22 maio 2014

Resenha Crítica: "Chef" (O Chefe)

 Tudo é simples em "Chef". Desde as suas ambições, passando pelo seu enredo e argumento, terminando pelo trabalho de câmara e interpretações. Jon Favreau também não parece ambicionar algo mais do que realizar um feel good movie para toda a família, com algum subtexto pelo meio sobre a arte, a crítica e as relações familiares, criando aquela que provavelmente será a sua obra mais pessoal. A história centra-se em Carl Casper (Jon Favreau), um cozinheiro natural de Miami que se encontra a trabalhar há cerca de dez anos num conhecido restaurante de Los Angeles. Outrora conhecido por ser um cozinheiro de vanguarda, este agora é obrigado a cozinhar os mesmos pratos tendo em vista a vender e agradar aos clientes, com o seu chefe, Riva (Dustin Hoffman), a não permitir grandes veleidades. A chegada de Ramsey Michel (Oliver Platt), um famoso crítico e blogger de culinária, faz com que Carl tente alterar a ementa, algo que não é permitido, sendo arrasado pelo personagem interpretado por Oliver Platt, que outrora fora um fã do cozinheiro. Para piorar tudo, Carl envolve-se numa troca de mensagens com Ramsey pelo Twitter, pensando inicialmente que a mensagem era privada, uma situação que precipita a sua caída em desgraça e saída do restaurante, onde tinha conquistado a amizade de elementos da cozinha como Tony (Bobby Canavalle) e Martin (John Leguizamo), para além de ter uma relação "colorida" com a sensual Molly (Scarlett Johansson). A vida familiar de Carl também não anda melhor. Descura imenso a relação com o jovem Percy (Emjay Anthony), o seu filho, sendo divorciado de Inez (Sofia Vergara), uma mulher com quem mantém uma relação de amizade. Perante o desemprego e uma imagem deteriorada nas redes sociais, Carl decide aceitar a ajuda de Marvin (Robert Downey Jr.), o primeiro ex-marido de Inez, iniciando um negócio de venda de comida cubana (e não só) numa roulote que intitula de "El Jefe", contando para isso com o apoio de Martin e de Percy (este encontra-se de férias de Verão). Aos poucos pai e filho começam a estreitar laços, enquanto Carl começa a recuperar o gosto por cozinhar e alguma da auto-estima perdida, desfrutando de alguns dos melhores momentos da sua vida, um pouco à imagem do que certamente aconteceu com Jon Favreau a realizar esta obra cinematográfica. 

 É visível que Jon Favreau teve um enorme prazer a realizar este filme que serve acima de tudo para exorcizar os seus esqueletos no armário que foi guardando ao longo da realização de vários blockbusters para os grandes estúdios. Veja-se que este saiu de três blockbusters, o último dos quais "Cowboys vs Aliens", mal sucedido junto do público e de grande parte da crítica, tendo em "Chef" um filme de relativo baixo orçamento que lhe permitiu regressar às raízes de "Made", ou seja, alcançando mais liberdade criativa e a oportunidade de fazer algo de pessoal. Pelo caminho ainda surge pronto a disparar sobre Hollywood, ainda que indirectamente, algo visível em vários diálogos, sobretudo nos do personagem interpretado por Dustin Hoffman, parecendo saídos de um director de um grande estúdio. Riva faz questão de salientar que Carl apenas deve confeccionar os pratos que os clientes gostam, não permitindo liberdades criativas pois o público não quer saber da sua arte e os pratos criativos "não vendem". Basta trocar "cozinheiro que decide investir num pequeno negócio após ver as suas ideias coartadas" por "realizador farto dos estúdios quererem que faça o mesmo filme" que tudo fica ainda mais pessoal. Favreau aproveita ainda para deixar o seu comentário sobre a crítica, através da figura do personagem interpretado por Oliver Platt (uma espécie de Gordon Ramsay). Não desumaniza o crítico, mas ao colocar Carl a perder as estribeiras em público por ver o seu trabalho arrasado mostra também o outro lado, aquele que é criticado. No fundo existe, ainda que de forma superficial, uma procura de consciencializar a crítica de que existe do outro lado alguém que se empenha e merece algum respeito. Claro que cada caso é um caso, mas Favreau não quis deixar passar em claro esta mensagem enquanto realiza uma obra bem intencionada, marcada por elementos de road movie, explorando a dinâmica bastante positiva entre vários elementos do elenco, algo visível na forte amizade que une Carl e Percy. John Leguizamo funciona muitas das vezes como o alívio cómico do filme, surgindo como o cubano bem disposto fiel ao seu amigo, chegando a desistir de um emprego mais seguro para poder continuar a trabalhar com este. A decisão deste personagem, algo extemporânea, é reveladora do tom "feel good" do filme, pronto a não criar muita tensão dramática e apenas a proporcionar alguns momentos de escapismo. Veja-se a forma como é explorada a relação aparentemente complicada entre Carl e Percy, que facilmente começa a entrar nos eixos, enquanto estes andam em viagem pela roulote, para além do divórcio entre o personagem interpretado por Favreau e Inez raramente ser aproveitado. O próprio protagonista fica pouco tempo perante o insucesso, com o negócio da roulote a rapidamente revelar-se acertada, enquanto assistimos a uma publicidade descarada ao Twitter, mas também ficamos perante o poder das redes sociais. 

 O Twitter e o Vine têm uma importância relevante no filme. Quer para expor a forma como um episódio menos feliz pode facilmente tornar-se viral e estragar a reputação de um indivíduo, mas também para mostrar que pode ser uma ajuda para promover os negócios. No capítulo da publicidade à descarada, Favreau até se revela mais feliz do que a aproveitar as personagens femininas. Scarlett Johansson e Sofia Vergara saem prejudicadas com esta situação. Johansson fica com o papel de mulher sensual, algo que não lhe é muito complicado. Vergara também não é menos sensual, mas pouco sobressai, interpretando a ex-mulher sensual, latina, mas que pouco evolui ao longo da narrativa. Diga-se que a evolução dos personagens é bastante previsível, algo exposto desde logo com Carl, com o personagem a beneficiar imenso da afabilidade que Favreau atribui ao personagem. Carl cozinha muito, come ainda mais, descura a educação do filho embora cedo procure recuperar a sua confiança, tem um caso com Molly mas este apenas parece existir para Scarlett Johansson ter algum tempo de antena. Já a participação especial de Robert Downey Jr. é curta mas nem por isso menos marcante, com o actor a protagonizar um dos momentos mais hilariantes do filme, enquanto dá uma "ajuda" ao seu amigo, após a profícua relação profissional nas duas primeiras obras de "Iron Man". O filme é também um reunir de velhos amigos por parte de Jon Favreau, com este a aproveitar as liberdades de estar a realizar uma obra de baixo orçamento para divertir-se e divertir-nos pelo caminho. Não existem propósitos mais grandiosos do que este no filme, que por vezes até se parece estender em demasia e abusa da sua previsibilidade, mas sobressai pelos seus personagens e a interacção entre os elementos do elenco. Veja-se a atenção dada à camaradagem no local de trabalho, à felicidade que se pode sentir a criar algo que amamos, com Jon Favreau a conseguir mostrar que teve aqui a oportunidade de ganhar algum fôlego para a sua carreira. Já se encontra ligado a uma nova adaptação de "The Jungle Book", uma obra que acarretará um maior orçamento e provavelmente um maior coartar das liberdades que este supostamente aprecia. O que pelo menos conseguiu provar em "Chef" é que é capaz de pegar em algo aparentemente anódino e tornar bastante aprazível ao espectador, embora por vezes fique a ideia que fica a faltar uma maior problematização a nível temático. Jon Favreau não nos oferece um prato requintado, mas sim uma refeição simples, confeccionada com algum amor à sua arte e ao trabalho, que satisfaz de forma moderada, estando longe de ambicionar algo mais do que isso.

Título original: "Chef".
Título em Portugal: "O Chefe".
Realizador: Jon Favreau.
Argumento: Jon Favreau.
Elenco: Jon Favreau, Sofía Vergara, John Leguizamo, Scarlett Johansson, Oliver Platt, Bobby Cannavale, Dustin Hoffman, Robert Downey, Jr.

Sem comentários: