11 abril 2014

Resenha Crítica: "Viva a Liberdade" (Viva la libertà)

 Comédia sagaz na crítica à política e aos jogos de bastidores que a permeiam, "Viva a Liberdade" mostra algum talento e eficácia a roubar alguns sorrisos, enquanto permite a Toni Servillo explanar o seu talento na arte da interpretação. Estamos longe de estar perante uma comédia inócua, com Roberto Andò a entroncar a narrativa do filme na situação política actual de Itália, com o argumento a não poupar a esquerda e a direita à mordacidade, sempre com alguma inteligência e conhecimento do jogo político. Eleitores e eleitos parecem distanciar-se cada vez mais, na ficção e, já agora, na realidade, algo que muda ao longo de "Viva a Liberdade" com a presença de Giovanni Ernani (Toni Servillo), um filósofo brilhante com distúrbios mentais que se vê na situação de substituir temporariamente Enrico Oliveri (Toni Servillo), o seu irmão gémeo, o líder do maior partido da oposição (ligado à esquerda), após este último ter desaparecido extemporaneamente. Andrea Bottini, o assessor de Enrico, e a sua mulher, Anna, procuram saber o paradeiro do político, chegando à fala com Giovanni que numa feliz coincidência acaba por substituir o irmão. Se Enrico apresentava uma enorme incapacidade de liderança e estava a descer cada vez mais nas intenções de voto, pese o mau trabalho do Governo em funções, já Giovanni apresenta um discurso sincero (veja-se que este é um líder que não pinta o cabelo... ao contrário de Silvio Berlusconi), emotivo, marcado pela imprevisibilidade e pela capacidade de desarmar os seus interlocutores enquanto se faz passar pelo familiar. Enquanto isso, Enrico encontra-se junto de Danielle, uma amiga sua há vinte e cinco anos, antiga namorada, actual mulher de um realizador que este admira imenso e lhe vai mostrar um pouco do seu trabalho. A colocação em cena do realizador de cinema não parece ter sido elaborada ao acaso, existindo um paralelismo entre a sétima arte e a política, com ambas a procurarem vender ilusões, embora nem sempre cumpram as promessas que fazem ao seu eleitorado. 

O desenvolvimento da narrativa pode-se dividir assim em duas grandes linhas de força: uma onde temos Giovanni a colocar inicialmente a cabeça em água ao seu assessor, conquistando tudo e todos com um discurso pouco habitual no mundo da política, sem rodriguinhos e promessas bacocas. A outra é centrada em Enrico, com este a apresentar um crise existencial, parecendo-se um pouco com o personagem interpretado por Toni Servillo em "A Grande Beleza". Enrico e Giovanni pouco convivem actualmente, sendo que "Viva a Liberdade" revela-se assertivo a expor e explorar as idiossincrasias entre estes dois personagens e até um pouco do passado de ambos, enquanto Servillo expõe a sua versatilidade. Toni Servillo é essencial para muitas das vezes agarrar a narrativa de "Viva a Liberdade", convencendo quer como o desbocado e culto Giovanni, quer como o discreto Enrico, ao longo desta comédia que está longe de ser uma obra-prima, mas revela alguma inteligência e sagacidade na abordagem das suas temáticas. Roberto Andò realiza o filme de forma eficaz, não procurando inventar, ao mesmo tempo que procura despertar consciências com sorrisos. Não estaremos nós a precisar de mais espontaneidade no mundo da política? Não estaremos a precisar de mais políticos com discursos francos, abertos e prontos a pensar no povo que os elege? "Viva a Liberdade" utiliza o humor, embora não descure os momentos mais sérios para nos colocar perante o mundo da política, quer nos jogos de bastidores, quer no discurso para o povo, explorando de forma muito viva a situação de Itália, que até pode entroncar com a portuguesa. Não teremos nós neste momento um Governo que conta com alguma contestação, cuja oposição não consegue apresentar alternativas que permitam trazer para junto de si o eleitorado? "Viva a Liberdade" apresenta assim um questionar da política, ainda que de forma leve, sempre com alguma acidez e mordacidade, enquanto dá espaço para Toni Servillo mostrar mais uma vez que é um actor de enorme qualidade. No entanto, vale a pena realçar que este questionar da política do filme e estas divagações vagas efectuadas na crítica apenas podem ser feitas porque estamos em Democracia, que por muitos defeitos e limitações que tenha, será sempre melhor que a ditadura. Nesse sentido, "Viva a Liberdade".

Título em Portugal: "Viva a Liberdade". 
Título original: "Viva la libertà".
Realizador: Roberto Andò. 
Argumento: Angelo Pasquini e Roberto Andò.
Elenco: Toni Servillo, Valerio Mastandrea, Valeria Bruni Tedeschi, Michela Cescon, Anna Bonaiuto.

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