26 maio 2014

Resenha Crítica: "The World is Not Enough" (1999)

 Já com Pierce Brosnan estabelecido como James Bond, naquele que é o seu terceiro filme como protagonista da famosa saga cinematográfica do espião ao serviço de Sua Majestade, "The World is Not Enough" tira o seu título a uma frase de "On Her Majesty's Secret Service" (livro e filme), enquanto nos deixa perante uma obra cinematográfica de acção relativamente bem conseguida, cumprindo em boa parte daquilo que é esperado. Não faltam cenas de acção intensas e bem elaboradas, uma conspiração à escala internacional, antagonistas megalómanos, deslocações em vários países e cenários, Bond Girls, o espião a exibir o seu lado galanteador, mordaz e implacável, para além de um prólogo marcante. No prólogo assistimos ao assassinato de Sir Robert King (David Calder), um magnata ligado ao ramo do petróleo que adquiria relatórios ilegalmente para o MI6, tendo uma amizade pessoal com M (Judi Dench). King é eliminado devido a uma armadilha elaborada por Renard (Robert Carlyle), um antigo agente do KGB, agora um perigoso terrorista, que outrora raptara a filha do falecido. Este tem uma bala no seu cérebro, algo que lhe retirou a sensibilidade, prevendo-se que pretende eliminar Elektra King (Sophie Marceau), uma situação que conduz M a enviar James Bond para proteger a bela filha de Robert King. Esta é uma mulher aparentemente frágil, mas bastante decidida, procurando continuar a construção de um oleoduto no Azerbaijão, uma decisão aparentemente arriscada mas que esta assume sem grandes problemas. No território, Bond logo seduz e deixa-se seduzir pela bela Elektra, acabando por procurar protege-la quando são atacados na neve, algo que o conduz até ao Cazaquistão para tentar desvendar o caso, um local onde se encontra uma base que conta com a presença de uma arma nuclear e plutónio. Neste local encontra-se a física nuclear Christmas Jones (Denise Richards), uma mulher que acaba por terminar com o disfarce de Bond, indo posteriormente ajudá-lo, sobretudo quando percebe que Renard, um elemento que se encontra no local, procura roubar a arma nuclear. Bond salva-se e a Christmas, procurando avisar M que Elektra pode não ser tão inocente como parece, enquanto procura desvendar o caso intrincado em que se envolveu. Os planos dos antagonistas passam pelo controlo petrolífero do território, procurando contaminar o Bósforo, algo que colocaria o oleoduto de Elektra como um meio privilegiado para transportar petróleo pelo Mediterrâneo, um desiderato que Bond vai procurar travar. Entre Inglaterra, Azerbaijão, Cazaquistão e Turquia, a missão de James Bond revela-se intrincada, recheada de perigos e muita acção. Pierce Brosnan volta a destacar-se como este agente secreto implacável perante os inimigos e as mulheres, seduzindo e deixando-se seduzir, procurando a todo o custo travar uma conspiração que pode ter consequências gravosas.

 Embora esteja longe de surpreender, mesmo nas suas reviravoltas, "The World is Not Enough" cumpre relativamente bem naquilo a que se espera dos filmes da saga. As cenas de acção são intensas, não faltando uma fuga de esqui a fazer recordar "On Her Majesty's Secret Service", serras gigantes e cortantes, muitos tiroteios, explosões, fugas aparentemente impossíveis, enquanto James Bond é colocado perante uma série de adversidades que, com maior ou menor dificuldade, vai ultrapassando. Este também é um elemento típico da saga, com Michael Apted a colocar o espião perante diversas adversidades, enquanto Pierce Brosnan sobressai mais uma vez no papel. Seja a disparar falas sardónicas, seja nas intensas cenas de acção, seja a seduzir belas mulheres, Brosnan convence como James Bond, expondo paradigmaticamente a personalidade muito própria deste agente secreto. A contrastar com esta humanidade de Bond encontra-se Renard, com Robert Carlyle a expor o feitio algo frio e pouco dado a sentimentos do seu personagem. Já Sophie Marceu sobressai como "Bond Girl", atribuindo uma falsa fragilidade à sua misteriosa e sensual personagem. Por sua vez, Denise Richards fica com a personagem feminina mais frágil e de mais fácil sedução, cujo nome remete para uma tradição da saga que permite alguns trocadilhos em relação às "Bond Girls" (veja-se Pussy Galore, Xenia Onatopp, entre outras), com Christmas a inadvertidamente ver-se envolvida no meio desta missão de James Bond. Vale ainda a pena destacar Robbie Coltrane como Valentin Zukovsky, um mafioso que possui um casino, trafica armas e tem uma marca de caviar, um elemento de carácter dúbio que fornece algumas informações a James Bond, apresentando uma personalidade deveras peculiar. O argumento é relativamente eficaz a estabelecer os personagens e a criar algum mistério em volta dos objectivos de Renard e Elektra, respeitando o rumo que a saga tem conhecido ao longo do tempo, naquele que é o penúltimo capítulo antes do reboot iniciado em "Casino Royale". Aos elementos já sugeridos, temos ainda as invenções de Q (Desmond Llewyn) que faz a despedida para entrar no seu lugar o personagem interpretado por John Cleese (nomeado R por James Bond, embora seja o novo Q), para além de veículos topo de gama, um memorável tema sonoro (desta vez a cargo dos Garbage), ao longo de um filme que conta com um eficaz argumento de Neal Purvis, Robert Wade e Bruce Feirstein. A missão de Bond surge marcada por várias reviravoltas, remetendo para a disputa pelo domínio de zonas de controlo de petróleo, não faltando pelo caminho muita acção, humor, sensualidade e um ritmo adequado, com a saga a mostrar uma vitalidade surpreendente ao seu décimo nono filme.

Título original: "The World is Not Enough".
Título em Portugal: "007 - O Mundo Não Chega".
Realizador: Michael Apted.
Argumento: Neal Purvis, Robert Wade, Bruce Feirstein.
Elenco: Pierce Brosnan, Sophie Marceau, Robert Carlyle, Denise Richards, Robbie Coltrane, Judi Dench.

Sem comentários: