07 abril 2014

Resenha Crítica: "The Grand Budapest Hotel"

 Existe uma mescla de melancolia e alegria, solidão e união, morte e vida, drama e humor em volta de "The Grand Budapest Hotel", uma obra cinematográfica onde Wes Anderson volta a transportar-nos para o seu universo peculiar de personagens. Não são apenas os personagens que são saudavelmente bizarros e ao mesmo tempo tão humanos que sobressaem, mas também os magníficos cenários decorados a preceito, marcados por cores vivas, para além do magnífico guarda roupa e da adequada banda sonora. Tudo parece ser delicadamente rendilhado para construir um universo narrativo coeso, onde a ficcional República de Zubrowka se torna bem viva, povoada por gentes distintas e episódios rocambolescos, onde por vezes parece que estamos no interior de um conto de encantar, mas ao mesmo tempo tão real. A história é dividida em cinco partes, sendo antecedidas por duas introduções e precedida de uma conclusão, deixando-nos entre o passado e o presente de Zubrowka, uma cidade de ficção mas afectada por problemas bem reais, incluindo a II Guerra Mundial, com os cenários a acompanharem esta evolução (veja-se o hotel conspurcado por símbolos Nazis, ainda que o filme opte por os apresentar de forma simbólica, mas também a notícia do pós-Guerra e das expropriações do património por parte do Estado, remetendo para o Comunismo). Estamos perante a obra mais ambiciosa de Wes Anderson, com este a aproveitar o leque alargado de personagens e o elenco de enorme valia que tem à sua disposição para construir uma história coesa, unindo os diferentes pontos, sempre sem ter medo do bizarro e do choque, causando o sorriso através de situações aparentemente banais e outras non sense, enquanto dá espaço para o seu elenco sobressair, sobretudo Ralph Fiennes e Tony Revolori. A narrativa do filme começa no presente, com uma jovem rapariga a observar o busto de um escritor conhecido, o autor do livro "The Grand Budapest Hotel", sendo que a história logo recua para 1968, quando o escritor (Jude Law) decide visitar o hotel do título quando se encontrava perante uma enorme crise criativa. Neste local, o escritor conhece Zero Moustafa (F.Murray Abraham, recuperado após alguns anos votado ao esquecimento), o dono do hotel, um indivíduo poderoso a nível financeiro, mas que mantém o hábito de dormir no quarto do paquete. É então que a história recua ainda mais, nomeadamente para 1932, onde conhecemos o jovem Moustafa (Tony Revolori), um paquete em início de carreira que vai trabalhar para o Grand Budapest Hotel, encontrando-se sob a alçada do aparentemente refinado Gustave H. (Ralph Fiennes). 

Com vestes a preceito, roxas, perfume bastante activo (não cheiramos, mas as descrições feitas são tais que parece estarmos perante a fragrância utilizada por este), um estilo galanteador junto das mulheres mais velhas, Gustave H. gosta de declamar poesia nos momentos mais inadequados, embora os seus encantos até despertem a atenção de Madame Céline Villeneuve Desgoffe-und-Taxis (Tilda Swinton). Esta é uma mulher algo bizarra, bastante maquilhada, cuja morte vai colocar a vida de Gustave H. num alvoroço, sobretudo quando este é designado como herdeiro e recebe o quadro do "O Menino da Maçã", gerando a ira do filho desta, Dmitri (Adrien Brody). Perante a possibilidade de não conseguir sair com o quadro da propriedade, Gustave H. e Zero decidem levar o mesmo "à socapa", contando com a ajuda de Serge X (Mathieu Amalrice) e Clotilde (Léa Seydoux), dois dos criados da personagem interpretada por Swinton. Gustave H. acaba por ser preso devido às autoridades desconfiarem da sua pessoa, algo que conduz o jovem Zero a procurar ajudar o seu superior a escapar da prisão e a provar a sua inocência. Enquanto isso, Zero apaixona-se por Agatha (Saoirse Ronan), uma rapariga com uma mancha latente na face, delicada na confecção de doces, elaborando uns bolinhos que vão permitir esconder material para Gustave H. fugir da prisão. Este continuará a ser perseguido por elementos Dmitri, bem como por J.G. Jopling (Willem Dafoe), um assassino contratado pelo personagem interpretado por Adrien Brody, enquanto a busca pelo quadro nos envolve num caper film que extravasa muito este subgénero e se embrenha no interior do mundo de Wes Anderson. Este é um mundo cheio de fantasia e realismo, marcado por vários personagens que na sua maioria contam com feitios e personalidades muito próprias, com Wes Anderson a rodear-se de um elenco de luxo e a saber aproveitar o mesmo. Veja-se o destaque dado aos personagens secundários, tais como Willem Dafoe como um assassino frio que tem um pouco do seu Drácula, Saoirse Ronan como uma encantadora rapariga que parece saída das ingénuas do cinema mudo, Edward Norton como Inspector Henckels, para além das participações especiais dos habituées do cinema de Wes Anderson, tais como Owen Wilson e Bill Murray. 

 Apesar do destaque dos personagens secundários, onde mesmo com pouco tempo conseguem ter alguma dimensão e personalidade, quem mais sobressai é Ralph Fiennes e Tony Revolori. Fiennes pelo carisma que atribui ao seu personagem, um homem de bom coração, temperamental, dado a romances, mas também a envolver-se em confusões. Já Revolori é a maior surpresa do filme, um actor até aqui com pouco destaque nas lides cinematográficas que facilmente nos convence como este paquete que mais tarde irá possuir o Hotel. Wes Anderson cria assim um universo narrativo que não foge às suas obras, mas também procura recuperar uma certa finésse que nem sempre encontramos nas obras cinematográficas de hoje em dia, inspirando-se em Ernst Lubitsch embora não tenha o seu "toque", mas nem por isso deixa de ser um dos realizadores a ter em atenção. Por vezes ficamos com a sensação que o argumento não está à altura das imagens em movimento, embora a sua história seja bem amarrada e conte com bons diálogos, mas a atmosfera peculiar que este cria é algo de magnífico, deixando-nos perante um mundo muito próprio, onde a bizarria tem lugar. Anderson interessa-se pelos solitários, pelas gentes pouco comuns, não tem problemas em procurar o humor na desgraça (veja-se o pobre gato que é atirado da janela e encontramos esborrachado no solo) e até nos pequenos pormenores. Esses pormenores são visíveis também nas imagens em movimento, com o trabalho de fotografia a sobressair, existindo uma utilização paradigmática do campo e a espaços do fora de campo, com o ecrã a ser demasiado pequeno para aquilo que Wes Anderson nos pretende dar. Veja-se quando o jovem Zero bate num portão e posteriormente percebemos que a porta está no fora de campo, os movimentos de câmara certeiros, ao mesmo tempo que temos ainda o contexto político. Desde o início da II Guerra Mundial, passando pela Guerra Fria, "The Grand Budapest Hotel" deixa-nos perante alguns subtis elementos históricos que conspurcam a ficção, um pouco como em "The Great Dictator" onde estávamos perante o território ficcional de Tomainia. Wes Anderson citou ainda a influência de Ernst Lubitsch (algo relativamente evidente no caso de "To Be or Not to Be", até pelo contexto da II Guerra Mundial), mas nota-se também que este terá encontrado inspiração nas “comédias screwball” e em "Grand Hotel" de Edmund Goulding. 

No caso de "Grand Hotel" também tínhamos o espaço de um hotel luxuoso, marcado por gentes com personalidades distintas, interpretadas por um elenco de luxo, enquanto Goulding conseguia explorar os diferentes relacionamentos. Em "The Grand Budapest Hotel" não temos Greta Garbo, Joan Crawford, Lionel Barrymore e companhia, mas temos também um conjunto de actores com talento (nenhum tem a "aura divina" de Garbo), capazes de darem dimensão a estas figuras que povoam a narrativa. Apesar da história ser bem construída e agradável de acompanhar, é simplesmente notável o cuidado que Wes Anderson e a sua equipa colocaram nos elementos aparentemente acessórios mas ao mesmo tempo tão importantes. O hotel do título é um espaço no qual sentimos a noção da sua dimensão, do luxo que tinha nos seus tempos áureos, mas também de elementos que o tornam num espaço funcional e real, tais como o elevador, onde vão ser protagonizadas algumas cenas marcantes. Temos ainda os ascensores, o espaço do comboio, os cenários exteriores marcados pela neve, existindo um sentido de requinte notório. Podemos entrar por lados mais pragmáticos e dizer que tudo isto é algo artificial, algo que não deixa de ser verdade, mas essa noção dilui-se perante a forma como esta aparente artificialidade se integra e é utilizada ao serviço da narrativa. Esta é dividida em capítulos que se integram no interior de uma estrutura que serve os propósitos de Wes Anderson, que teve como base os escritos de Stefan Zweig. Entre inocências por provar, assassinos psicóticos, humor, romance, cor e ilusão, "The Grand Budapest Hotel" faz com que a República de Zubrowka faça parte do seu imaginário, deixando-nos a conhecer alguns dos seus habitantes e ao mesmo tempo a deixar tanto por dizer, criando um universo narrativo peculiar que tanto tem dos seus filmes. Os personagens a espaços parecem dirigir-se directamente para a câmara, os planos parecem meticulosamente arquitectados, a paleta cromática é utilizada de forma sagaz e a história tem uma peculiariedade muito própria das obras de Wes Anderson. Os limites para o sonho parecem impossíveis quando no grande ecrã se encontra uma obra como "The Grand Budapest Hotel", um filme que continua a colocar Wes Anderson como um dos realizadores dos EUA mais interessantes da actualidade.

Título original: "The Grand Budapest Hotel".
Realizador: Wes Anderson.
Argumento: Wes Anderson.
Elenco: Ralph Fiennes, F. Murray Abraham, Edward Norton, Mathieu Amalric, Saoirse Ronan, Adrien Brody, Willem Dafoe, Léa Seydoux, Jeff Goldblum, Jason Schwartzman, Jude Law, Tilda Swinton, Harvey Keitel, Tom Wilkinson, Bill Murray, Owen Wilson, Tony Revolori.  

Sem comentários: