as câmaras de segurança em variados locais, são temas relativamente na ordem do dia e geradoras de polémica. As escutas telefónicas também não são novidade e "The Anderson Tapes" tem a particularidade de prever o que viria a acontecer em parte no chamado "caso Watergate". Em "The Anderson Tapes", Sidney Lumet atribui um tom mordaz a estas escutas e à ineficácia e ilegalidade das mesmas, algo que contribui para adensar a tensão deste filme de assalto, mas também a ironia, ou não estivéssemos a assistir a um assalto preparado em enorme secretismo que afinal até está a ser descoberto e escutado por vários elementos, embora não esteja a ser entendido. "The Anderson Tapes" consegue apresentar a preparação do assalto de forma relativamente interessante, muito ao estilo dos vários filmes do género, reunindo os diversos elementos, expondo as tarefas de cada um, ao mesmo tempo que aproveita para explorar levemente as mudanças a nível de segurança que ocorreram durante o período em que Duke esteve na prisão, enquanto esperamos para ver a concretização do crime.

 No centro da narrativa está Duke, com Sean Connery a conseguir tornar apelativo este criminoso com valores morais muito próprios, pronto a assaltar as propriedades (devido a estas contarem com seguro contra roubo) e a enriquecer com facilidade. Duke tem um romance com Ingrid, marcado por muito sexo, pragmatismo, mas condenado ao fracasso, partilhando com alguns elementos do grupo um certo sentimento de fraternidade. Entre esses elementos que protagonizam o assalto encontra-se "The Kid", interpretado por Christopher Walken. Este surge pela primeira vez num filme de maior destaque mas não tem grande espaço para sobressair como "The Kid", o responsável por tratar das questões ligadas com electricidade, ao contrário de Martin Balsam, com este último a destacar-se como um amigo de longa data de protagonista, especialista na venda de antiguidades e produtos roubados. Temos ainda Dick Anthony Williams, como Spencer, o indivíduo responsável por guiar o veículo na suposta fuga, mas o actor também não consegue sobressair ou não fosse em parte o "show" de Sean Connery. O assalto arquitectado por Duke é marcado pela violência, mas também por algum humor (veja-se a idosa entusiasmada por ser assaltada), com Sidney Lumet a procurar não descurar alguns elementos de maior leveza durante a colocação em prática do crime. Apesar de nem sempre explorar convincentemente os diferentes elementos do grupo e o assalto perder algum fôlego com o desenrolar (e o desvendar) dos acontecimentos, Sidney Lumet consegue desenvolver um thriller relativamente interessante, sobretudo pela forma algo pioneira e assertiva como expõe estas questões ligadas com as escutas telefónicas e as câmaras de segurança, elementos que viriam a estar presentes em vários filmes do género. Diga-se que os anos 70 trouxeram-nos uma boa safra de thrillers com elementos de conspiração, algo que aparece também exposto neste interessante filme de assalto, com Sidney Lumet a não ter problemas em fazer comentários sobre a sociedade do seu tempo através do protagonista, um criminoso que dá espaço para Sean Connery expor o seu talento e carisma.

Título original: "The Anderson Tapes".
Título em Portugal: "O Dossier Anderson". 
Realizador: Sidney Lumet.
Argumento: Frank Pierson.
Elenco: Sean Connery, Martin Balsam, Christopher Walken, Dyan Cannon.

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