10 abril 2014

Resenha Crítica: "Pecado Fatal"

Para onde caminha o cinema português? Com os apoios cada vez mais em falta é de elogiar a resiliência e espírito empreendedor de nomes como Luís Diogo que procuram seguir o seu caminho e expressar a sua arte mesmo sem subsídios estatais. No entanto, os elogios a "Pecado Fatal" esgotam-se neste esforço empreendedor e até numa interpretação esforçada de Sara Barros Leitão, algo que não deixa de ser irónico visto estarmos perante o filme que conta na sua página do Facebook com a infeliz frase promocional: "Um filme português para quem não gosta de cinema português". Certamente é um filme para quem não gosta de Pedro Costa, Manoel de Oliveira, João Canijo, Miguel Gomes, entre outros nomes que continuam a elevar o cinema português e a não oferecer-nos exemplares como "Pecado Fatal", que estão mais para filmes falhados como "RPG", que pouco ou nada acrescentam às obras nacionais. Procura provocatoriamente ignorar o legado nacional mas esquece-se que comete alguns dos seus "pecados", não faltando os diálogos acompanhados por palavrões avulsos, cenas de sexo, ao longo desta história telenovelesca, cujo amadorismo da forma como foi elaborada não justifica tudo. As interpretações de elementos como Miguel Meira e João Guimarães não convencem, sendo que os diálogos algo pueris nem sempre os ajudam, a realização está longe de surpreender (sobretudo se pensarmos que estamos perante o "filme português para quem não gosta de cinema português"), a banda sonora sobrepõe-se em excesso à narrativa de forma a insuflar a mesma, sendo que até as metáforas correm mal com um caixote do lixo a ser utilizado como um símbolo que significa muito mais do que aparenta. Foi num caixote do lixo que Liliana (Sara Barros Leitão), foi encontrada quando ainda era uma recém-nascida, tendo sida abandonada pelos pais. Esta aluga um quarto na casa de Nuno, um jovem divorciado que conhecera após ter passado a noite na habitação do mesmo devido a ter feito sexo com Miguel (João Guimarães), um amigo deste, quando se encontrava "pedrada". Nuno também acaba por fazer sexo com esta, embora esta não se lembre do acto, algo que promete ter repercussões na relação que vão desenvolver. Este "pecado fatal" de Nuno é um dos elementos em principal destaque da narrativa, bem como a procura de Liliana pela mãe, embora esta última trama esteja longe de ser explorada assertivamente, não faltando um encontro com uma ex-toxicodependente que julgara ser a sua progenitora, que resulta num momento constrangedor. É difícil defender o cinema português quando estamos perante os amadorismos de "Pecado Fatal", uma obra que até pode ser esforçada mas está longe de convencer, atirando-nos com um conjunto de personagens unidimensionais (veja-se Miguel, o engatatão), um enredo genérico, uma investigação pouco elaborada, clichés (o protagonista, morador em Paços de Ferreira tem uma loja de... móveis, etc), relacionamentos pouco convincentes e executada sem carisma. Fica a ideia de estarmos perante uma obra bem intencionada, mas de "boas intenções está o Inferno cheio", embora e felizmente exista muita vida no cinema português, mesmo que cometa "pecados fatais" como este.

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