28 abril 2014

Resenha Crítica: "Centro Histórico"

 Histórias e memórias, sejam estas nacionais, regionais, pessoais, colectivas, reúnem-se ao longo de "Centro Histórico", uma das obras cinematográficas nacionais mais interessantes dos últimos anos, estreando finalmente em Portugal através do IndieLisboa que em boa hora nos trouxe este filme que integra no seu interior quatro curtas-metragens realizadas individualmente pelos portugueses Manoel de Oliveira e Pedro Costa, o finlandês Aki Kaurismäki e o espanhol Victor Erice. Quatro nomes bastante interessantes e relevantes do cinema contemporâneo, dois deles expoentes do melhor que tem o cinema português, que surgem reunidos através desta encomenda da Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, tendo em vista a mostrar ‘as histórias que a cidade tem para contar’. Cada cineasta conta com um estilo muito próprio na forma de abordar cada história, transgredindo muitas das vezes o espaço da cidade e rompendo barreiras temporais, algo desde logo visível no magnífico segmento realizado por Pedro Costa, "Sweet Exorcist", o segundo na ordem de "Centro Histórico", cuja acção principal desenrola-se maioritariamente num elevador onde se encontra Ventura (personagem que já participara em "Juventude em Marcha") e um soldado português. Ventura encontra-se em pijama, internado numa clínica, pouco falando, embora as suas memórias falem por si, encontrando-se acompanhado por um soldado português, enquanto somos colocados perante os fantasmas do passado que se repercutem no presente. O espaço do elevador torna-se pequeno, claustrofóbico, alvo de intensos sentimentos, enquanto ressurgem episódios da Guerra Colonial e do 25 de Abril de 1974, com as memórias reprimidas de Ventura e do militar a soltarem-se ao longo desta curta que João Lopes classificou na apresentação como aquele que é (até ao momento) o grande filme do Século XXI. Se a afirmação de João Lopes é discutível e até pode ser considerada exagerada, não deixa de ser latente que estamos perante uma obra sublime, intensa, com uma composição dos planos irrepreensível, com tudo a parecer pensado ao pormenor e a deixar-nos com o deleite de finalmente podermos ver em sala um novo filme de Pedro Costa. O cineasta inquieta-nos, transformando o elevador numa máquina do tempo, ou melhor, num território sem lugar e cronologia, que vagueia perante as encruzilhadas da memória e nos dá algo de marcante, mostrando que o cinema só fica a ganhar quando Pedro Costa realiza obras cinematográficas. 

Mas o maior mérito de "Centro Histórico" é contar ainda com mais três curtas de enorme realce. Embrenhemo-nos desde já no "nosso" Manoel de Oliveira, o realizador que melhor captura a actualidade de Guimarães em "Centro Histórico", dos monumentos da cidade e do centro histórico da mesma, enquanto apresenta uma mordacidade latente em "Conquistador Conquistado". Este é o quarto segmento mas nem por isso é menos relevante (se é que existe espaço para irrelevância em "Centro Histórico"), com o título do filme a mostrar como a luta pela independência de D.Afonso Henriques parece submetida ao fluxo de turistas, prontos a tirarem fotos à sua estátua, enquanto um guia turístico (interpretado por Ricardo Trêpa, "a musa" de Manoel de Oliveira) fala em inglês e renega a sua língua natal para melhor agradar aos seus clientes. Não falamos espanhol, mas falamos inglês, somos globalizados e na "cidade berço" mostramos que até não nos importamos de descurar a nossa cultura e nacionalidade, ao mesmo tempo que não devemos deixar de ter um enorme orgulho com os pedaços de História que Guimarães tem para nos contar, exacerbados pelo trabalho da câmara de Oliveira, capaz de nos expor alguma da riqueza deste território. Com menos humor, mas muito sentimento e delicadeza surge-nos "Vidros Partidos", a terceira curta, do basco Victor Erice. Este presta homenagem à indústria têxtil centenária de Guimarães, tendo como cenário uma fábrica de vidro inaugurada no século XIX e encerrada em 2002. O melhor que se pode dizer sobre o filme é que, mesmo ainda faltando uma curta, a sala Manoel de Oliveira irrompeu espontaneamente em palmas e mostrou o quanto "Vidros Partidos" é capaz de tocar os espectadores ao longo da sua duração. Somos apresentados a discursos de antigos trabalhadores, por vezes a parecerem algo ensaiados, que abordam temas como o trabalho no local, as suas memórias da fábrica, mas também uma cultura em mutação e ao mesmo tempo com tantas permanências entre o passado e o presente. Veja-se a mulher cuja mãe amamentava o rebento na fábrica quando este era bebé, com a primeira a repetir posteriormente o gesto com o seu filho, mas também uma mulher que não mais voltara a encontrar trabalho depois da falência da fábrica e a expor que a ideia do emprego para a vida toda é cada vez mais uma ideia do passado. 

"Vidros Partidos" remete-nos assim para os pequenos cacos de memórias destas gentes, muitas delas sem grandes estudos, fruto de outros tempos, tendo começado a trabalhar desde jovens e agora encontrando-se à deriva, enquanto se expõem perante a câmara de filmar. Nesse sentido, saímos tematicamente da fábrica e encontramos a abordagem de temas como o desemprego nas populações com idade acima dos cinquenta anos, o fim da ideia do emprego para toda a vida, mas também a concorrência de países asiáticos cujos trabalhadores ganham salários miseráveis, algo que não consegue ser acompanhado por países como Portugal. A curta dá espaço ainda a algum humor, com Victor Erice a optar por um estilo documental, enquanto nos deixa perante esta fábrica, hoje tendo a alcunha de "fábrica dos vidros partidos", o cenário primordial da narrativa, mas também a sua protagonista, ou não tivesse influenciado a vida daqueles que por lá trabalharam durante anos. Vale ainda a pena realçar um dos pontos altos de "Vidros Partidos", nomeadamente, quando foca uma fotografia dos trabalhadores de outrora que se encontra no refeitório do espaço da fábrica. É um hino ao poder da imagem, com os rostos sem sorrisos a sobressaírem, gentes sofridas, cujo trabalho não contava ainda com as leis laborais de hoje em dia, notando-se uma frieza arrepiante, ao mesmo tempo que somos deixados perante estes rostos enigmáticos. Poderoso momento, oriundo de uma simples foto, exposta por Victor Erice, enquanto este nos comove, faz rir e embrenha-nos na sua curta. Por fim, vale a pena destacar "O Tasqueiro" de Aki Kaurismäki, uma curta protagonizada por Ilkka Koivula, com este a dar vida ao dono de uma tasca pouco frequentada, algo rústica e pouco dada a clientelas sofisticadas. O protagonista é uma figura peculiar, dedicado ao seu local de trabalho, pronto a confeccionar a sopa embora acabe por não gostar da mesma e ir comer à concorrência (de quem procurou copiar sem grande sucesso a ementa), enquanto Aki Kaurismäki mescla alguma poesia e realismo na apresentação do quotidiano deste personagem. O acto de tirar o vinho tinto do barril e a ser servido numa taça surge com alguma poesia (a cor é bem utilizada pelo cineasta), enquanto somos deixados perante um estabelecimento típico, daqueles que hoje parecem afundar-se perante os restaurantes mais sofisticados, embora conservem um estilo e cultura muito próprios. 

Ficamos assim perante quatro curtas-metragens que muito nos dão e muito nos podem dar, que poderiam até ser expandidas para longas-metragens que não nos aborreceriam e certamente proporcionariam excelentes momentos de cinema. Numa fase em que se fala da crise do cinema português, sobretudo a nível de apoios, sejam estes públicos ou privados, não deixa de ser relevante vermos "Centro Histórico" estrear em Portugal no IndieLisboa e mostrar mais uma vez o talento de cineastas como Pedro Costa e Manoel de Oliveira. Em boa hora o quarteto de realizadores foi convidado para participar neste projecto que transcende muito as barreiras da cidade de Guimarães e da sua história, trazendo consigo quatro obras que remetem para realidades e temáticas mais latas. Veja-se desde logo a curta de Pedro Costa, mas também a de Victor Erice, existindo a certeza que o nosso cinema está bem vivo e recomenda-se, com esta encomenda no âmbito de "Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura" a mostrar que o cinema português e a nossa cultura podem e devem ser apoiados. No final, voltam a ecoar as palavras de João Lopes, um dos mais influentes e prestigiados críticos nacionais, sobre a relevância de "Sweet Exorcist". Pode ser exagero, mas o gosto de João Lopes para continuar a descobrir cinema deve ser realçado, bem como o apoiar publicamente de uma obra cinematográfica relevante, que poderia e deveria já ter estreado comercialmente, embora o imbróglio legal tarde a que "Centro Histórico" chegue onde deve estar: junto do seu público. Em "Centro Histórico", a história e a memória unem-se, as particularidades e generalidades mesclam-se, os sentimentos variam entre a comoção e o sorriso, surgindo a certeza de estarmos perante um dos grandes filmes da 11ª edição do IndieLisboa.

Título original: "Centro Histórico".
Realizadores: Aki Kaurismäki, Pedro Costa, Víctor Erice, Manoel de Oliveira.
Argumento: Aki Kaurismäki, Pedro Costa, Víctor Erice, Manoel de Oliveira.
Elenco: Judite Araújo, Maria Fátima Braga Lima, Marco Carreira, Arlindo Fernandes, Filomena Gigante, José Cruz, Ilkka Koivula, Amândio Martins, Henriqueta Oliveira, Rosa Gonçalves, Pedro Santos, Valdemar Santos, Manuel Silva, Kristine Strautane, Ricardo Trêpa, Ve.

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