08 abril 2014

Resenha Crítica: "Noah" (Noé)

 A chegada de "Noah" às salas de cinema tem causado um rebuliço por vezes difícil de compreender. Uns acusam o filme de ser pagão, outros defendem a sua religiosidade, mas poucas convergências parecem surgir em torno desta obra pouco homogénea realizada por Darren Aronofsky. Realizador habituado a obras de menor orçamento e a oferecer algum do seu cunho pessoal aos seus filmes, Darren Aronofsky tem em "Noah" a sua obra mais comercial e dispendiosa, embora garanta que a versão final é a sua e não a do estúdio, algo que no final não nos deixa mais sossegados. Os personagens secundários pouco são explorados, o argumento é incapaz na construção credível dos relacionamentos humanos, os diálogos por vezes deixam a desejar, sendo que raramente assistimos a um sentimento de urgência incutido pelo cineasta em relação aos acontecimentos que coincidem com o dilúvio, após Noé ter sido escolhido por Deus para preservar o que resta de bom da humanidade. Este é um dos últimos descendentes de Set, tendo o seu bisavô, Matusalém (Anthony Hopkins), ainda vivo, e procura seguir os desígnios superiores após uma visão que teve durante um sonho. A Terra encontra-se mergulhada pelo caos devido aos descendentes de Caim, um conjunto de personagens maioritariamente unidimensionais associados ao mal, com Ray Winstone a interpretar o seu líder Tubal-cain. Para este todas as espécies devem ser subjugadas ao ser humano, estando presentes na sua pessoa uma certa ideia de Darwinismo social, num filme que não tem problemas em encaixar ainda ideias relacionadas com a preservação do ambiente (o Homem a destruir a Terra), criacionismo (juntando teorias científicas para a criação da Terra com os elementos religiosos, o chamado "Evolucionismo Teísta") e até ficção científica nas figuras de uns seres de pedra monstruosos (semelhantes aos robôs de "Transformers") cuja presença apenas se desculpa pelo facto do realizador ser Darren Aronofsky e não Michael Bay. Se fosse o realizador de "Transformers" a tomar esta ridícula decisão de colocar uns gigantes de pedra chamados de "Os Vigilantes", quais anjos caídos que vigiaram Adão e Eva, caindo em desgraça junto do "criador" por apoiarem os humanos, a ajudar Noah a elaborar a arca e até a defender o protagonista das ameaças, certamente cairia o "Carmo e a Trindade", algo que não tem acontecido. Quando estas criaturas estão no ecrã a narrativa parece espalhar-se ao comprido, parecendo que estamos mais próximos de algo criado por um Michael Bay ou Roland Emmerich do que Darren Aronofsky, com Samyaza, o líder dos "Vigilantes", a funcionar como uma espécie de Optimus Prime. Era escusado, dispensável e tira algum do realismo que Aronofsky parece querer incutir junto da história de "Noah", onde aborda questões ligadas à fé, ao comportamento humano e à sua psicologia, que até podem entroncar no marcante "The Fountain", uma das obras maiores do cineasta.

Noah conta com três filhos (Ham - Logan Lerman; Shem - Douglas Booth; Japheth - Leo McHugh Carroll), para além de Ila (Emma Watson), uma rapariga que salvara, sendo casado com Naameh (Jennifer Connelly). As mulheres pouco destaque têm tirando no último terço, bem como os filhos do protagonista, com Douglas Booth a ter uma interpretação sensaborana e Logan Lerman a destacar-se por ser dos poucos personagens a quem não cresce barba e cabelo ao longo dos meses, tendo ainda uma relação complicada com o pai. Por sua vez, Shem apaixona-se por Ila, embora esta seja estéril, com o filme a tratar esta questão como se fosse um cancro maligno, pelo menos até Matusalém "curar" a rapariga e esta demorar muito pouco tempo a entregar o seu corpo ao amado. Boa parte da primeira metade do filme é utilizada para nos expor a figura de Noah e a sua missão na Terra, bem como o lado negro da humanidade representada através de Tubal-cain, um homem feroz e pouco dado a moralidades, com este último a procurar contrariar as vontades do protagonista e invadir a arca criada pelo personagem interpretado por Russell Crowe, a família deste último e as criaturas de pedra. Tubal-cain e os seus homens protagonizam uma batalha feroz, embora Samyaza e as restantes criaturas rochosas logo tomem partido do protagonista e ajudem o "criador" a cumprir os seus desígnios através de Noah. Este parece disposto a tudo para manter a ordem divina, incluindo não proteger uma jovem que Ham (Logan Lerman) pretendia salvar, pertencente aos elementos de Tubal-cain. Nesse sentido ficamos perante uma figura algo extremista nas suas posições, por vezes incapaz de gerar empatia, pese a presença e carisma de Russell Crowe, cujas razões para os seus actos nem sempre parecem claros, embora a crença religiosa nem sempre venha acompanhada por pragmatismo, com Darren Aronofsky a procurar ao longo da narrativa explorar a complexidade desta figura bíblica. A entrada em cena do dilúvio logo traz um momento definidor da narrativa, com Darren Aronofsky a procurar na segunda metade criar algo mais intenso, sobretudo a partir do momento em que fecha os personagens na Arca e os deixa à deriva perante o desastre natural. As espécies de animais praticamente não são utilizadas ou aproveitadas (não faltando a presença de cobras num CGI manhoso), sendo que a noção do espaço no interior da arca é praticamente nulo, mas a nível de sentimentos tudo se intensifica, sobretudo quando Ila descobre que está grávida, gerando uma decisão intempestiva junto de Noah. 

Ficamos perante um homem entre a decisão de cumprir os desígnios de Deus ou seguir o seu coração, colocado à prova, tendo ainda de lidar com uma ameaça inesperada no interior da Arca. Fora da arca temos água, imensa, dando uma ideia de alguma claustrofobia, embora os cenários mais impressionantes centrem-se no primeiro e último terço quando somos colocados perante os territórios montanhosos. Impressiona também algumas decisões a nível do trabalho de fotografia e alguns planos que ficam na memória (veja-se quando Aronofsky expõe as silhuetas dos personagens), mas também uma banda sonora adequada ao género de filmes. Nesse sentido, "Noah" surge diante de nós com um aroma agri-doce, deixando-nos perante uma história de pendor religioso (sem soar a propaganda para gerar novos crentes), que recupera uma tradição aparentemente algo perdida de Hollywood dos épicos de cariz bíblico que tantos frutos deram. Não temos algo de tão notável como um "Quo Vadis" e "Ben-Hur", mas sim uma obra de um cineasta com ideias muito próprias, capaz de nos fazer reflectir sobre as imagens e diálogos que nos apresenta, embora nem sempre convença. Falta-lhe mais coesão narrativa, mais densidade nos personagens, um maior sentido de urgência na missão do protagonista, ficando a meio de algo que poderia ser memorável mas é apenas aceitável. De Darren Aronofsky espera-se algo mais do que aceitável, sobretudo se tivermos em conta que este já nos deu obras como "The Fountain", "The Wrestler" e "Black Swan", com estas últimas a já indicarem uma vertente mais comercial que tem em "Noah" o seu expoente máximo. O dilúvio não marca um final mas sim um novo começo, tal como poderá marcar ou não um ponto de charneira na carreira de Darren Aronofsky, embora a sua primeira obra de largo orçamento esteja longe de impressionar. Não são as questões de respeito religioso ou a opção de seguir ou não a Bíblia que estão em causa, mas sim a coesão narrativa, com o cineasta a mesclar o muito bom com a banalidade e o mau gosto (seriam mesmo necessários as criaturas "a la Transformers"?), levantando pelo caminho algumas questões relacionadas com o papel da humanidade nos destinos da Terra e até de fé que são capazes de despertar alguma atenção, mas nem por isso convencem na totalidade.

Título original: "Noah". 
Título em Portugal: "Noé"
Realizador: Darren Aronofsky.
Argumento: Darren Aronofsky e Ari Handel.
Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connelly, Ray Winstone, Emma Watson, Anthony Hopkins, Logan Lerman.  

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