22 abril 2014

Resenha Crítica: "The Unsuspected" (1947)

 Filme noir marcado pela tensão, dissimulação, mentiras e assassinatos, "The Unsuspected" adapta ao grande ecrã o livro homónimo de Charlotte Armstrong para nos oferecer uma obra inquietante, onde um assassino anda à solta e pronto a fazer novas vítimas. Quando a secretária do famoso locutor de rádio, Victor Grandison (Claude Rains), aparece morta, gera-se um enorme burburinho em volta do acontecimento. Embora saibamos que esta fora assassinada, a polícia não chega no imediato a essa conclusão, algo que apenas faz mais tarde. Este não é o primeiro assassinato de uma pessoa próxima a Grandison, um homem misterioso, conhecido por relatar um conjunto de histórias relacionadas com homicídios no seu programa de rádio. A vida de Victor muda quando surge Steven Howard (Ted North), um homem misterioso que afirma ser casado com Matilda Frazier (Joan Caufield), uma mulher supostamente falecida que tinha o locutor como seu tutor. Poucos acreditam nesta situação, embora este apresente documentação e exponha a sua fortuna pessoal, mostrando que não é um aproveitador em busca dos bens de Matilda. No entanto, tudo muda quando Matilda surge viva e pronta a reclamar os seus bens, algo que promete trazer uma série de convulsões, sobretudo com Althea (Audrey Totter), a sobrinha de Grandison, que cedo vê os seus luxos ficarem em perigo. Enquanto Matilda procura lidar com o facto de poder ter perdido a memória do casamento, o assassino promete continuar a fazer das suas, num filme noir inquietante, onde Michael Curtiz revela-se mais uma vez um realizador capaz de saber utilizar o material que lhe dão e elaborar obras acima da média. "The Unsuspected" não é o mais brilhante dos filmes noirs, mas facilmente fica na memória graças à atmosfera negra criada por Michael Curtiz, que é capaz de elaborar todo um clima de dissimulação e tensão, enquanto nos envolve nesta intrincada história que mescla assassinatos, problemas familiares, tensões amorosas e muitas mentiras. Mérito para o cineasta e para o seu director de fotografia, que desde o início despertam à atenção pela sua enorme capacidade de utilizar o jogo de luz e sombras, escondendo a durante algum tempo a identidade do homicida (o insuspeito) da secretária, explorando o medo do espectador, a inquietação em relação ao que acontece no fora de campo, criando a tensão e aquela sensação de nervoso miudinho, dando o mote para uma obra marcada pela incerteza.

Uma incerteza que começa desde logo pelos objectivos e identidade dos personagens, um conjunto de elementos cuja construção beneficia não só de um argumento assertivo, mas também de um elenco capaz de interpretar com eficácia toda esta panóplia de pessoas que provavelmente não conseguiríamos confiar à primeira. A começar por Grandison, um personagem que esconde alguns segredos macabros, interpretado com grande eficácia por Claude Rains, que é capaz de expor toda a dubiedade do seu personagem, um locutor soturno, cuja capa de aparente seriedade e simplicidade escondem uma personalidade mais negra. Rains surge bem acompanhado por nomes como Ted North, com este a interpretar Steven, um indivíduo cujos propósitos apenas vamos descobrir com o desenrolar da narrativa, bem como Joan Caufield como a doce Matilda. Vale ainda a pena realçar Audrey Totter, uma das actrizes secundárias que enriquecem o enredo, com esta actriz a destacar-se como a dissimulada Althea, uma mulher fria, invejosa, dissimulada, capaz de casar com Oliver apenas porque este era a paixão de Matilda, uma personagem complexa, no interior de uma história surpreendentemente bem amarrada. Marcado pelo mistério, crime, dissimulação e mentiras, "The Unsuspected" aparece-nos com uma atmosfera negra marcada pela incerteza e suspeitas, com elementos muitas das vezes associados aos filmes noir, embora também fuja a este subgénero. Não temos o detective, o clube nocturno e a femme fatale, mas temos os personagens de carácter dúbio, a utilização do chiaroscuro, o crime, um certo pessimismo e pragmatismo associado à sociedade, entre outros elementos, num filme onde a sua principal personagem de feminina tem um regresso dos mortos a fazer lembrar "Laura" e a mexer com o status quo daqueles que acreditavam na sua morte. Um regresso surpreendente, numa das reviravoltas de uma película que surge algo "esquecida" em relação a outras obras-primas (ou pelo menos mais mediáticas) do subgénero, embora conte com vários elementos que tornam a sua visualização quase obrigatória para os fãs dos filmes noir. Com um Claude Rains e uma Audrey Totter com desempenhos de grande nível, uma história envolvente, um trabalho de fotografia sem mácula que incrementa a narrativa, "The Unsuspected" apresenta-nos a uma história que não está à prova de suspeitas, mas que se revela um belo pedaço de cinema que se encontra algo escondido do público, embora mereça toda a atenção cinéfila.

Título original: "The Unsuspected".
Realizador: Michael Curtiz.
Argumento: Ranald MacDougall e Bess Meredyth.
Elenco: Joan Caulfield, Claude Rains, Audrey Totter, Constance Bennett, Hurd Hatfield.

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