26 maio 2014

Resenha Crítica: "Edge of Tomorrow" (No Limite do Amanhã)

 Com uma premissa a fazer recordar largamente "Grondhog Day" de Harold Ramis, com o protagonista a viver o mesmo dia por várias vezes, "Edge of Tomorrow" sobressai sempre mais pelo seu conceito do que pelo seu argumento e as cenas de acção, ficando no limite entre... a mediania e a banalidade. É mais um filme que traz o selo de aprovação "Rotten Tomatoes" (nesta altura leva 92% de aprovação em 13 críticas, apesar de se “esquecer” de agregar a crítica negativa do The Playlist, colocando apenas o texto positivo), embora esteja longe de fazer valer o hype que a obra cinematográfica levanta nas suas primeiras críticas, sobretudo no seu último terço, com longas e barulhentas cenas de acção, aparentemente elaboradas sem pensar no formato IMAX onde muitas das vezes estas se tornam demasiado caóticas e pouco sentidas. Doug Liman é um realizador algo irregular, sendo que em "Edge of Tomorrow", mostra alguns bons pormenores, embora o filme que adapta a manga "All You Need is Kill" de Hiroshi Sakurazaka esteja longe de aproveitar todo o potencial que parece apresentar, ou seja, algo paradigmático da carreira do cineasta. Os momentos iniciais são bem conseguidos, com o filme a expor de forma rápida e concisa o contexto geral que envolve um ataque extraterrestre que dizimou parte do espaço do planeta Terra e da sua população, com William Cage (Tom Cruise), um Major dos EUA sem experiência para o combate, a ser chamado pelo General Brigham (Brendan Gleeson) a Londres, com este último a obrigá-lo a juntar-se à unidade de Farell (Bill Paxton). A unidade prepara-se para invadir Paris, numa incursão quase a fazer recordar o D-Day na II Guerra Mundial, tendo em vista a efectuar um ataque aos Mimics, a raça extraterrestre que se encontra a dominar o planeta. O problema é que estes extraterrestres já esperavam o ataque, algo que conduz a várias mortes, incluindo a de William, com o sangue de um Alfa, a fazer com que este partilhe os poderes de Omega, o líder extraterrestre e tenha a oportunidade de regressar no tempo. É assim que encontramos William a transformar-se no herói improvável, errando muito pelo caminho, morrendo imensas vezes, adaptando-se ao exo-esqueleto (a fazer recordar o recente "Elysium"), até entrar em contacto com Rita Vrataski (Emily Blunt), uma militar conhecida pela sua actividade recheada de êxito em Verdun. Na época esta tinha poderes semelhantes aos de William, tendo perdido os mesmos quando recebeu uma transfusão de sangue, procurando agora colaborar com o protagonista na missão de destruir o líder extraterrestre, um ser que tem o poder de reiniciar o dia quando os elementos Alfa são eliminados. Este líder Omega raramente é devidamente explorado, com o filme a sobressair mais nas questões relacionadas com o estabelecimento da personalidade do protagonista do que na Guerra em si, faltando conteúdo e assertividade na exploração do conflito.

Embora esteja longe de ser uma perfeita nulidade, "Edge of Tomorrow" está ainda mais longe de ser uma obra magnífica, apresentando uma estrutura narrativa inicialmente interessante mas gradualmente repetitiva e entediante (Todd McCarthy descreve esta situação na perfeição no The Hollywood Reporter, "it makes you feel more like a hamster than a groundhog — or rather a hamster's wheel, going round and round, over and over again"), com o seu último terço a ficar marcado por longas e barulhentas cenas de acção, que estão longe de impressionar e de aproveitar paradigmaticamente os cenários (de salientar que o trabalho de fotografia nem sempre ajuda). O próprio desfecho está longe de satisfazer, com "Edge of Tomorrow" a deixar-nos perante um enredo marcado por uma invasão extraterrestre pueril a nível de conteúdos, colocando-nos perante um conjunto de seres destruidores mas pouco complexos, enquanto os humanos procuram eliminar os inimigos, ao mesmo tempo que os cenários vão sendo destruídos apesar desta destruição ser pouco sentida. No entanto, vale a pena realçar alguns elementos positivos do filme, tais como a interpretação de Tom Cruise, com o eternamente jovem actor a dar algum carisma ao seu personagem, explorando eficazmente a sua transição de indivíduo pouco dado à acção para herói do dia, sempre com algum humor à mistura, tendo uma dinâmica relativamente eficaz com Emily Blunt. Esta interpreta uma personagem feminina relativamente forte, sendo um dos poucos elementos que compreende o protagonista e uma das poucas personagens secundárias a ser devidamente desenvolvida, embora Brendan Gleeson e Bill Paxton consigam dar um ar da sua graça. O foco principal está quase sempre em William, existindo uma procura por vezes excessiva de explorar os erros do protagonista e a sua procura em compreender o que tem de fazer para não falhar, morrendo diversas vezes até aprender (como se fosse um jogo de computador, embora aqui não tenhamos "a mão na massa"), algo que a espaços se torna repetitivo, embora não se deva deixar de realçar o trabalho de montagem, capaz de agilizar algumas das cenas e evitar que estas se alonguem ainda mais. É um filme irregular, que está longe de ser tão inteligente e inovador como quer fazer parecer, apesar de também não nos fazer dar o nosso tempo como totalmente perdido, sendo apenas mais um blockbuster como muitos outros que estreiam todos os Verões, pecando pelas redundâncias, por nos apresentar um conjunto de extraterrestres unidimensionais e um conflito pouco elaborado a nível do conteúdo. "Edge of Tomorrow" não é uma nulidade, sendo capaz de entreter ao longo da sua duração, contando com uma premissa interessante e momentos de humor que resultam, embora isso não chegue para tirar o filme do limite entre a mediania e a banalidade.

Título original: "Edge of Tomorrow".
Título em Portugal: "No Limite do Amanhã".
Realizador: Doug Liman.
Argumento: Christopher McQuarrie, Jez Butterworth, John-Henry Butterworth.
Elenco: Tom Cruise, Emily Blunt, Bill Paxton, Brendan Gleeson.

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