08 junho 2014

Resenha Crítica: "All About Eve" (1950)

 Drama marcado por diálogos de excelência e interpretações magníficas de Bette Davis e Anne Baxter, "All About Eve" é uma das grandes obras da história do cinema, um filme onde a ambição no mundo do teatro é explorada ao máximo, com o lado negro do ser humano a ser exposto sem contemplações. Joseph L. Mankiewicz tem em "All About Eve" uma das suas obras primas, criando algo de sublime, pontuado por grandes momentos de cinema, onde assistimos à ascensão de Eve no mundo do teatro. No início do filme, encontramos Eve Harrington (Anne Baxter) a vencer o Prémio Sarah Siddons devido ao seu desempenho magnífico como Cora em "Footsteps on the Ceiling". A narrativa logo recua no tempo, deixando-nos a espaços com a narração de Karen Richards (Celeste Holm) e do cáustico crítico Addison DeWitt (George Sanders). Karen é a esposa do famoso escritor de peças de teatro Lloyd Richards (Hugh Marlowe), tendo uma sólida amizade com Margo Channing (Bette Davis), uma estrela da Broadway que acabou de chegar aos quarenta anos de idade. Margo é uma mulher com atitudes de diva, consciente dos problemas que o avançar da idade podem trazer para a sua carreira, tendo uma aura das grandes estrelas, continuando a interpretar papéis de mulher mais jovem embora o seu corpo já comece a dar sinais de envelhecimento. Esta namora com Bill Sampson (Gary Merrill), um realizador de peças de teatro, incluindo "Aged in Woods", onde a protagonista dá vida a uma mulher na casa dos vinte e poucos anos. O sucesso de Margo é tão grande como os seus devaneios, não tendo problemas em discutir contra tudo e todos para defender os seus ideais e estatuto, tendo na chegada de Eve um momento de mudança. Eve é apresentada a Margo por Karen, após um espectáculo de teatro, com a jovem interpretada por Anne Baxter a despertar a atenção de tudo e todos pela sua delicadeza, nervosismo e enorme admiração pela protagonista. Eve veio supostamente de uma família pobre, tendo perdido o marido durante a II Guerra Mundial, assistindo a todos os espectáculos de Margo, com a ríspida actriz a gerar alguma afeição por esta jovem, contratando-a como sua assistente, algo que desagrada a Birdie, uma amiga e funcionária da protagonista. Gradualmente Eve começa a entranhar-se na vida de Eve, Bill, Lloyd e Karen, conquistando a confiança de todos, procurando emular os gestos e comportamentos da personagem interpretada por Bette Davis até começar a revelar a sua faceta ardilosa e uma malícia que gradualmente se mostra. 

 Anne Baxter é sublime a modificar gradualmente os comportamentos da sua personagem. Esta parece ser demasiado bem intencionada para ser real, mas convence-nos das suas boas intenções, tal como aos restantes personagens (com excepção do crítico de teatro), apresentando uma faceta doce, empenhada, pronta a ajudar a melhorar a vida de Margo. Quando começa a mostrar a sua ambição em ser a substituta de Margo na peça "Aged in Woods" e protagonizar a peça "Footsteps on the Ceiling", Eve logo exibe a sua faceta ambiciosa, revelando uma enorme obstinação para ascender ao estrelato e conhecer a aclamação do público. O seu lado negro conduz ainda a tentar conquistar Bill e Lloyd, bem como Addison, procurando ascender a todo o custo e sem olhar a meios, chocando de frente com Margo e desiludindo todos os que confiaram em si. Enquanto isso, Margo procura manter-se no topo, apresentando um comportamento intempestivo, surgindo pronta a defender o seu estatuto e a sua relação, algo visível na festa que marca o regresso de Bill após ter estado em Hollywood (uma comemoração que integra ainda o aniversário deste). Na festa Margo logo começa a mostrar a sua desconfiança em relação a Eve, enquanto assistimos a vários elementos bastante corrosivos em relação aos bastidores do teatro. Este mundo do teatro e a disputa por um lugar no topo do mundo da representação é exibido de forma sublime por Joseph L. Mankiewicz, com o cineasta a deixar-nos perante as peripécias de um conjunto de elementos ligados a este meio, não faltando disputas de poder, intrigas, relacionamentos de fachada, comportamentos pouco correctos, embora também exista espaço para a amizade, algo visível na relação entre Margo, Bill, Lloyd e Karen. Os quatro apresentam uma ligação próxima, embora nem por isso deixem de ter os seus arrufos, sobretudo a partir do momento em que Eve entra em cena. Veja-se quando Eve efectua os testes para ser a actriz substituta de Margo no caso desta se ausentar, algo que vai conduzir a um ataque de fúria desta última por não ter sido avisada, mas também a procura da personagem interpretada por Anne Baxter em chantagear Karen. Mankiewicz dá espaço ao elenco para brilhar, embora seja impossível não destacar Anne Baxter, Bette Davis e George Sanders. Este último como um crítico diletante, bem falante, cínico, implacável e inteligente, um dos poucos a desconfiar de Eve e a saber controlá-la, entrando por vezes em conflito com Margo, relacionando-se no meio apesar de não ser actor, realizador ou argumentista. Se este não é um actor, já Margo é uma actriz de enorme reputação, com Bette Davis a transmitir a esta personagem a aura das grandes divas. Bette Davis tem em Margo uma das grandes personagens da sua carreira, algo que não é dizer pouco, ou não estivéssemos a falar de uma das grandes lendas de Hollywood, com a actriz a ter um desempenho memorável. 

Sobre o desempenho de Bette Davis, disse Roger Ebert com a sua enorme sapiência, "Her veteran actress Margo Channing in 'All About Eve' (1950) was her greatest role; it seems to show her defeated by the wiles of a younger actress, but in fact marks a victory: the triumph of personality and will over the superficial power of beauty. She never played a more autobiographical role". E torna-se complicado acrescentar muito mais às palavras do "mestre" que traduzem na perfeição este trabalho da actriz. Davis nunca transforma a sua personagem em alguém completamente desagradável, apesar das suas atitudes também deixarem a desejar, com Eve por vezes a não ter problemas em maltratar todos à sua volta e a afiar as suas garras para não perder o seu estatuto, embora tenha um bom coração e posteriormente apresente intenções em acalmar a sua vida e casar. O guarda roupa da personagem é paradigmático de como tudo funciona bem ao longo do filme, com Eve a surgir quase sempre com vestes cuidadas, casacos de peles, vestidos de enorme elegância e maquilhagem adequada. Esta mantém uma relação com alguns arrufos com Bill, embora sejam sempre fiéis a ambos e aos seus ideais, ao contrário do que acontece com Karen e Lloyd, com este último por vezes a ceder aos avanços de Eve, com a ambiciosa personagem do título a mexer com o quotidiano destes personagens. Karen por vezes narra-nos os acontecimentos, ou não tivesse alguma "culpa" na ascensão de Eve, tendo apresentado a mesma a Margo, mas também elaborado um plano para esta última não poder ir a um espectáculo dando assim uma oportunidade para a aspirante mostrar o seu valor. O casamento de Karen logo entra em perigo quando Lloyd se aproxima em demasia, com "All About Eve" a fazer evoluir com enorme vigor os seus personagens e os seus relacionamentos. Não é uma representação agradável esta que nos é apresentada do mundo do teatro e acrescentamos que do mundo do espectáculo, com os seus bastidores a serem expostos com algum realismo e cinismo. Eve procura chegar ao topo, enquanto Margo procura manter-se por lá, com ambas a exibirem grande talento na arte da representação, ao contrário de Casswell (Marilyn Monroe), uma aspirante de grande beleza, que seduz homens influentes mas não se impõe na Broadway tendo de ir para a televisão, parecendo existir aqui uma pequena "bicada" com a televisão e Hollywood a serem considerados dois meios "menores" em relação a todo este mundo do teatro. 

 Esta bicada a Hollywood não deixa de ser algo irónica, pois "All About Eve" é um dos mais recomendáveis exemplos das obras oriundas dos EUA, com Joseph L. Mankiewicz a gerir um drama emocionalmente intenso, marcado por interpretações fabulosas, onde os bastidores do teatro facilmente parecem transformar-se num palco onde o darwinismo social parece ser colocado em prática. Diga-se que estas disputas podem ser aplicadas a outras profissões, com Mankiewicz a deixar os seus personagens crescerem ao longo desta narrativa contada maioritariamente em flashback. O elenco contribuiu para os personagens ganharem outra espessura, algo que não deixa de ser curioso se pensarmos que nomes como Bette Davis e Anne Baxter não foram primeiras opções para esta adaptação do conto "The Wisdom of Eve". O conto foi baseado na história verídica de Elisabeth Bergner, uma actriz da Broadway que deixou uma fã entrar na sua vida, acabando por descobrir que as suas histórias eram mentira, com a admiradora a ser uma aproveitadora que pretendia subir na vida às custas desta. A história acabou por ser adaptada por Joseph L. Mankiewicz, que assume as funções de realizador e argumentista de uma obra capaz de bater o record (na época) de nomeações para os Oscars, tendo alcançado catorze distinções, algo que não é sinónimo de qualidade, mas é representativo do impacto que o filme teve aquando da sua exibição. "All About Eve" facilmente desafiou a passagem do tempo, com Joseph L. Mankiewicz a sobressair pelo aproveitamento do elenco e do argumento. Ficamos assim perante um dos grandes clássicos do cinema dos EUA, uma obra marcada por um conjunto de diálogos de grande qualidade, interpretações memoráveis de Bette Davis e Anne Baxter, mas também muitos momentos icónicos apenas ao alcance de filmes extraordinários como este. 

Título original: "All About Eve". 
Título em Portugal: "Eva"
Realizador: Joseph L. Mankiewicz.
Argumento: Joseph L. Mankiewicz.
Elenco: Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Celeste Holm.

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