23 maio 2014

Resenha Crítica: "On Her Majesty's Secret Service" (1969)

 Provavelmente um dos filmes menos consensuais da saga cinematográfica de "James Bond", "On Her Majesty's Secret Service" nem por isso deixa de apresentar vários elementos a ter em atenção, incluindo o seu final pronto a despertar o choque e a surgir como um dos mais memoráveis da franquia. Este é o sexto filme que conta com o famoso espião ao serviço de Sua Majestade como protagonista, tendo pela primeira vez um novo intérprete, o modelo e actor George Lazenby, um nome que apenas protagonizou um filme da saga. O seu desempenho está longe de ser um dos mais memoráveis. De expressões algo rígidas e por vezes pouco naturais, Lazenby teve ainda de lidar com o "fantasma" de Sean Connery, um dos intérpretes mais icónicos da saga - que viria a regressar em "Diamonds Are Forever" - algo difícil de ultrapassar, visto que o seu desempenho iria estar sempre sujeito a comparações, uma situação que teve alguma repercussão na forma como o filme foi recebido pelo público e pela crítica. Embora conte com uma conspiração à escala global planeada por Ernst Stavro Blofeld (Telly Savalas), o líder da SPECTRE, "On Her Majesty's Secret Service" apresenta uma maior contenção em relação aos exageros de "Thunderball" e "You Only Live Twice", algo que posteriormente viria a ser retomado em "Diamonds Are Forever". Os engenhos de Q praticamente não são sugeridos, existe tempo para construir os personagens e fazê-los evoluir na narrativa, para além da ambiciosa forma como James Bond nos é apresentado. Continua mulherengo, pronto a disparar falas sardónicas, mas apresenta vulnerabilidades até então raramente vistas, desobedecendo a ordens e apaixonando-se pela Condessa Teresa di Vicenzo (Diana Rigg), mais conhecida por Tracy, a ponto do casamento ser uma das temáticas na ordem do dia. A primeira vez que a encontramos, esta parece estar pronta a cometer suicídio, procurando afogar-se na praia, acabando por ser salva por James Bond, que mais tarde a encontra num casino, em Portugal, onde logo a seduz e se deixa seduzir. Esta é filha de Marc-Ange Draco, um mafioso que lidera o Unione Corse, um poderoso sindicato do crime, um indivíduo que logo ordena aos seus homens que transportem James Bond até ao seu escritório. Este pretende que Bond case com Teresa, ou pelo menos continue a relação com esta de forma a que a filha reencaminhe a sua vida, algo que o protagonista aceita, sobretudo porque existe pelo caminho a possibilidade de Draco poder fornecer informações sobre o paradeiro de Blofeld. De volta a Londres, James Bond é retirado da operação Bedlam visto continuar sem encontrar Blofeld, algo que o leva a apresentar a demissão, embora Moneypenny elabore apenas um pedido de licença de férias.

Bond regressa a Portugal, para a festa de anos de Draco, onde reencontra Tracy e descobre uma ligação entre Blofeld e Gumbold, um advogado suíço. Na correspondência entre Blofeld e Gumbold encontra-se uma carta para Sir Hilary Bray, um genealogista, com o antagonista a reclamar o título de "Conde Balthazar de Bleuchamp" de forma a assumir outra identidade. O agente secreto disfarça-se de Hilary Bray, viajando para Piz Gloria, na Suíça, onde se encontra o instituto para cura de alergias de Blofeld, no qual este conta com a presença de várias belas mulheres em tratamento. Blofeld criou um vírus capaz de esterilizar as plantações de trigo, os seres vivos, entre outros, procurando em troca receber uma quantia elevada e uma amnistia pelos crimes cometidos, de forma a poder viver livremente como Balthazar de Bleuchamp, algo que James Bond vai procurar evitar. Não vão faltar perseguições na neve, fugas de carro, fugas de ski, com os frios cenários alpinos a surgirem escaldantes a nível emocional. A começar pela perigosa missão de James Bond, com este a não descurar seduzir algumas das supostas doentes que se encontravam no instituto, acabando por ficar frente a frente com Blofeld, um dos antagonistas mais icónicos da saga, aqui interpretado pelo carismático Telly Savalas. Este protagoniza alguns momentos intensos com James Bond, enquanto George Lazenby procura fazer o que pode para convencer como o marcante agente secreto. Não é um desastre, mas também está longe de atingir o estatuto de um Sean Connery, tendo alguma química com Diana Rigg, a espécie de Bond Girl. Do ponto de vista emocional podemos colocar Teresa quase a um nível de Vesper Lynd (Eva Green) em "Casino Royale", sobressaindo sobretudo pela relação "mais séria" que tem com o agente secreto e o impacto emocional provocado pelo seu destino. Nesse sentido, "On Her Majesty's Secret Service" revela-se provavelmente uma das obras com um final mais marcante e de maior impacto da saga, com o realizador Peter R. Hunt (director de segunda unidade de alguns dos filmes anteriores da saga) a saber como terminar um filme algo irregular em termos de argumento e até de ritmo, mas capaz de apresentar pormenores verdadeiramente interessantes.

Por vezes as cenas de acção estendem-se em demasia (as cenas de acção na neve perdem algum impacto devido a isso) e em algumas redundâncias, mas acerta ao procurar dar uma dimensão mais profunda a James Bond e a Teresa. Diga-se que de forma amiúde descura a presença desta ao longo de boa parte da narrativa e reintroduz a mesma "a martelo", parecendo por vezes esquecer-se de Tracy perante a missão do protagonista, mas nem por isso a irreverente mulher deixa de sobressair. O romance entre os dois tem alguma dimensão, surpreendendo ainda a forma como mais do que uma vez James Bond coloca a possibilidade de resignar, existindo uma dimensão muito interessante dada ao personagem, embora a falta de carisma de George Lazenby arrase um pouco com a ambição dos envolvidos. Num filme da saga não poderiam ainda faltar cenas de acção, sedução, algum humor (veja-se quando Bond dirige-se aos espectadores a dizer que "This never happened to the other fellow" em referência a Sean Connery), tensão e uma conspiração à escala global, algo que "On Her Majesty's Secret Service" em nada nos fica a dever. Vale ainda a pena realçar que existiu também uma procura dos produtores Harry Saltzman e Albert R. Brocolli em tornar "On Her Majesty's Secret Service" o mais próximo possível do livro homónimo de Ian Fleming, algo que explica alguns elementos que não ligam bem com outros filmes da saga, tais como Blofeld não reconhecer o famoso agente secreto. Os cenários exóticos são ainda substituídos pela Suíça, mas também por Portugal, com este a ser o primeiro filme da saga a contar com filmagens em locais como Hotel Estoril Palácio, Praia do Guincho, Parque Nacional da Arrábida, a Ponte 25 de Abril, o Cabo Espichel, entre outros, com o protagonista a estar mais uma vez em constante movimentação. "On Her Majesty's Secret Service" está longe de ser um dos filmes mais consensuais da saga, mas está ainda mais distante de ser aquele que provoca maior indiferença.

Título original: "On Her Majesty's Secret Service".
Título em Portugal: "007 - Ao Serviço de Sua Majestade".
Realizador: Peter R. Hunt.
Argumento: Richard Maibaum e Simon Raven.
Elenco: George Lazenby, Diana Rigg, Telly Savalas, Bernard Lee, Gabriele Ferzetti.

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