08 maio 2014

Resenha Crítica: "Capital Humano" (Il Capitale Umano)

 Inteligente a efectuar comentários sobre a especulação financeira e imobiliária, mas também sobre a crítica, a arte e o ser humano, "Il Capitale Umano" destaca-se ainda pela forma competente como desenvolve os personagens e permite ao elenco destacar-se, enquanto Paolo Virzì cadencia de forma exímia cada um dos quatro capítulos que marcam a narrativa. No primeiro capítulo, o destaque é Dino Ossola (Fabrizio Bentivoglio), um decadente vendedor de uma pequena agência imobiliária, casado com Roberta (Valeria Golino), uma psicóloga que se encontra grávida, tendo uma filha do anterior casamento, a bela Serena (Matilde Gioli). Decadente de valores, pronto a parecer aquilo que não é, Dino é o protótipo de um representante de uma bafienta sociedade de aparências, contraindo um empréstimo bancário no valor de setecentos mil euros para investir num fundo da empresa de Giovanni Bernaschi (Fabrizio Gifuni), o pai de Massimiliano (Guglielmo Pinelli), o irreverente namorado da sua filha. Dino logo procura utilizar este conhecimento e o facto de Giovanni ter apreciado a sua presença num jogo de ténis para tentar conseguir investir no fundo, algo que lhe prometeria lucros elevadíssimos (na casa dos 40%), embora saibamos que estes negócios envolvem um enorme risco. Giovanni e Dino ainda formam amizade, mas esta logo se desgasta com facilidade, embora os filhos de ambos aparentemente tenham uma relação sentimental sólida, algo que não se comprova com o desenrolar da narrativa, com Paolo Virzì a jogar com algumas das nossas expectativas em relação aos vários personagens. O segundo capítulo é centrado em Carla (Valeria Bruni Tedeschi), a esposa de Giovanni, uma mulher algo apagada no primeiro capítulo, cuja relação com o marido é relativamente fria, sendo marcada sobretudo pela aparente segurança que este lhe dá. A casa dos Bernaschi é espaçosa, com um local para campo de ténis, piscina, várias divisórias, espelhando a opulência de alguém que vive a especular, a apostar no risco e neste caso a ganhar com a crise (mais uma crítica, desta vez aos que lucraram com a crise financeira que assolou a Europa), permitindo a Giovanni conceder alguns luxos à sua esposa. Entre esses luxos encontra-se um teatro falido que Carla pretende gerir, contratando um conjunto de pessoas para a ajudar nesta demanda, incluindo uma crítica que não gosta de quase nada e para quem o teatro morreu (belo comentário a alguma crítica mais conservadora que teima em comparar obras do passado com as do presente como se o contexto fosse o mesmo, recusando a novidade), mas também Donato Russomanno (Luigi Lo Cascio), um professor de teatro com quem esta se envolve momentaneamente.

O problema acontece quando os investimentos de Giovanni não começam a ter os lucros desejados e o conduzem a querer vender o teatro (a arte vista como algo de pouca importância, uma situação que encontra ressonância nas políticas governamentais em tempos de crise), algo que promete trazer problemas a Dino. No terceiro capítulo, o destaque é a bela Serena, interpretada por aquela que é considerada como a "Angelina Jolie de Itália", embora por aqui até lhe vejamos uma sensualidade mais próxima de uma Monica Belucci. Diga-se que não é só a sensualidade, mas também o talento, com esta a interpretar uma jovem oriunda de uma família de classe média, de personalidade algo fechada, cuja relação com Massiliano já conheceu o seu ocaso. Esta inicia uma relação com Luca Ambrosini (Giovanni Anzaldo), um jovem problemático, que frequenta as consultas de Roberta, tendo anteriormente sido detido por posse de droga, embora a mesma pertencesse ao seu tio. Paoli Tirzì rendilha estes três capítulos de forma sublime, apresentando-nos ao mesmo tempo narrativo através de diferentes perspectivas, unidas pelo caso de um indivíduo que circulava numa bicicleta, tendo sido atropelado na noite da entrega dos prémios do final do ensino secundário da escola de Serena e Massimiliano, um episódio apresentado no prólogo, cujas repercussões surgem de forma latente nas diferentes partes do filme. A início esta história parece não ter nenhuma ligação com os protagonistas, tal como os Bernaschi e os Ossola parecem ter pouco em comum, mas gradualmente percebemos que alguns dos personagens podem estar envolvidos neste caso, com Paolo Virzì a conseguir manter o mistério ao longo de boa parte da narrativa de "Il Capitale Umano", resolvendo as pontas soltas no quarto capítulo (que partilha o título com o filme), elaborando um drama humano competente, com um argumento praticamente imaculado, dando espaço para cada personagem crescer ao longo da narrativa e para os actores expressarem o seu talento. Veja-se desde logo a estreante Matilde Gioli, sensual, com uma doçura muito própria, mas também Fabrizio Bentivoglio, com este a não ter problemas em expor o lado negro do seu personagem, capaz de jogar com as vidas humanas para conseguir os seus intentos, procurando ascender a todo o custo, embora seja incapaz de o conseguir por mérito próprio, ou pelo menos de forma leal e séria. Já Fabrizio Gifuni interpreta um frio especulador, um indivíduo habituado a jogar com o dinheiro dos outros, que mantém uma relação complicada com a mulher e o filho. Diga-se que as relações entre estes personagens são quase todas complexas. Dino e Giovanni inicialmente parecem formar uma amizade mas logo se afastam, sendo que essa afinidade parece inexistente desde o início. Pouco têm em comum (apesar de ambos tratarem muitas das vezes as vidas humanas como se fossem mercadoria, uma frieza latente na sociedade actual), sendo que os gestos de Dino e a perda do dinheiro pela parte de Giovanni logo propiciam esse afastamento. Roberta mantém uma relação aparentemente coesa com Dino, encontrando-se grávida do mesmo, embora nem tudo seja transparente entre ambos.

 A personagem interpretada por Valeria Golino (actriz que tão bons resultados teve na realização com "Miele" e eternamente conhecida pelo seu papel em "The Rainman") é das poucas que conhece o lado bom de Luca, um adolescente que contrasta a nível comportamental com Dino. No exterior Luca parece um delinquente, mas cedo percebemos que as aparências enganam, algo visível com Dino, com este último a parecer alguém com uma educação pouco polida mas bem intencionado, uma expectativa que não se comprova. Luca tem um jeito enorme para a pintura, apresentando uma sensibilidade enorme, sendo alguém de poucas posses que gradualmente encanta Serena. A relação entre os dois é marcada por alguma candura, mas também algum calor sexual, distinta do que encontramos entre Serena e Massimiliano. Este é um jovem adulto mimado, rebelde, algo violento e pronto a cometer alguns erros. Por sua vez Carla deambula entre a futilidade da dona de casa diletante, a procura em reerguer um teatro, a relação com o marido e um caso extra-conjugal, parecendo incapaz de manter a coesão do que quer que seja. Valeria Bruni Tedeschi atribui uma fragilidade escondida na sensualidade da sua personagem, uma mulher madura, cuja família vive numa ilusão de riqueza e sentimentos. Quase todos os personagens parecem pensar acima de tudo em si próprios, talvez com a excepção de Guido e Serena, com Dino a ser o expoente máximo da procura de enriquecer a todo o custo. Este permite a Paolo Virzì criticar alguns elementos da sociedade contemporânea que se endividaram em busca de lucro fácil, que investiram em fundos de risco que tão mal-resultado deram (veja-se por exemplo o esquema de pirâmide de Bernard Madoff, entre outros), ao mesmo tempo que explora essa dicotomia entre o ser e o parecer, com Dino a passar para o exterior a imagem que é um empresário de sucesso quando na realidade é um remediado que vive de empréstimos. A crítica de Virzì não se fica por aqui, com "Capital Humano" a embrenhar-se pelas entrenhas da nossa sociedade, sobretudo no seu lado negro, abordando temáticas relevantes, pertinentes e contemporâneas (veja-se que a narrativa se desenrola em 2010), derivando o seu título da aplicação do termo ao ramo dos seguros (no caso o valor da compensação de uma vítima de acidente). Curiosamente, se vários personagens parecem pensar mais na riqueza e em si próprios, já Paolo Virzì parece pensar acima de tudo nos seus personagens e nos seus actores, num caso de elogiar onde um cineasta pensa sobretudo nestes elementos e na história, com o argumento de grande nível a incrementar o seu trabalho. A divisão em capítulos resulta, com estes a serem centrados em três personagens distintos ao longo do mesmo espaço de tempo, abrindo um mosaico que gradualmente se reúne e conclui no quarto capítulo, deixando novas perspectivas em relação aos acontecimentos e personagens que nos são apresentados. 

Paolo Virzì poderia cair na armadilha fácil dos filmes-mosaico de não conseguir desenvolver todos os personagens, mas evita essas ratoeiras com argúcia, mostrando saber aquilo que está a fazer, realizando um drama que longe de ser inovador é bastante competente. Por vezes faz-nos remeter para obras como "Virgin Stripped Bare by Her Bachelors" de Hong Sang-soo, também dividido em capítulos centrados em diferentes personagens, com distintas perspectivas sobre os mesmos, embora "Il Capitale Umano" contenha um conjunto mais alargado de elementos. O filme teve como base o livro "Human Capital" de Stephen Amidon, com Virzì a transportar a narrativa de Connecticut para Brianza, tendo estreado em Portugal no encerramento da sétima edição do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano, revelando-se como uma das obras mais sólidas deste certame, mas também uma das agradáveis surpresas a estrear em circuito comercial em 2014. Não é que Paolo Virzì tenha realizado uma obra-prima, mas consegue arquitectar uma história mais complexa do que pode parecer inicialmente, sendo capaz de subtilmente elaborar alguns comentários certeiros sobre a nossa sociedade, sem falsos moralismos, sempre sem descurar alguma acidez, mas também humor e até algum amor. O romance é vivido sobretudo pelos jovens, em particular Luca e Serena, aqueles que mais empatia geram na nossa pessoa. A certa altura tememos o pior para ambos, quase que nos chega a cair uma lágrima perante um trágico incidente, com ambos a mostrarem um espírito algo sonhador tão típico da idade, prontos a cometerem os maiores erros e a conquistarem-nos. A unir estes capítulos encontra-se o episódio do atropelamento, resolvido de forma gradual, atribuindo alguns salpicos de thriller a "Il Capitale Umano", com Paolo Virzì a acertar também na condução dos ritmos da narrativa, gerando o interesse na resolução deste caso, mas também em relação a cada um dos seus personagens principais. Vale ainda a pena realçar o cuidado colocado nos cenários. Veja-se a casa de Giovanni, frequentada por especuladores com carros de topo, enfileirados à espera do lucro, mas também o quarto de Serena, marcado pela presença do desenho de Luca (revelador da ligação entre ambos), e até o teatro que Carla pretende reerguer, um espaço tão vazio como as suas ideias inconsequentes. Acima de tudo estamos perante um drama competente, com um argumento coeso e praticamente imaculado que ganha outra dimensão com as interpretações acima da média dos elementos do elenco e uma realização sublime de Paolo Virzì. 

Título original: "Il Capitale Umano". 
Título em Portugal: "Capital Humano".
Realizador: Paolo Virzì. 
Argumento: Paolo Virzì, Francesco Bruni, Francesco Piccolo.
Elenco: Fabrizio Bentivoglio, Valeria Bruni Tedeschi, Fabrizio Gifuni, Valeria Golino, Luigi Lo Cascio, Bebo Storti, Matilde Gioli.

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