24 abril 2014

Resenha Crítica: "R100"

 Muitas das vezes conhecido pelo seu trabalho como actor e pela sua faceta de comediante (fazendo parte do duo "Downtown"), Hitoshi Matsumoto tem conseguido alguma atenção como realizador de filmes do género. Em "R100" este volta mais uma vez a jogar com os géneros, deambulando entre a paródia non-sense, o thriller erótico e o filme noir, embora muitas das vezes caia em excessos e exageros na apresentação de Takafumi Katayama (Nao Omori), um indivíduo que resolve assinar um contrato indissolúvel, por um período de um ano, com um serviço de seis experientes dominatrix que, de modo aleatório, o deverão atacar durante esse período. Cada uma destas mulheres apresenta características distintas que vão desde cuspirem de forma excessiva, imitarem vozes, entre outras, surgindo nos momentos mais inesperados, algo que gradualmente vai dando uma estrutura repetitiva ao filme, sobretudo quando fica latente que Hitoshi Matsumoto pouco nos tem a dar a mais do que isto, exacerbando a vulgaridade tendo em vista muitas das vezes o humor negro, embora este nem sempre resulte. Tal como nem sempre resulta o drama pessoal do protagonista. Este é um vendedor de mobiliário, pai de um filho pré-adolescente e casado com uma mulher que se encontra há três anos em estado vegetativo, tendo nesta submissão às dominatrix uma forma de escapar à realidade, pelo menos até a violência aumentar e este acordo começar a colocar em perigo a segurança dos seus entes queridos. Ficamos assim perante um universo narrativo aparentemente negro, marcado pela violência, mas também por algum sadismo e masoquismo, onde um homem elabora um contrato que o coloca nas situações mais caricatas e peculiares, sendo que este não pode nunca tocar nestas mulheres. Hitoshi Matsumoto não poupa nas situações absurdas, que vão desde sushi a ser esmagado furiosamente por uma dominatrix, o protagonista a ser cuspido, entre muitas outras situações, não faltando uma reviravolta que procura destruir algumas das barreiras da narrativa e dos géneros cinematográficos.

As reviravoltas sucedem-se a um ritmo elevado, enquanto a montagem exacerba o insólito de algumas destas situações, com "R100" a perder-se exactamente muitas das vezes na excessiva procura em "ser engraçado", com o seu título a indicar desde logo que é um filme compreensível para maiores de 100 anos. Apesar de algum vazio que permeia a sua narrativa, cujo final parece saído de um jogo de computador, onde não falta o "boss" final, no caso uma CEO loira e made in EUA (Lindsay Kay Hayward), vale a pena salientar o esforço de Hitoshi Matsumoto em deambular entre os géneros, em ser criativo, sendo ainda de realçar a (feliz) decisão de esbater as cores das imagens em movimento, uma medida que contribui para dar um tom quase de sonho, neste caso de pesadelo, ao filme, contribuindo para o irrealismo que permeia o enredo. Não é ainda menos verdade que em algumas alturas nos questionamos se o que estamos a ver está mesmo a acontecer ou não passa de um sonho do protagonista, com uma reviravolta no filme a colocar em causa muito do que estamos a visionar, embora esta dúvida surja sobretudo devido às características das situações em que o protagonista é colocado. A excentricidade domina a narrativa, mas também um certo vazio, caminhando de dominatrix em dominatrix, de momento non sense em momento non sense, algo que retira alguma da procura de Hitoshi Matsumoto em atribuir uma carga dramática ao filme na questão da esposa do protagonista e do filho. Diga-se que a relação com o rebento nem sempre convence, com "R100" a "apostar as suas fichas" no humor, algo que a espaços consegue. Veja-se a cara de prazer do protagonista, distorcida, ou não fosse este sentimento obtido através de forma bizarra e violenta, destacando-se ainda alguns gags que perdem pelo excesso de repetição com Hiroshi Matsumoto a parecer por vezes ter receio que o espectador não entenda logo a piada à primeira ou então podemos ainda questionar se este não terá gostado demasiadamente destes momentos de humor a ponto de os repetir excessivamente (a cena do Sushi a ser esmagado é paradigmático dessa repetição). "R100" nem sempre convence, mas consegue divertir em alguns momentos, ao mesmo tempo que nos deixa perante uma história meio louca e algo invulgar, longe de ter cenas gráficas de sexo ou violência excessiva, exibindo o inconformismo de Hitoshi Matsumoto.

Título original: "R100".
Realizador: Hitoshi Matsumoto.
Argumento: Hitoshi Matsumoto, Mitsuyoshi Takasu, Tomoji Hasegawa, Kôji Ema, Mitsuru Kuramoto.
Elenco: Mao Daichi, Lindsay Kay Hayward, Hairi Katagiri, Nao Omori.

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