24 abril 2014

Resenha Crítica: "Blind Detective" (Man tam)

 Embora seja raro termos filmes oriundos do continente asiático nas salas de cinema portuguesas (sobretudo se compararmos com os filmes made in EUA e europeus), é de salutar quando festivais de cinema como o IndieLisboa dão alguma atenção aos mesmos. Nesse sentido, a exibição de "Blind Detective", uma obra realizada por Johnnie To e estreada na edição de 2013 do Festival de Cannes, é de salutar, embora estejamos perante um filme onde o cineasta nem sempre consegue conjugar na justa medida todos os diferentes géneros que pretende incluir na narrativa, mesclando elementos de investigação, humor, romance, acção, policial, tudo reunido no interior de um argumento frágil que tem nas interpretações de Andy Lau e Sammi Cheng um factor decisivo para tirar a película da mediocridade. Lau interpreta Chong Si-teun, também conhecido como Johnston, um antigo polícia, agora detective privado, que ficou cego devido a um deslocamento da retina. Este conta com uma enorme habilidade para a investigação, algo paradigmaticamente representado nos momentos iniciais do filme, quando descobre a identidade do indivíduo que se encontrava a atirar garrafas de ácido sulfúrico para a zona de pedestres. Johnston efectua estas investigações devido às recompensas recebidas, o seu ganha pão, daí este aceitar a oferta de Ho Ka Tung (Cheng), uma polícia que conhece durante a captura do criminoso, para encontrar Minnie, uma amiga que se encontra desaparecida há vários anos. Minnie tem um passado problemático, com a sua mãe a ter assassinado o pai após descobrir que este tinha uma amante, tendo sido presa e cometido suicídio na prisão, sendo que a avó da conhecida de Ho Ka Tung, que cuidara da primeira durante a infância, também acaba presa devido a ter eliminado o namorado, um homem casado que se recusou a divorciar. Johnston tem a perícia que esta não tem, enquanto Ho Ka Tung tem a visão, com o primeiro a pedir um milhão de dólares e ainda a dar alguns ensinamentos a esta mulher, enquanto também procura descobrir o assassino do caso da morgue, onde dois elementos terão sido assassinados. O filme concentra-se assim entre estas duas investigações, explorando o poder de dedução do protagonista e a sua dinâmica com a companheira, enquanto estes se envolvem pelos territórios citadinos de Hong Kong, Macau, encontram pistas, alguns contratempos e aos poucos formam uma forte ligação. Johnston inicialmente até está interessado na mulher dos seus sonhos, mas é Tung quem o parece completar da melhor forma ao longo desta narrativa algo anárquica, onde Johnnie To parece perder completamente o rumo na sua segunda metade.

 Johnnie To já nos tinha oferecido obras que primavam pela anarquia, tais como "The Heroic Trio", onde a sua história raramente fazia sentido mas mantinha-se algo fiel a um rumo estabelecido desde o início. Em "Blind Detective", To não parece saber bem o que pretende fazer, acabando muitas das vezes por retirar alguma da força dos momentos mais relevantes da narrativa, tais como a investigação sobre o paradeiro de Minnie que gradualmente vai perdendo o interesse. Não ajuda "Blind Detective" querer ser simultaneamente um romance, drama, comédia, acção, revelando-se uma salganhada algo desgarrada que acaba por sair da mediocridade devido à sua dupla de protagonistas, com Andy Lau a repetir a parceria com Johnnie To, após terem colaborado em obras como "Casino Riders II" e "Running Out of Time". Lau interpreta um detective cego, remetendo para heróis como Zatoichi ou até o protagonista de "The Cat o'Nine Tales" de Dario Argento, tendo outras qualidades apuradas, entre as quais conseguir criar na sua mente a aparente resolução dos casos, conseguindo ler as pessoas como poucas, embora não as consiga ver, com o actor a dar uma enorme credibilidade ao personagem. Seja a parecer um detective perspicaz, seja a fazer as caras mais estranhas ou a envolver-se nos momentos mais surreais, Andy Lau sobressai pela positiva e compensa o argumento pueril que lhe foi dado. Essa puerilidade é visível nas cenas supostamente mais tensas, onde Johnnie To por vezes procura o humor e falha em ambos os campos, tendo na dinâmica entre Lau e Sammi Cheng um dos pontos fortes do filme. Johnston está longe do pragmatismo de um Philip Marlowe, Sam Spade ou Jake Gettis, tendo nos casos aparentemente esquecidos uma forma de ganhar a vida e em Ho Ka Tung uma simpática companheira. Sammi Cheng encarna com vigor esta polícia meio atrapalhada, disposta a tudo para encontrar Minnie, mas também a conquistar o protagonista. Vale ainda a pena realçar Tao Guo como Szeto, um antigo colega de Johnston na polícia, com quem este último mantém uma estranha relação de amizade, embora "Blind Detective" pouco desenvolva os personagens para além da dupla de protagonistas. Johnnie To explora bem a química do casal de protagonistas (no caso de uma sequela até poderíamos ter uma dinâmica "à Nick e Norah" da saga "The Thin Man"), beneficia de um assertivo trabalho de fotografia, mas espalha-se num argumento pouco elaborado, alguns momentos demasiadamente caricaturais e várias incoerências, que fazem "Blind Detective" tropeçar demasiadas vezes, embora até cumpra no quesito de entreter minimamente ao longo da sua duração.

Título original: "Man tam".
Título em inglês: "Blind Detective".
Realizador: Johnnie To.
Argumento: Wai Ka-Fai, Yau Nai-Hoi, Ryker Chan, Yu Xi.
Elenco: Andy Lau, Sammi Cheng, Guo Tao, Gao Yuanyuan.

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