04 abril 2014

Resenha Crítica: "A Imagem que Falta"

     Recuemos até à primeira metade de 1975, ao sudeste da península da Indochina, e em concreto à zona meridional do Camboja - a poucos quilómetros de distância, no país que lhe fazia fronteira por leste, decorria a sangrenta Guerra do Vietname, já nos seus momentos finais. Após uma dura guerra civil que durara cinco anos, na qual beneficiaram do fundamental apoio dos guerrilheiros vietcongues e do armamento providenciado da nação comunista chinesa, os soldados do Partido Comunista da Kampucheia (ou Khmer Vermelho) entravam finalmente em Phnom Penh, a capital do Camboja, uma extensa metrópole com cerca de dois milhões de habitantes, tomando assim de vez o controlo efectivo do país. O seu núcleo central, encabeçado por Pol Pot e por mais alguns cambojanos que tinham estudado e chegado a leccionar em universidades parisienses nas décadas anteriores, estava desejoso de transformar o seu recém-conquistado país numa república que apelidavam de democrática e de igualitária, desejando pôr em prática uma ideologia muito singular baseada numa visão deturpada do que era o marxismo-leninismo. O seu governo pode não ter ultrapassado meia década de duração, mas ficou para a história por ser o responsável por um dos mais horrendos genocídios de toda a história da humanidade.
     A ideia passava essencialmente por construir uma sociedade sem classes composta única e exclusivamente por agricultores, desprovida de operários e acima de tudo de burgueses capitalistas defensores do livre-mercado, coniventes com a gradualmente maior influência dos países estrangeiros na sociedade cambojana. Evacuou-se, como tal, a totalidade das populações que residiam nas cidades para colocá-las em campos de trabalhos forçados, apelidados de “comunitários”, onde eram obrigados a cultivar arroz ou a transportar pedras durante doze horas por dia. A recompensa consistia numa miserável quantidade de arroz, passível de ser reduzida ou retirada caso se verificasse, ou se adivinhasse, algum sinal de resistência. Os indivíduos considerados subversivos, ou que indiciassem qualquer tipo de subversividade, eram encaminhados para a prisão para serem torturados e executados. A liberdade era inexistente, tal como os cuidados básicos de saúde ou de higiene, e os trabalhadores eram obrigados a dormir em casebres dos quais não podiam tentar fugir. Pensa-se que Pol Pot tenha provocado a morte de cerca de dois milhões de habitantes do Camboja, sensivelmente um quarto da população do país, graças não apenas às execuções em massa que ordenou efectuar, mas também à fome, à exaustão ou à doença. Para termos uma ideia, em investigações posteriores efectuadas no território foram encontradas vinte mil valas comuns, atulhadas de cadáveres.
     Rithy Panh, o realizador de “A Imagem que Falta”, tinha 13 anos quando foi expulso de casa com os seus pais e irmãos pelos apoiantes de Pol Pot, que posteriormente os encaminharam, como a tantos outros, para um campo comunitário onde durante quatro anos se familiarizaram com a extrema miséria, com a fome e com a morte. “A Imagem que Falta” narra os quatro anos em que Panh sofreu às mãos do regime do Khmer Vermelho, e neste sentido é uma obra ainda mais pessoal do que as que o realizador elaborara nos anos passados, focadas nas acções do governo genocida cambojano através de uma perspectiva bastante mais geral. Mas há outro pormenor de “A Imagem que Falta” que o distingue de qualquer filme de qualquer género que provavelmente alguma vez tivemos o prazer de ter visionado: com a excepção de algumas imagens de arquivo, as cenas vividas por Panh são reconstruídas através de uma narração em off da autoria do próprio realizador, e ilustradas mediante pequenos bonequinhos de barro, numerosos e expressivos consoante as circunstâncias, inseridos em cenários à escala meticulosamente elaborados. E sendo certo que à partida esta decisão apesar de interessante e original pode causar algum cepticismo por motivos óbvios que nem vale a pena enunciar, findo o filme não conseguimos imaginar melhor maneira de transpor as sofridas experiências vividas pelo cineasta para o grande ecrã.
     A verdade é que a simples narração exposta de forma simples e objectiva pelo cineasta é suficiente para captar o nosso interesse, graças às tragédias revoltantes que este foi enfrentando gradualmente no referido campo de trabalhos forçados. Vamos ouvir atentamente o seu percurso - apresentado de forma relativamente linear – e não vai demorar até sentirmos empatia por ele, na altura uma criança desprovida da noção do que se estava realmente a passar, forçada a constatar como o mundo ia desabando gradualmente à sua volta. É num tom frio e perfeitamente claro que Panh nos descreve como, a dada altura, o seu pai se recusou a deixar de comer a ração com a qual o alimentavam, e como o iam vendo a definhar, aos poucos, de fome, até ao suspiro final. O cineasta explica-nos ainda como, à chegada ao campo, os deportados foram obrigados a envergar vestes completamente negras, porque eram habitantes da cidade, e como tal impuros e contaminados pela sociedade do livre-mercado. Confronta-nos como uma mulher exausta e a morrer de fome foi denunciada pelo próprio filho de nove anos por ter colhido uns frutos de um bosque qualquer, para ser posteriormente executada: «a sua mãe chora suavemente; confessar é aceitar morrer, para a revolução ser justa. Quando os humanos forem livres e iguais a este nível, continuarão a ser humanos? A mãe fecha os olhos. Será para visualizar o filho? Ela não diz nada.». Demonstra como a exaustão e a subnutrição forçada levava os camponeses enfermos ao hospital improvisado do campo, e faz-nos entender que esse hospital não passava de um casebre sem qualquer equipamento médico e com camas de madeira alinhadas na parede. Explica-nos, de seguida, como a renúncia do regime cambojano à medicina ocidental condenava, sem qualquer misericórdia, os pacientes à morte. Não demorou até que a sua mãe, a sua irmã e os seus irmãos fossem também eles obrigados a deitarem-se nessas camas de madeira, onde acabaram eventualmente por morrer.
     O tom frio e arrepiante da narração é complementado com muita inteligência por algumas fotografias e vídeos de arquivo sensatamente colocados nos momentos mais oportunos, e, acima de tudo, pelos já mencionados bonequinhos de barro. Rithy Panh soube fazer da sua utilização uma das principais qualidades do filme ao aproveitar ao máximo o que deles poderia ser retirado, e é com espanto que observamos o engenho e os pormenores evidenciados nos inúmeros cenários criados consoante as circunstâncias retratadas pelo narrador, que expõem as figuras por vezes em interação umas com as outras, noutras em momentos de solitude, mas sempre com uma expressividade assombrosa, causadora de perturbação. Salienta-se neste contexto a forma como à medida que o tempo vai progredindo no campo comunitário os bonecos permanentemente tristes e de vestes negras vão emagrecendo progressivamente, chegando-se mesmo a notar as costelas, esculpidas com precisão, a sobressaírem por debaixo da roupa. Os momentos narrados por Rithy Panh e ilustrados com as figuras de barro são ainda enriquecidos por um trabalho de sonoplastia adequado que recorre, nalguns casos, a simples sons como o chiar de uma carroça ou o cantar de um grilo, criadores de maior realismo e de um ambiente mais contagiante, e noutros a uma música por norma triste e bem aproveitada.

     Numa entrevista realizada há poucos meses, Rithy Panh revelou que ao realizar este filme procurou cumprir o dever que nele incidia, na condição de sobrevivente do genocídio, de testemunhar as privações, até então quase nunca documentadas, por que passou o povo do seu país às mãos do regime de Pol Pot, colmatando neste sentido “a imagem que falta”. Ao mesmo tempo, procurou fazer-nos reflectir sobre a realidade por ela espelhada, relembrando-nos da noção do “dever da memória” defendida pelo escritor italiano Primo Levi e prosseguida no decorrer do século XX pela elaboração de testemunhos elaborados por vítimas dos campos de concentração nazis durante a Segunda Guerra Mundial. E se é verdade que “A Imagem que Falta” não tem o objectivo de problematizar o exercício do mal ou de explicar detalhadamente como funcionava o universo do “campo”, conforme vimos exposto nas obras de Primo Levi, ou até a capacidade de transmitir a dor sentida pelas vítimas dessa maleficência evidenciada por Charlotte Delbo, é com admiração que reconhecemos a importância do seu testemunho, não apenas pelo seu engenho e criatividade, mas também porque nos deu a conhecer, com toda a sua assertividade, os contornos de um dos períodos mais brutais e repugnantes da história da humanidade, que apesar de ter ocorrido a milhares de quilómetros de distância nem teve lugar assim há tanto tempo quanto isso.

Ficha técnica:

Título original: "L'image manquante"
Título em Portugal: A Imagem que Falta
Realização: Rithy Panh
Argumento: Rithy Panh

Sem comentários: