01 abril 2014

Resenha Crítica: "Serra Pelada"

 A febre do ouro e a ganância excessiva podem trazer efeitos nefastos, que o diga o personagem interpretado por Humphrey Bogart em "O Tesouro da Serra Madre". Em "Serra Pelada", Heitor Dhalia, recomposto do desastre de "Gone" nos Estados Unidos da América, aborda a história de dois amigos de longa data que decidem viajar até ao local do título, uma serra brasileira localizada no sudeste do estado do Pará, no início dos anos 80, tendo em vista a procurarem enriquecer com o negócio de garimpar ouro. A narrativa tem bases históricas, visto que no início dos anos 80 a Serra Pelada viu uma corrida ao ouro moderna, de onde foram extraídas cerca de 30 toneladas de ouro, com Heitor Dhalia a permear a narrativa de imagens de arquivo (incluindo noticiários) que dão algum verismo a esta história onde a ambição humana pode conduzir a consequências funestas, como o poderão confirmar Juliano (Juliano Cazarré) e Joaquim (Júlio Andrade). Joaquim é um professor cuja esposa se encontra prestes a ter a filha de ambos, tendo ficado recentemente sem emprego. Juliano só tem dívidas, não tendo nada a perder. Estes são quase como irmãos, ou até mais unidos do que se fossem familiares, aventurando-se pela Serra Pelada, onde cedo percebem a dureza do negócio do garimpo e as estruturas hierárquicas que o envolvem. Joaquim e Juliano logo reúnem um grupo de homens para trabalhar na exploração da sua porção de terra, enquanto esta começa a revelar-se pródiga em ouro, embora nem tudo corra bem para a dupla de protagonistas. Juliano acaba por se envolver em maior violência ao eliminar um dos elementos do "gang" das "Marias", um grupo composto por homossexuais, que tenta eliminar Joaquim. A presença da morte não deixa Juliano desagradado, cuja ambição por poder o vai conduzir a envolver-se em perigos e crimes vários, enquanto vai colocando a amizade com Joaquim em risco. Joaquim "apenas" pretende ficar rico e trazer dinheiro para a sua filha não ter problemas financeiros. Já Juliano pretende ganhar poder, ambicionando a cada vez mais, incluindo conquistar a bela Tereza (Sophie Charlotte), a noiva do Coronel Carvalho (Matheus Nachtergaele), um homem de posses elevadas e enorme poder, que possui várias terras que circundam a porção de território da dupla de protagonistas. Juliano ambiciona o poder de Carvalho, mas também possuir a sensual Tereza, com quem protagoniza algumas cenas tórridas e uma relação algo telenovelesca, até a violência se extremar entre o primeiro e o personagem interpretado por Nachtergaele. Temos ainda a presença de Lindo Rico (Wagner Moura), um elemento violento e ansioso por poder que se encontra no garimpo, que é o símbolo da capacidade de corromper as autoridades, procurando trazer para o seu lado o destroçado Joaquim, enquanto este último e Juliano se parecem afastar cada vez mais.  

Heitor Dhalia utiliza o contexto histórico desta corrida ao ouro para nos apresentar a clássica história de dois amigos inseparáveis que acabam por tomar rumos distintos, ao mesmo tempo que nos deixa perante a ascensão e queda de uma espécie de gangster muito ao jeito dos filmes da Warner dos anos 30 (sendo que "Serra Pelada" parece ainda tirar inspiração de "O Padrinho"). Juliano Cazarré não é James Cagney, Edward G. Robinson ou Humphrey Bogart, mas consegue explorar a ambição desmedida do seu personagem e a impetuosidade do mesmo, tendo uma boa dinâmica com Júlio Andrade. Embora nem sempre nos pareça possível que um personagem aparentemente tão pouco pragmático consiga a ascensão apresentada, Cazarré incute uma ferocidade e violência ao seu personagem enquanto este muda gradualmente os seus objectivos iniciais. Diga-se que não é apenas Juliano que muda, também Joaquim se deixa afectar pela febre do ouro, com este garimpo a céu aberto a influenciar os comportamentos daqueles que o habitam, com o lado negro do ser humano a ser exposto e as vidas a serem colocadas em perigo. Nesse sentido, Heitor Dhalia é relativamente competente a abordar as questões ligadas a esta febre do ouro contemporânea, que tanto tem em comum com outros episódios semelhantes da História do Brasil, cujos relatos divergentes conduziram o cineasta a optar por contar uma versão sua dos acontecimentos. Muitas das vezes perde o foco, sobretudo na subtrama que envolve a relação entre Juliano e Tereza, abordando algumas questões de forma pueril (como a relação de Joaquim com a esposa), enquanto em outras fica pelo tom caricatural (o bando das "Marias") ou por uma preguiçosa narração em off, mas consegue expor-nos com eficácia à ambição humana e as mudanças que esta pode provocar, sobretudo na dupla de protagonistas. Joaquim e Juliano chegaram à Floresta Amazónica com a mesma ambição de tantos outros homens, encontrando peripécias várias pelo caminho, ao mesmo tempo que a narrativa vai avançando e assistimos a uma ingerência do poder político no local, mas também corrupção, com Wagner Moura a ter um papel secundário, mas relevante, na exposição deste quesito. Temos ainda uma Sophie Charlotte sensualíssima e surpreendente, mas o destaque maior vai para o "professor", interpretado por Júlio Andrade, com este a deixar tudo para trás, perdendo o nascimento e parte do crescimento da filha por um sonho ambicioso.  

A cobiça afecta estes homens, que logo criam estruturas hierárquicas, com os "homens-formiga" a ficarem com o estatuto mais baixo e trabalhando desumanamente a terra, modificando o território, criando uma "pirâmide invertida", ao mesmo tempo que "Serra Pelada" nos deixa perante um interessante episódio da história do Brasil, embora abordado de forma algo previsível. Este episódio até chegou a ser alvo de uma paródia, "Os Trapalhões na Serra Pelada", protagonizada por Renato Aragão e companhia, embora Heitor Dhalia reduza o humor ao máximo e concentre as atenções nas mudanças da sua dupla de protagonistas. Juliano e Joaquim eram amigos, quase irmãos, mas gradualmente deixam a sua alma ser corrompida pelas pepitas. Para Juliano não são apenas as pepitas que estão em jogo, mas também o poder, querendo entrar no grupo dos "manda-chuvas", envolvendo-se pelo clube nocturno que foi criado nas redondezas e com a bela Tereza embora cedo desperte o desprezo desta. Joaquim também comete os seus erros devido à procura excessiva em enriquecer, enquanto os seus valores morais por vezes se parecem esbater, apesar de nunca atingir os níveis violentos do amigo. As relações humanas surgem muitas das vezes coartadas pela violência que marca o dia a dia de cada elemento, mas também pelos actos menos pensados, ao longo de uma obra que não poupa na exposição da ganância humana. É gente que procura ascender rápido na vida, que quer enriquecer e fintar o destino mas cai nas tentações fáceis e facilitismos, expostos ao longo desta obra marcada por alguns clichés dos filmes do género, algumas pontas soltas no argumento, mas nem por isso deixa de apresentar vários elementos a ter em atenção. Não são apenas as interpretações que sobressaem, veja-se a fotografia do filme (intenso o momento em que o delírio da febre da malária é colocada em comparação com a febre do ouro), mas também a exploração destes cenários marcados por areias tão quentes como os sentimentos que perpassam (por vezes parece que estamos numa cidade sem lei dos westerns). Entre a ascensão e a queda de um gangster, o desmembramento de uma amizade de longa data, violência, ganância, sede de poder e sentimentos exaltados, "Serra Pelada" marca um regressar relativamente feliz de Heitor Dhalia ao Brasil após o desastre em território yankee, embora o argumento nem sempre acompanhe a ambição narrativa do cineasta. 

Título original: "Serra Pelada".
Realizador: Heitor Dhalia.
Argumento: Heitor Dhalia e Vera Egito.
Elenco: Sophie Charlotte, Juliano Cazarré, Wagner Moura, Matheus Nachtergaele, Júlio Andrade, Eline Porto. 

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