27 maio 2014

Resenha Crítica: "Die Another Day" (2002)

 Não deixa de ser curioso que os efeitos especiais de "Die Another Day", o vigésimo filme da saga James Bond, consigam estar mais datados e sejam menos convincentes do que muitos dos efeitos de "Dr.No", o primeiro filme da franquia. "Dr.No" foi lançado em 1962, enquanto que "Die Another Day" estreou em 2002, ou seja, existe uma diferença de quarenta anos a separar ambos os filmes, mas o CGI em excesso e elaborado de forma pouco convincente prejudicam e muito algumas das cenas de acção da película mais recente. Essa situação é visível quando o personagem se encontra em fuga na Islândia, mas também na Coreia do Norte, existindo uma excessiva tentação de recorrer ao CGI, mesmo que isso retire alguma credibilidade às cenas de uma obra que conta com um enredo relativamente cativante, onde contamos com vários elementos transversais à saga, entre os quais um vilão megalómano, uma conspiração à escala internacional, "Bond Girls", muita acção, humor, sedução, tensão, os engenhos de Q (John Cleese) e carros topo de gama. Neste caso temos o Auston Martin Vanquish, embora renomeado de Vanish devido a poder tornar-se invisível, ao longo de uma obra marcada por vários exageros, incluindo no product placement, a ponto de marcar um ponto de charneira da saga, com "Casino Royale", o filme que se seguiu, a surgir quase como um reboot da mesma. Com um tema musical cantado por Madonna (que tem um pequeno papel no filme), que remete para o título do filme e para a procura de James Bond (Pierce Brosnan) sobreviver ao longo dos catorze meses em que se encontra em cativeiro na Coreia do Norte, após se ter infiltrado numa base militar onde o coronel Tan-Sun Moon (Will Yun Lee) se encontrava a trocar armas por diamantes de sangue. James Bond finge ser o intermediário, sendo descoberto devido a uma informação transmitida ao antagonista, acabando por conseguir ainda colocar o território em polvorosa, supostamente eliminar Tan-Sun Moon, embora seja capturado e preso pelo General Moon (Kenneth Tsang), o pai do falecido. Após dolorosas torturas, Bond é trocado por Zao (Rick Yune), um perigoso criminoso, sendo que os momentos em liberdade também vão ser pouco recomendáveis, com este a ser colocado em cativeiro e a ver revogado o estatuto de 00 devido às entidades competentes acreditarem que este soltou informação. Bond logo foge (contando não oficialmente com o apoio de M), acreditando ter sido traído por um agente no interior do MI6, procurando descobrir a sua identidade e capturar Zao. Esta situação conduz o protagonista a deslocar-se até Cuba, onde Zao se encontra numa clínica especializada em alterar a aparência dos clientes, efectuando alterações a nível do ADN.

Em Cuba, cenário tropical e solarengo, tão típico da saga, Bond conhece Jinx (Halle Berry), uma mulher misteriosa, envolvendo-se com esta, embora ambos pareçam ter objectivos em comum na clínica. Com muita destruição pelo caminho, Bond descobre mais uma pista, com os diamantes que encontra a conduzirem-no a Gustav Graves (Toby Stephens), um milionário conhecido pelas suas excentricidades, que se prepara para apresentar na Islândia o satélite Icarus. Este satélite permite absorver a energia solar e expelir a mesma sobre a superfície da Terra, algo que se pode revelar uma arma mortífera. A apresentação decorre num palácio de gelo, na Islândia, onde se encontra ainda Jinx e Miranda Frost (Rosamund Pike), esta última uma agente do MI6, e Zao, enquanto Bond tem de procurar resolver a sua missão, provar a sua inocência e deter os planos megalómanos de Gustav Graves, um indivíduo cuja identidade está bastante ligada ao passado do protagonista. Sem poupar na acção e nos efeitos especiais, "Die Another Day" marca a quarta e última interpretação de Pierce Brosnan como James Bond, com este a surgir mais uma vez credível como este agente secreto pronto a deixar-se levar pelos seus instintos, implacável frente aos inimigos e galanteador com as mulheres, sendo traído no início do filme, algo que o coloca numa situação pouco usual. De barba por fazer nos momentos seguintes ao prólogo, algo abatido, Bond logo procura provar a sua inocência e resolver o intrincado caso que tem entre mãos, contando desta vez com uma forte figura feminina. Halle Berry dá uma dimensão bastante interessante à sua Jinx, uma mulher com enorme habilidade para o combate, quase um duplo feminino do protagonista, envolvendo-se com este embora os seus planos inicialmente nem sempre sejam claros. Por sua vez, Rosamund Pike atribui um pragmatismo inicial à sua personagem que gradualmente se vai desfazendo, com o seu papel a sofrer uma reviravolta, enquanto que Toby Stephens interpreta de forma convincente o típico antagonista megalómano. Quem também cede à megalomania é o realizador Lee Tamahori, não poupando a elementos como palácios de gelo, carros invisíveis, cenas de acção na neve, explosões, tiroteios, combates de esgrima (entre Bond e Graves) e muito CGI, com o filme a desenrolar-se a um ritmo frenético. James Bond é colocado de dificuldade em dificuldade, surgindo pronto a resolver a sua missão e a conquistar as belas mulheres que surgem no seu caminho, enquanto somos embrenhados para o interior desta história que tanto tem dos elementos que marcaram a saga.

Título original: "Die Another Day".
Título em Portugal: "007 - Morre Noutro Dia".
Realizador: Lee Tamahori.
Argumento: Neal Purvis e Robert Wade.
Elenco: Pierce Brosnan, Halle Berry, Toby Stephens, Rosamund Pike, Rick Yune, John Cleese, Judi Dench.

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