15 maio 2014

Resenha Crítica: "História da Minha Morte"

 Juntar Casanova e o Dracula até parece uma ideia por si só intrigante, mas Albert Serra logo destrói todas essas expectativas com uma abordagem marcada por um pretensiosismo excessivo, onde tudo é tão estático e sem sentimento como os seus planos e diálogos. O Casanova (Vincenç Altaió) que nos é apresentado é alguém já longe do seu apogeu galanteador, que vive das memórias do passado, aparentemente culto, habitando num castelo muito marcado pela iluminação das velas, na transição do Século XVIII para o XIX. A narrativa desenrola-se em boa parte em cenários interiores, marcados por algum rigor na sua construção, utilização da luz natural (com excepção da utilização das velas), enquanto somos apresentados ao protagonista em momentos relativamente banais, tais como comer romãs (algo excessivamente repetido, que pode querer simbolizar o sexo em abundância que este teve), mas também defecar, com Albert Serra a não nos poupar a momentos mais escatológicos de Casanova, chegando até a expor com vigor a cara deste em esforço e os dejectos. Este conta ainda com a companhia de elementos como Pompeu, um criado que perde dinheiro no jogo, e um outro companheiro com quem dialoga. Algum tempo depois o enredo avança para os Cárpatos, onde encontramos uma atmosfera algo etérea, mais escura, marcada pela presença do Dracula (Eliseu Huertas), uma criatura exposta com uma contenção rara, embora nem por isso deixa de ser tão pouco convincente como a dos vampiros purpurina da saga "Twilight". Não brilha como Edward (felizmente, embora até consiga circular à luz do dia sem problemas), mas não chega para simbolizar o contraste entre o romantismo representado por esta figura com o pragmatismo de Casanova, algo que Serra parece querer engendrar, estando longe de um Dracula ameaçador, tal como o protagonista está longe de se destacar. 

 Se o Dracula procura possuir as mulheres que habitam a casa de Casanova, um conjunto de figuras unidimensionais que pouco ou nada são exploradas para além do simbolismo, já o protagonista surge como alguém pouco ameaçador, que viveu vários episódios marcantes e parece já ter conhecido os seus melhores dias. As cenas na habitação de Casanova, antes da ida abrupta para os Cárpatos, é marcada por alguns cenários interiores pontuados por farta comida, luz das velas, mas pouco sentimento. Albert Serra tirou inspiração de "Histoire de Ma Vie" de Giacomo Casanova, procurando apresentar-nos este libertino num estilo muito próprio, explorando o seu quotidiano em direcção à morte, enquanto nos exaspera perante uma narrativa opaca, vários simbolismos expostos a martelo e repetidamente, um conjunto de diálogos que podem conter referências a Voltaire, Rousseau e à época em que se desenrola esta espécie de enredo mas pouco convencem, sendo pelo menos de elogiar que o cineasta não colocou as várias horas de filme que tinha à disposição. Diga-se que com este argumento até dava para estender "História da Minha Morte" para dez horas, bastando para isso acrescentar mais um conjunto de diálogos pueris e pseudo-existencialistas que muito agradou ao júri do Festival de Locarno mas que por aqui pouca ressonância causaram. Albert Serra volta a trabalhar com actores não profissionais (destacando-se em parte Vincenç Altaió), trabalha pela primeira vez com um argumento escrito antes das filmagens iniciarem, embora no último terço este se transforme em algo de mais abstracto e delirante, pronto a ficar à interpretação de cada um. A certa altura do filme um personagem diz que não consegue transformar merda em ouro. Albert Serra também não.

Título original: "Història de la meva mort".
Título em Portugal: "História da Minha Morte".
Realizador: Albert Serra.
Argumento: Albert Serra.
Elenco: Vicenç Altaió, Clara Visa, Noelia Rodenas.

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