29 abril 2014

Resenha Crítica: "Géographie Humaine"

 Figura de proa na secção "Herói Independente" da 11ª edição do IndieLisboa, Claire Simon traz-nos um documentário assaz interessante em "Géographie Humaine", onde procura conhecer e dar a conhecer os seres humanos que frequentam a Gare du Nord, em Paris, a estação de comboios mais movimentada da Europa e uma das mais movimentadas do Mundo. Simon dá-nos a conhecer o espaço e a estrutura arquitectónica da Gare du Nord, os comboios que partem e os que chegam, embora o interesse primordial esteja na parte humana deste espaço, naqueles que viajam nestes meios de transporte. Esta é uma estação que conta com destinos regionais, nacionais e internacionais, algo que dá uma faceta multicultural à mesma, quase apátrida, onde diferentes culturas, religiões, nacionalidades e personalidades se juntam neste lugar que ao mesmo tempo é um não-lugar, no qual muito acontece e várias histórias as suas gentes têm para contar. Enquanto Claire Simon anda com a câmara de filmar, Simon Mérabet, um amigo da cineasta, um actor de origem argelina residente no Sul de França, interpela as várias pessoas que andam pela Gare du Nord. É neste sentido que encontramos Simon a falar com um jovem casal logo no início do filme, mas também com uma sem-abrigo oriunda da Bretanha que viajou para Paris em busca de melhores condições de vida mas evita regressar a casa derrotada pelo destino. Temos ainda conversas com jovens que circulam pelo local, mas também um casal de homossexuais que troca carícias após a ausência habitual de uma semana de trabalho, para além de diálogos com trabalhadores da Gare du Nord, entre outros elementos. Veja-se o funcionário das limpezas oriundo do Mali que está em França há trinta anos mas não pretende nacionalidade francesa, desejando um dia regressar ao seu país natal, mas também uma argelina cujo prazo do visto de residência está prestes a terminar, tendo deixado a sua filha na terra natal. Várias são as histórias que nos são apresentadas, algumas terminadas abruptamente pela chegada do transporte com Claire Simon a encontrar alguma poesia neste último e rápido encontro com diferentes estranhos.

"Géographie Humaine" propõe-se assim a explorar as idiossincrasias entre as gentes que circulam pela Gare du Nord, ao mesmo tempo que rompe com a premissa inicial e logo abre espaço para a abertura de tópicos como a integração ou não dos estrangeiros em França, as dificuldades em conseguir emprego, a noção que um curso superior muitas das vezes não é o suficiente para encontrar um trabalho estimulante ou na área desejável (veja-se o segurança), a necessidade de emigrar para encontrar melhores condições de vidas noutros países, entre outras temáticas. Ficamos também perante as diferentes atitudes que cada elemento apresenta em relação à sua vida, aos diferentes propósitos de cada viagem (lazer, laboral, etc), mas também a uma certa ideia deste espaço da Gare du Nord como algo quase à parte do Mundo. Aqui homossexuais beijam-se sem que ninguém ligue, jovens falam de droga e sexo abertamente, um homem tira o seu tapete e reza virado para Meca, uma sem-abrigo encontra-se acompanhada pelo seu cão sem que muita gente dê pela sua presença, enquanto os seres humanos circulam velozmente por este espaço e poucos dão pela presença uns dos outros. Uns pagam o bilhete, outros entram à socapa, num constante fluxo de partidas e chegadas de seres humanos, com esta Gare du Nord a ser acima de tudo um local de passagem, embora também tenha algumas lojas e restaurantes para quem tem de se demorar um pouco mais. Claire Simon interessa-se também por estes espaços, desde o indivíduo que tem o seu próprio negócio mas ajuda a tia no restaurante de comida chinesa, passando pela vendedora de roupa interior, até à empregada da loja de bijuteria, interessando à cineasta conhecer e dar a conhecer estes seres humanos. "Géographie Humaine" pode ainda ser visto como um díptico com "Gare du Nord", uma obra realizada por Claire Simon, quase em simultâneo com a primeira, onde ficamos perante elementos entre a ficção e o documentário sobre esta estação de comboios. Entre partidas e chegadas de seres humanos, "Géographie Humaine" tem o mérito de nos fazer reflectir sobre este espaço da Gare du Nord como algo que transcende uma estação, mas sim um espaço onde confluem diferentes gentes anónimas que ganham voz neste interessante documentário realizado por Claire Simon.

Título original: "Géographie Humaine".
Realizadora: Claire Simon.
Argumento: Claire Simon.
Com: Simon Mérabet.

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