29 maio 2014

Resenha Crítica: "Goldfinger" (1964)

 Ter uma bond girl com o nome de Pussy Galore permitiu a "Goldfinger" ser um dos filmes do famoso espião britânico com mais trocadilhos de cariz sexual (uma das tradições da saga), mas também com uma das personagens femininas mais fortes, para além de contar com um dos antagonistas mais memoráveis. Falamos de Auric Goldfinger, interpretado pelo aparentemente impassível Gert Fröbre, um actor que atribui uma aura temível ao personagem, um negociante de ouro que pretende assaltar o Fort Knox. A missão de James Bond (Sean Connery) passa inicialmente por travar conhecimento com Goldfinger e descobrir como este se encontra a vencer tantas vezes um indivíduo financeiramente abonado que se encontra a gozar férias no mesmo hotel em Miami. Bond descobre que é Jill Masterson (Shirley Eaton), uma bela mulher, que se encontra de binóculos a dar informações a Goldfinger, enquanto este utiliza um auricular, algo que James Bond interrompe, conquistando pelo caminho a sensual loira. Esta acaba por pagar caro o envolvimento com o agente, sendo morta por Oddjob, com o seu corpo a ser completamente coberto por tinta dourada, naquele que é um dos momentos mais icónicos da franquia. O MI-6 e a CIA vêm-se obrigados a intervir a favor de Bond, enquanto M logo lhe atribui a missão de descobrir se Auric Goldfinger, um magnata ligado aos negócios relacionados com ouro, anda ou não a transportar este metal precioso ilegalmente. Esta missão conduz o protagonista à Suíça, onde encontra Tilly Masterson, a irmã da falecida Jill, com esta a procurar vingar a morte da familiar, embora acabe por ter o mesmo destino. Bond acaba por ser capturado pelos homens de Goldfinger e transportado para os EUA no avião comandado por Pussy Galore, uma mulher com uma personalidade forte, devido a Goldfinger pensar que este pode saber informações sobre a Operação Grandslam. As cenas que antecipam esta revelação surgem inquietantes, com Goldfinger a apresentar um laser que promete cortar o corpo do protagonista (a começar pelas partes baixas), num momento de grande intensidade (a fazer recordar a tarântula na cama de 007 em "Dr.No"), até o protagonista jogar a cartada de fingir saber algo sobre a Operação. Esta passa por um ataque ao Fort Knox, com Goldfinger a surgir como mais um dos antagonistas com ideais megalómanos da saga 007, enquanto James Bond tem de travá-lo, salvar a economia ocidental e pelo caminho "apelar aos instintos maternais de Pussy Galore".

Baseado no livro homónimo de Ian Fleming, "Goldfinger" marca o terceiro filme de James Bond, naquela que é uma das obras mais populares da franquia, apresentando um antagonista que surge realmente à altura do protagonista e revela-se uma ameaça capaz de nos fazer crer que nem tudo pode correr pelo melhor ao agente secreto. Sean Connery interpreta o personagem pela terceira vez consecutiva, numa actuação muito ao seu jeito, com o actor a ter ajudado a moldar o personagem de James Bond à sua pessoa, incutindo uma mordacidade e humor negro muito próprios ao personagem, mesclando harmoniosamente esta faceta de galante e sarcástico com a de um agente implacável que raramente falha na obtenção dos seus objectivos, capaz de resolver o mais difícil dos casos com a mesma calma que pede um martini "shaken, not stirred". Em “Goldfinger” o agente secreto tem um antagonista à altura, com o personagem interpretado por Gert Fröbe a surgir como um dos vilões mais carismáticos e temidos da saga 007, sendo um dos poucos que consegue ser uma ameaça à altura do nosso conhecido agente. É curioso verificar que um personagem que tinha tudo para ser ridículo acabou por se tornar num dos vilões mais carismáticos da franquia. Fröbe foi uma escolha particularmente feliz por parte dos elementos responsáveis pelo casting, ainda que o processo tenha sido caricato. Os produtores ficaram interessados pelo trabalho do actor quando o viram interpretar um pedófilo num filme alemão (“Es geschah am hellichten Tag”) e perguntaram ao seu agente se Fröbe sabia inglês e estava interessado no papel. Perante a resposta positiva do agente, o actor partiu em direcção aos estúdios de Pinewood, e surpreendeu tudo e todos quando perceberam que este não sabia falar inglês com a fluência necessária para o papel. As suas falas foram dobradas por Michael Collins e o resto é o sucesso que se sabe, tendo contribuído para criar um antagonista icónico, tendo sido eleito em 2003 o 43º vilão mais ameaçador dos últimos cem anos pelo American Film Institute.

Num filme da saga James Bond não poderiam faltar as célebres Bond Girls, sendo que em “Goldfinger” ficamos perante duas das mais carismáticas da franquia, Pussy Galore e Jill Masterson, interpretadas por Honor Blackman e Shirley Heaton. Blackman foi convidada para integrar o elenco após o grande sucesso como Catherine Gale na série britânica “The Avengers”. Em “Goldfinger”, a actriz interpreta a aliada de Goldfinger, a bela e sensual Pussy Galore. Esta é uma das mais personagens mais polémicas da franquia. Desde logo pelo próprio nome, causador de muitos trocadilhos, quer no filme, quer fora do grande ecrã, algo exponenciado pelas frases irónicas de James Bond como “You're a woman of many parts, Pussy!” A polémica em torno da personagem não vem só da inusitada escolha do nome, mas também por esta apresentar características de homossexualidade, algo que é pela primeira vez abordado nos filmes da franquia. Esta homossexualidade da personagem é algo que fica patente quando esta diz a James Bond que é “imune” aos seus encantos, mas também na forma algo masculina como se veste e comporta. No entanto, nenhuma mulher consegue resistir ao espião irresistível e Galore logo se rende aos encantos de Bond. Por fim, resta ainda destacar a curta, mas marcante presença de Shirley Heaton como Jill Masterson, uma jovem mulher que é paga por Goldfinger para ser vista com o vilão e para ajudá-lo a trapacear no póquer. Esta mantém um caso de curta duração com James Bond, sendo assassinada por Oddjob através de sufocação cutânea. A cena em que Bond descobre o cadáver da bela rapariga coberto com tinta dourada deixa o espectador com um ar incrédulo, sendo um dos momentos mais carismáticos do filme, não só pelo forte impacto que a visualização do cadáver causa, mas também por expor um dos primeiros falhanços de Bond. A carreira de Heaton ficou para sempre marcada por este papel, tendo aparecido em diversas capas de revista, e concedido diversas entrevistas.

Para além destes actores, importa ainda destacar Harold Sakata como Oddjob, o criado coreano de Goldfinger, que não fala durante todo o enredo, mas participa em várias das cenas de maior entusiasmo, com o seu chapéu cortante a efectuar muitos estragos. O filme conta ainda com Desmond Llewelyn como Q, Lois Maxwell como Miss Moneypenny e Bernard Lee como M, com estes a terem alguma relevância ao longo desta obra que conta com algumas inovações em relação às duas primeiras. Uma dessas inovações passa pela introdução de uma cena pré-créditos que pouco ou nada tem haver com o enredo principal do filme. No caso de “Goldfinger”, esta cena serve sobretudo para apresentar o implacável agente aos espectadores, numa curta cena em que não faltam os vários ingredientes da saga, com acção, explosões, belas mulheres, momentos non-sense como o herói vestido com um smoking no interior do fato de mergulho. Outra das inovações em relação aos filmes anteriores passa pela contratação de uma estrela da música para cantar o tema principal do filme. No caso de “Goldfinger”, o tema principal conta com a poderosa voz de Shirley Bass, num tema composto John Barry e com letra de Leslie Bricusse e Anthony Newley. A música é uma das mais icónicas da saga, com a potente voz de Bass a ser acompanhada pelos créditos iniciais de excelente recorte com o corpo dourado de uma bela mulher a reflectir os vários personagens principais do filme. Mas não foi só na cena pré-créditos e no tema musical que “Goldfinger” inovou em relação a “Dr. No” e “From Russia With Love”. Veja-se a magnífica introdução de Q e das suas célebres engenhocas. A primeira alteração passa pelo carro, Bond passa a utilizar um Aston Martin DB5 ao invés do habitual Bentley. O novo bólide aparece recheado dos mais diversificados apetrechos, como o para-brisas e vidros à prova de bala, matrícula giratória para poder circular livremente em vários países, um acento que permite ejectar o passageiro ou condutor, entre outros apetrechos inventados por Q. “Goldfinger” marcou ainda inicio da escalada orçamental dos filmes da saga James Bond, tendo um orçamento de 3,5 milhões de dólares, valores que totalizam a soma dos dois primeiros filmes da saga.

A franquia James Bond é conhecida por apresentar vários cenários exóticos, colocando o personagem nos mais diversos países a resolver intrincadas intrigas internacionais. No caso de “Goldfinger”, a acção decorre em Inglaterra, Estados Unidos da América e Suíça. O facto de grande parte do enredo ter-se desenrolado em terras de Tio Sam não é inocente, sendo uma forma clara do estúdio aproveitar a popularidade que o personagem estava a conquistar no território, ganhando uma cobertura a nível dos media como nunca antes teve. Aliás, o filme foi o primeiro da franquia a ter direito a uma forte campanha de merchandising, tornando-se um ícone da cultura popular da época. Os cenários, apesar de não apresentarem o exotismo de outras obras da franquia, são um dos pontos fortes do filme, com os estúdios de Pinewood a servirem de casa para o interior do Fort Knox e o esconderijo em que Goldfinger revela os planos da Operação Grand Slam. A construção do interior do Fort Knox está bastante bem conseguida, sobressaindo o forte cordão de segurança que rodeia o cofre, mas também o aparato da estrutura. De salientar que “Goldfinger” foi um dos factores catalisadores do interesse popular em todo o cenário que rodeia o famoso cofre. Todas as cenas interiores foram filmadas no interior do estúdio, enquanto as cenas nas bases militares foram rodadas no local. O filme realizado por Guy Hamilton (que viria ainda a realizar mais três filmes da franquia) apresenta ainda várias das características que tornaram a saga marcante e que mantiveram-se ao longo das várias obras da saga. Não falta a missão de difícil execução, humor, acção, belas mulheres, sensualidade, bons carros, suspense, diferenciando-se de muitos outros por ter um antagonista à altura de James Bond, sentindo-se pela primeira vez que a vida do herói está em perigo. Com muita acção, suspense, humor, sensualidade, uma história simples e coesa, sem mensagens moralistas, que pretende apenas divertir os espectadores, proporcionando momentos de puro escapismo em relação à realidade quotidiana, “Goldfinger” desafia o teste do tempo e continua a mostrar-se como um dos filmes mais icónicos da saga. 

Título original: "Goldfinger".
Título em Portugal: "007 - Contra Goldfinger".
Realizador: Guy Hamilton. 
Argumento: Richard Maibaum e Paul Dehn.
Elenco: Sean Connery, Gert Fröbe, Honor Blackman, Harold Sakata, Bernard Lee.

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