03 junho 2014

Resenha Crítica: "Ace in the Hole" (1951)

 Quais os limites para um jornalista conseguir um furo de grande repercussão? Para Chuck Tatum (Kirk Douglas), o protagonista de "Ace in the Hole", parecem existir poucos limites, para não dizer praticamente nenhuns, com este a fazer de tudo para ter um furo, incluindo manipular a história e os acontecimentos, interferindo nos mesmos para que cheguem aos leitores da maneira que pretende. Existe presente ao longo de quase todo o filme uma crítica ao jornalismo sensacionalista e à falta de ética de alguns dos profissionais desta área, com Billy Wilder a desenvolver um drama soberbo, inquietante e a espaços claustrofóbico, onde uma vida humana parece contar pouco em relação a um furo jornalístico e à diversão das massas. A vida em questão é de Leo Minosa (Richard Benedict), um indivíduo que se encontrava a procurar antiguidades dos índios, tendo ficado preso no interior de uma mina. Chuck depara-se com a história de Leo depois de ter sido designado para cobrir a caça às serpentes em Los Barrios, após um ano no jornal "Albuquerque Sun-Bulletin", onde tinha chegado no início do filme, quando se encontrava desempregado e com os bolsos vazios. Mal descobre a notícia, Chuck logo procura contactar com Leo, procurando saber tudo sobre este e a sua família, incluindo sobre Lorraine Mimosa (interpretada de forma sublime por Jan Sterling), a esposa infiel do personagem interpretado por Richard Benedict. Acompanhado por Herbie Cook, um jovem fotógrafo e jornalista do "Albuquerque Sun-Bulletin", Chuck desde cedo procura manipular o caso a seu favor, procurando que o resgate demore mais tempo, contando para isso com a ambição desmedida daqueles que o rodeiam. Desde o Xerife corrupto que vê nesta situação uma possibilidade de se promover ao longo dos dias e sair como o herói, passando por Lorraine, uma mulher adúltera e pouco interessada no destino do marido que fica interessada no dinheiro que entra em caixa graças à população que se dirige ao local, tudo parece contribuir a favor de Chuck, excepção feita ao destino. O caso cedo se transforma num "circo mediático", com gentes de vários locais a deslocarem-se a Escudero para verem a missão de resgate a trabalhar, esperando saber o destino de Leo, enquanto se divertem imenso pelo caminho, não faltando um parque de diversões montado à volta do local. Enquanto isso, Chuck ganha praticamente o estatuto de herói, com a sua arrogância a conduzi-lo a apresentar a demissão, até o estado de saúde de Leo começar a deteriorar-se e a prometer estragar os planos do protagonista em entregar um final apoteótico e feliz aos leitores.

 Estamos perante o lado negro do jornalismo sensacionalista e pouco profissional, com Chuck a procurar fabricar notícias e a apresentar histórias distorcidas, procurando ascender a todo o custo e sem olhar a meios para atingir esse desiderato. Os momentos em que comunica com Leo são emocionalmente intensos, com Richard Benedict a expressar bem as mudanças de estado de espírito do personagem ao longo do tempo em que se encontra preso. O espaço fechado da mina é claustrofóbico, sufocante, pronto a deixar-nos inquietos em relação ao destino de Leo, mas também em saber como Chuck vai resolver tudo isto. O trabalho de fotografia exacerba estes momentos, adensando a tensão e inquietação, com Kirk Douglas a criar um personagem imoral, capaz de criar alguma aceitação junto do espectador, embora nunca simpatizemos com os seus actos, surgindo como alguém com poucos escrúpulos e pouco profissional. Este é frio e manipulador, alcoólico, surgindo como um personagem algo complexo, para quem "boas notícias não são notícias", beneficiando imenso do magnífico argumento e do trabalho de Kirk Douglas. Veja-se a forma como Chuck procura manipular tudo e todos à sua volta, incluindo Lorraine, uma mulher bela, mas pouco confiável, cujo amor sentido pelo marido não é retribuído por esta. Lorraine passa para a imprensa como uma mulher dedicada, visto que Chuck considera que a história vende melhor, sendo apenas mais uma personagem de carácter dúbio e ambiciosa que rodeia o enredo e parece pouco preocupada com o destino de Leo Minosa. Billy Wilder não tem contemplações e deixa-nos perante um filme algo pessimista em relação ao ser humano e aos seus comportamentos, mas também em relação a algum trabalho jornalístico e até à forma como os leitores aderem a este tipo de trabalhos. Esta é uma questão que ainda se coloca nos dias de hoje, algo visível por exemplo em Portugal com o Correio da Manhã, onde o populismo e o sensacionalismo dominam, algo que se traduz num sucesso relativo de vendas. No caso de "Ace in the Hole" ficamos perante um jornalista imoral, cujos actos são muitas das vezes pouco recomendáveis, embora tenhamos o contraponto na figura do dono do "Albuquerque Sun-Bulletin", um indivíduo para quem a verdade está acima de tudo, ao longo deste filme baseado em dois casos reais.

O primeiro destes casos foi inspirado em W. Floyd Collins, um indivíduo que em 1925 ficou preso no interior da Sand Cave, no Kentucky, um evento coberto por William Burke Miller, um jornalista que contribuiu para dar uma enorme repercussão mediática ao caso, um pouco como acontece no filme. O segundo caso é inspirado na história de Kathy Fiscus, uma jovem de três anos de idade que caiu num poço abandonado, um evento que ganhou enorme atenção popular e jornalística. Em ambos os casos, os elementos que ficaram presos faleceram, com Billy Wilder a não ter problemas em capturar o frenesim em volta dos eventos, mas também a cobertura da imprensa, tendo em Kirk Douglas um elemento capaz de exacerbar e personificar a atmosfera negra que rodeia a narrativa. Existe todo um realismo a envolver o enredo, incluindo o seu desfecho, com o filme a não ter contemplações para com a humanidade, efectuando comentários contundentes, enquanto explora o comportamento do ser humano perante um caso desta envergadura. É um filme que abre possibilidades relevantes não só para questionar o trabalho jornalístico, mas também o público que consome certo tipo de trabalhos, exibindo um certo prazer pela desgraça alheia. Quantas vezes não encontramos amontoados de gente em volta de um acidente automóvel, ou até estranhos a visitarem funerais de elementos que praticamente não conhecem, parecendo existir um certo prazer pelo mórbido que vai muito para além da curiosidade e respeito. Claro que cada caso é um caso, sendo que em "Ace in the Hole" não estamos perante os jornalistas idealistas e relevantes de "All the President's Men", essenciais para o desvendar da verdade. Existem jornalistas competentes e incompetentes, tal como existem realizadores pouco capazes e cineastas brilhantes, Billy Wilder insere-se neste último grupo, analisando com perspicácia elementos relevantes da sociedade do seu tempo, neste caso relacionados com o jornalismo, um pouco como fizera com Hollywood no magnífico "Sunset Boulevard". O resultado final é um filme magnífico e intemporal, marcado por um argumento de grande valia e uma interpretação intensa de Kirk Douglas, surgindo com um exemplo a não seguir para os jornalistas.

Título original: "Ace in the Hole".
Título em Portugal: "O Grande Carnaval".
Realizador: Billy Wilder.
Argumento: Walter Newman, Lesser Samuels, Billy Wilder.
Elenco: Kirk Douglas, Jan Sterling, Robert Arthur, Porter Hall.

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