31 maio 2014

Resenha Crítica: "Casino Royale" (2006)

 "Casino Royale" surge como um filme de charneira na saga cinematográfica de "James Bond", iniciando uma nova fase da mesma. Os filmes da saga foram relativamente influenciados pelo seu tempo, algo visível nas conspirações relacionadas com a Guerra Fria, mas também no humor da fase de Roger Moore (onde em "Live and Let Die" até existia uma certa influência blaxploitation) e até nos exageros "à Missão Impossível" da fase de Pierce Brosnan. Em "Casino Royale" temos uma história mais realista, menos dada a exageros e próxima da saga de Jason Bourne, algo desde logo visível nas cenas de acção, existindo um maior número de lutas corpo a corpo, menos dependentes do armamento. Nesse sentido temos James Bond a utilizar o físico nos combates, nas perseguições, a saltar de alturas elevadas, uma fisicalidade que a presença de Daniel Craig, uma escolha inicialmente polémica, ajuda a credibilizar. Mais musculado e aparentemente frio do que boa parte dos protagonistas da saga, Craig aproxima-se mais de uma faceta de Sean Connery, mantendo o carisma, mordacidade e capacidade de seduzir as mulheres do personagem, sempre sem descurar a sua faceta implacável perante os inimigos. No entanto, este James Bond também falha, deixa-se levar mais pelos ímpetos do que o costume, deixando imensos estragos pelo seu caminho. O argumento é muito interessante, sendo um dos mais elaborados da saga, não só explorando a evolução do personagem com os erros, visto estarmos nos primórdios deste com o estatuto de 007, mas também os personagens que o rodeiam e as consequências dos seus actos. Essa situação é visível desde logo nos eventos que se seguem ao prólogo, com James Bond a perseguir Mollaka, um criminoso, em Madagáscar, tendo em vista a procurar descobrir para quem este trabalha, mas acaba por causar uma enorme destruição na embaixada e a assassinar o alvo, algo que tem repercussões na imprensa e irrita M (Judi Dench) solenemente. No telemóvel de Mollaka, James Bond encontra o número de Alex Dimitrios (Simon Abkarian), um associado de Le Chiffre (Mads Mikkelsen), um banqueiro conhecido por "lavar" o dinheiro de terroristas, ditadores e outros elementos do género. Esta situação conduz Bond a Nassau, local onde curiosamente se desenrolara em parte "Dr.No", o primeiro filme da saga, com o reboot a escolher este local das Bahamas para um recomeçar. Neste local tropical, Bond logo encontra Dimitrios, mas também a esposa deste, Solange Dimitrios (Caterina Murino), com quem mantém um breve affair após ter vencido o personagem interpretado por Simon Abkarian num jogo de poquer.

Solange Dimitrios revela a Bond que o marido se dirige para Miami, algo que vai ter repercussões negativas para esta mulher, enquanto o protagonista acaba por eliminar Dimitrios e seguir Carlos, um homem de confiança de Le Chiffre, descobrindo que pretendem destruir um protótipo de um Skyfleet, de forma a arrasar com as acções da empresa que o fabricou, uma prática comum ao antagonista. Le Chiffre utiliza o dinheiro dos clientes em acções, lucrando com as mesmas, sendo que James Bond causa-lhe um prejuízo brutal após arruinar os planos do atentado. Para recuperar o dinheiro dos seus clientes, Le Chiffre organiza um jogo de poquer no Casino Royale em Montenegro, algo que vai conduzir James Bond ao território, contando com a companhia de Vesper Lynd, a sensual e sardónica empregada do tesouro que controla as verbas, bem como René Mathis (Giancarlo Giannini), um contacto do MI6 no local, sendo que a estes ainda se vai juntar Felix Leiter (Jeffrey Wright) da CIA. O jogo vai ser intenso e marcado pelo duelo de vontades entre Bond e Le Chiffre, enquanto o primeiro procura que o antagonista perca tudo e se veja obrigado a pedir asilo ao MI6 em troca das informações que tem sobre terroristas e ditadores. A missão vai ser marcada por vários perigos, mas também pelo crescente envolvimento a nível emocional de James Bond com Vesper Lynd, aquela que é uma das Bond Girls mais marcantes e complexas da saga. Possuindo uma sensualidade que muito tem de Eva Green, uma personalidade forte, carisma e um estilo de humor muito semelhante ao de James Bond, Vesper Lynd mescla ainda um enorme mistério em relação às suas intenções, mas também alguma fragilidade, uma situação visível quando se depara com o protagonista a eliminar dois elementos de forma violenta. A cena que esta protagoniza na banheira com James Bond, vestida, enquanto procura tirar o sangue que já não está no seu corpo é um dos momentos mais marcantes do filme e revelador da sua personalidade, com esta a não esconder as suas fragilidades, após ter mostrado um lado relativamente pragmático. Por sua vez, Daniel Craig procura expor a frieza do seu personagem perante os inimigos, embora não esconda alguma repugnância do mesmo quando se olha ao espelho, apresentando ainda uma soberba e ego enormes. Daniel Craig e Eva Green partilham uma enorme química, protagonizando momentos de maior ligação emocional do que o protagonista e as várias "Bond Girls" em vários outros filmes da saga, fazendo recordar a relação de Bond com Tracy em "On Her Majesty's Secret Service", sendo que em ambos os filmes vamos ter um final de enorme impacto.

O argumento ajuda à construção de Vesper e James Bond, sendo que os papéis surgem incrementados pelas interpretações de Daniel Craig e Eva Green, duas escolhas bastante felizes, tal como Mads Mikkelsen o foi para Le Chiffre. Actor de enorme talento, Mikkelsen atribui uma frieza enorme a Le Chiffre, um antagonista que tanto tem dos tempos modernos, associado a falcatruas financeiras e lavagem de dinheiro, protagonizando momentos de enorme intensidade com Bond. Veja-se o jogo de cartas, mas também quando tortura o protagonista, com os close-ups a exacerbarem os rostos dos personagens e a exibirem as suas personalidades fortes e aparentemente inabaláveis. O elenco destaca-se, mas também a realização de Martin Campbell, um cineasta que tinha contribuído para revitalizar a saga em "GoldenEye" e volta a sobressair com "Casino Royale", uma obra cinematográfica que certamente pode ser colocada no top5 de melhores filmes da saga, contando com um argumento mais elaborado do que a maioria das películas da franquia, personagens que evoluem nitidamente ao longo da narrativa, boas interpretações, cenas de acção marcantes e um trabalho de fotografia bastante eficaz. O trabalho com a câmara destaca-se, seguindo os personagens de forma móvel nas cenas de acção, fixa em alguns momentos tensos (veja-se quando Le Chiffre e Bond fitam o rosto um do outro), ao longo de um filme que procura rejuvenescer uma saga que parecia estar a encontrar alguns problemas em manter o seu lugar em pleno Século XXI. Nesse sentido, o reboot acabou por revelar-se uma situação feliz, não descurando elementos que tiveram sucesso no passado, embora adaptado a um maior pragmatismo. Ainda não temos as invenções de Q, Miss Moneypenny está pela primeira vez de fora, o personagem apenas recebe as insígnias de 00 no prólogo (filmado a preto e branco), embora tenhamos elementos transversais, tais como a personalidade do protagonista, muito marcada pela ironia e capacidade de sedução, as Bond Girls, as cenas de acção intensas, as adversidades em que o protagonista é colocado, o tema musical marcante, e os vários locais onde se desenrola o enredo. Vale ainda a pena realçar o guarda-roupa cuidado do filme, algo visível não só nos fatos de James Bond, efectuados à medida de Craig, mas também a indumentária de Eva Green que se adapta na perfeição à evolução da personagem, ou seja, inicialmente mais sóbria e masculina, até posteriormente despir em parte o seu corpo, tal como esta gradualmente começa a deixar soltar os seus sentimentos. Desde Madagáscar, passando por Londres, Nassau, Montenegro e Veneza, "Casino Royale" coloca o famoso espião ao redor de vários locais enquanto este procura construir o seu estatuto, cometendo alguns erros, procurando a todo o custo cumprir a sua missão, acabando pelo caminho por conquistar e se deixa conquistar por Vesper Lynd. No final fica a certeza que estamos perante um dos melhores filmes da saga.

Título original: "Casino Royale".
Título em Portugal: "007: Casino Royale".
Realizador: Martin Campbell.
Argumento: Neal Purvis, Robert Wade, Paul Haggis.
Elenco: Daniel Craig, Eva Green, Mads Mikkelsen, Jeffrey Wright, Judi Dench.

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