28 maio 2014

Resenha Crítica: "A Erva do Rato"

 Os momentos iniciais de "A Erva do Rato" desenrolam-se num cemitério à beira-mar, onde uma mulher (Alessandra Negrini) se encontra a visitar a campa do seu pai. O cenário carrega o peso de estarmos perante um cemitério, local onde se encontram os corpos dos falecidos, marcados pela morte, embora estejamos perante um espaço que nos é apresentado com a forte presença do Sol, cujo calor emanado, brilho radiante e cores quentes contrastam com a frieza do local. Ela cai desemparada, sendo apanhada por um indivíduo (Selton Mello) que se encontrava no local a observar as lápides. Não sabemos o nome dela, nem o dele, ao longo de todo o filme. Diga-se que muitas das vezes ficamos na dúvida sobre o que realmente sabemos sobre estes misteriosos personagens e o que esperar em relação aos seus comportamentos. A personagem interpretada por Alessandra Negrini é filha única, tendo perdido a mãe aos três anos de idade e o pai há três dias, não lhe restando ninguém. Esta é uma professora solitária, tendo passado todos estes anos a cuidar do progenitor, a ler para ele, um indivíduo inválido, de poucas posses, que gostava de escrever embora não tivesse publicado nada ao longo da sua vida (a fazer lembrar um pouco a protagonista feminina de "Educação Sentimental"). O pai dependia da protagonista como se fosse uma criança, enquanto para esta o progenitor era "uma religião". Os momentos iniciais de “A Erva do Rato” colocam esta a revelar-se um pouco perante o personagem interpretado por Selton Mello, falando de forma pausada, expondo os seus sentimentos de afecto em relação ao pai, até uma questão do seu interlocutor a faz revelar que foi presa por furtar uma jóia, algo que não lhe permitiu estar com o progenitor quando o mesmo faleceu. Os protagonistas revelam o nome um ao outro, mas não nos revelam, sendo os seus nomes um enigma para nós e até entre si. Ele convida-a a viver em sua casa, prometendo que nada faltará a esta e que a mesma não ficará só. Ela aceita, embora este momento não seja revelado. Júlio Bressane faz questão de nos esconder alguns elementos relevantes para a narrativa, recorrendo a elipses e estimulando os nossos sentidos, deixando-nos bem presente que existe muito mais em relação a estes dois personagens do que aquilo que a câmara nos mostra e não nos mostra, jogando com as imagens, as palavras e os silêncios. Ele fala sobre história e arte, algo visível quando expõe elementos sobre "O Gigante Adormecido na Baía da Guanabara", mas também sobre o veneno dos índios, entre os quais o tupuqi, o sumo da raiz da tapioca, bem como a Erva do Rato, cujos efeitos também são pestíferos, sendo o único que não tem um contraveneno, um simbolismo que encontra alguma repercussão na história.

Regra geral, ele fala, enquanto ela escreve de forma atenta, com o primeiro a procurar expor o seu conhecimento, ao mesmo tempo que esta ouve. Parece interessada, mas não temos a certeza deste sentimento. A dupla é um mistério nem sempre fácil de revelar e Júlio Bressane não parece também muito preocupado em apresentar uma narrativa arrumadinha e dada a grandes explicações. Bressane procura antes criar uma obra sensorialmente estimulante, na qual as imagens surgem muitas das vezes banhadas numa luz ambiente, expostas em planos estáticos e cuidados, enquanto os seus personagens expõem as suas palavras e os seus corpos. Sobretudo Alessandra Negrini, alvo da atenção do protagonista, mas também do realizador, com este último a filmar o corpo da actriz com reverência, algo partilhado pelo personagem interpretado por Selton Mello, sobretudo quando decide fotografar a sua hóspede. As fotos começam simples, com esta a ficar quieta, vestida, até gradualmente começar a levantar um pouco o vestido e a expor as suas pernas delineadas, chegando a um ponto em que se despe mesmo a pedido do personagem interpretado por Selton Mello. Este observa o corpo dela de forma voyeurista, tira fotos aos seios e vagina da mesma, embora as fotografias comecem a ser corroídas por um rato que gera uma enorme obsessão no protagonista, pretendendo capturar a todo o custo a criatura. O rato surge presente pelos cenários, mas também pelo corpo da personagem interpretada por Alessandra Negrini, deixando-lhe uma marca e uma ligação. A captura do rato é uma obsessão para o protagonista, enchendo a casa de ratoeiras, embora procure deixar a criatura viva para a poder torturar, enquanto somos deixados perante elementos aparentemente rotineiros e quotidianos vividos pela dupla de protagonistas. Ambos são figuras que vivem algo à parte da sociedade, parecendo viver numa realidade tão fantasiosa como os seus diálogos que facilmente extravasam os cenários por onde se encontram. O enredo raramente sai do apartamento do personagem interpretado por Selton Mello, mas as falas destes personagens cedo nos deixam perante a cultura índia, o Antigo Egipto de Cleópatra, a mitologia de Hercules, enquanto Júlio Bressane se diverte a colocar estes personagens em situações aparentemente banais. Por vezes a história parece esgotar-se com facilidade e entrar em algumas repetições, mas nem por isso "A Erva do Rato" deixa de ser uma obra a espaços estimulante, capaz de jogar com as imagens, os diálogos, os silêncios e os sons, pronta a interpretações várias.

Não é só as imagens em movimento que "A Erva do Rato" explora, mas também a fotografia e a forma como esta se relaciona com o cinema, com as fotos tiradas pelo protagonista à personagem interpretada por Alessandra Negrini a serem expostas diante nós, destacando-se mais uma vez a nudez da actriz. Júlio Bressane já tinha mostrado uma enorme reverência pelo corpo de Alessandra Negrini em "Cleópatra", embora em "A Febre do Rato" o personagem interpretado por Selton Mello tire com tanto interesse fotografias a esta bela mulher como a um esqueleto, apresentando uma personalidade no mínimo estranha. É um personagem algo bizarro, com estranhos fetiches e alguns salpicos de sadismo (veja-se como tortura o rato), interpretado de forma algo minimalista por Selton Mello, um actor talentoso, que aqui dá vida a um indivíduo cujo nome desconhecemos, embora também não fiquemos a saber realmente muito sobre o mesmo. Gosta de tirar fotografias, gera obsessão por um rato, gosta de ler e mostrar sabedoria, tem um interesse pela mulher que acolhe em casa, embora seja pouco expansivo e ainda menos romântico. O momento em que este se encontra a fotografar um esqueleto é meio surreal, pronto a expor o quão estranho é o protagonista, mas também o quão longe Júlio Bressane parece estar disposto a nos desafiar. Por sua vez, Alessandra Negrini atribui algum mistério à sua personagem, uma mulher com um passado algo complicado, de feições naturalmente belas, cuja ligação com o rato surge algo presente. Os momentos em que é fotografada são marcados por alguns silêncios, sobressaindo quando está a servir de modelo na sala de revelação, banhada com luz vermelha, a fazer lembrar o filtro encarnado que banhou Bardot em "Le Mépris". Selton Mello e Alessandra Negrini são assim deixados perante um cenário maioritariamente fechado, marcado pela luz ambiente e adensadora das sombras, falam pausadamente, sentem e fazem-nos sentir, ao longo de uma obra baseada livremente em dois contos de Machado de Assis (ou como salienta Bressane uma tradução em imagens do espírito dos contos), nomeadamente, "Um esqueleto" e "A causa secreta" (Bressane já tinha adaptado uma obra de Machado de Assis em "Brás Cuba").

A adaptação dos contos não é literal, como o próprio cineasta comenta ao Almanaque Virtual: "Eu parti de dois engramas, dois traços que persistem ao longo do imaginário humano e criei uma ficção a partir disso. Capturei o tecido nervoso de dois contos: de "Um Esqueleto" eu tirei a relação do homem com o esqueleto; e de "A Causa Secreta", a sua relação com o animal. É evidente que quando se toca no signo de Machado de Assis ele acaba por contaminar toda a obra". O cineasta não procura adaptar literalmente os contos, nem está interessado em estabelecer um romance entre os dois personagens, bem pelo contrário, com esta relação a ser marcada por alguma frieza, deixando o espaço da casa por vezes como cenário repressor, seja dos sentimentos, seja da liberdade, seja da normalidade, seja dos afectos. Júlio Bressane compõe os planos que integram os personagens com cuidado, na sua maioria fixos, elaborando um filme pronto a não despertar consensos, mas sim sentimentos e várias interpretações, inspirando-se na pintura e na literatura, mesclando estas com o cinema e expondo a sua arte sem preocupações de procurar agradar ou não ao espectador. É um filme que está longe dos padrões dos blockbusters, pronto a dar tempo ao espectador para apreciar as imagens, apresentando-nos uma dupla de protagonista que sobressai tanto pelos diálogos como pelos silêncios, criando uma obra que se estranha e depois se entranha. “A Erva do Rato” estreou no Brasil em apenas uma sala e em Portugal prepara-se para estrear comercialmente passado cinco anos da sua estreia, sem grande alarido e pronto a passar ao lado do público, algo que tem sido sintomático do tratamento maioritariamente dado ao cinema brasileiro no nosso país. Não estamos perante um filme que pareça de todo comercialmente rentável, mas merecia um tratamento mais condizente com o seu valor cinematográfico, com Júlio Bressane a realizar uma obra que é tudo menos nula. Bressane trabalha com cuidado as imagens e o som, explora as sombras e os seus significados, tira duas interpretações minimalistas e sublimes à sua dupla de protagonistas, enquanto nos deixa perante um filme merecedor de alguma atenção. 

Título original: "A Erva do Rato". 
Realizador: Júlio Bressane.
Argumento: Júlio Bressane e Rosa Dias.
Elenco: Alessandra Negrini e Selton Mello.

Sem comentários: