20 abril 2014

8 1/2 Festa do Cinema Italiano - Entrevista a Vittorio Storaro

 Com três Oscars no currículo, uma relação profissional profícua com Bernardo Bertolucci, a direcção de fotografia de obras como "L'uccello dalle piume di cristallo", "Apocalypse Now", "Reds", "Dick Tracy", entre muitas outras, Vittorio Storaro esteve em Portugal no âmbito da sétima edição do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano para apresentar a versão em 3D de "O Último Imperador" e conduzir uma masterclass onde foi apresentado o seu último livro, "The Art of Cinematography" (Abril, 2014), uma releitura da "sétima arte" através dos olhos dos cineastas mais importantes. Aproveitando a presença de Vittorio Storaro em Portugal, eu (Aníbal Santiago) e Roni Nunes (do C7nema) entrevistámos este prestigiado director de fotografia, com este a mostrar ser um grande comunicador, tendo deixado a sensação de que a entrevista poderia ter durado uma tarde e mesmo assim muito ficaria por perguntar. Essas longas e informativas respostas começaram desde logo quando este foi questionado sobre a polémica em relação ao Oscar de Melhor Fotografia atribuído a "A Vida de Pi" (tendo sido citado Christopher Doyle, que comentou a vitória do filme de Ang Lee da seguinte forma: "I think it’s a fucking insult to cinematography") e a "Gravidade": "A culpa também é nossa, dos cinematographers (para Vittorio Storaro a designação director de fotografia está incorrecta, algo explicado mais à frente). Quem vota inicialmente para os nomeados em cada categoria são os profissionais da respectiva área. Não é alguém que não sabe de cinematografia. Eu não votei no 'A Vida de Pi' e no 'Gravidade', e fiquei muito surpreendido por estas nomeações. O mesmo aconteceu com o prémio atribuído ao Mario Fiore pela cinematografia do 'Avatar' quando este não fez quase nada. É um escândalo. A beleza do 'Avatar' foi elaborada pelo ilustrador e não pelo trabalho de Mario Fiore que teve um papel muito reduzido. Foi elaborado a computador, pode ser acompanhado pelo cinematographer mas o trabalho maior é do ilustrador. Se os profissionais da área votam num filme como 'Avatar' como melhor cinematografia, depois deste estar nomeado os votos passam a estar abertos para todos os membros da Academia e aí existe pouco a fazer, visto que muitas das vezes quem vota não sabe o que foi feito ou não pelo Mario Fiore. Sabem que é algo de belo, votam, mas muitos não têm noção do que foi feito pelo realizador, ilustrador, cinematographer, art director, entre outros. Portanto, a culpa é nossa. O Christopher Doyle tem razão, mas não contou a verdade toda".

Vittorio Storaro aproveitou ainda para dar o exemplo do seu trabalho em "Dick Tracy": No 'Dick Tracy' fui eu que sugeri ao Warren Beatty aproveitar os desenhos que tinham a ver com as pinturas do expressionismo alemão para dar o tom à cinematografia do filme. Eu dei esta ideia e a partir daqui foram efectuados os figurinos. Richard Sylbert, o production designer, não achou muita piada à ideia, porque queria um filme com cores mais esbatidas, mais monocromático. Eu tinha uma ideia de contraste de cores, sendo que o Warren Beatty, o produtor, realizador e protagonista, deu-me razão e decidiu acompanhar esta ideia. Colaborei com a Disney no filme, mas era eu que ia ter com eles para acompanhar e dizer como devia ser feito, tendo dado um guião para seguirem. Era eu o responsável". Longe de ser um filme consensual, "Dick Tracy" sobressaiu e muito pelo seu magnífico trabalho de fotografia, tal como sobressairia um dos grandes filmes de Francis Ford Coppola e da História do Cinema, "Apocalypse Now". Vittorio Storaro salientou que aceitou a proposta de Coppola quando o cineasta lhe disse que "este não era um filme sobre a guerra mas sim sobre a civilização, tendo sugerido que eu lesse o livro 'Heart of Darkness' de Joseph Conrad. Existia a ideia de colocar o cerne da questão numa civilização que se vai sobrepor a outra. Eu não queria fazer um filme de guerra, mas 'Apocalypse Now' é um filme com um tema e importância universal. Esse conflito civilizacional iria traduzir-se num trabalho de sobreposição da luz artificial com a luz natural. É muito importante quando se tem uma ideia e vontade de transmitir a mesma. O que é fundamental é a ideia, tem sempre que se ter uma ideia. Sem uma ideia do que fazer são apenas umas luzes, uns objectos colocados em alguns locais, alguns planos. Portanto, encontrei-me perante um filme longo, longe, complicado de filmar, mas ao mesmo tempo maravilhoso". Storaro comentou ainda que "Quando o filme foi apresentado no Festival de Cannes (1979), a montagem ainda não estava completamente terminada, sendo que o Francis Ford Coppola sentiu posteriormente a necessidade de modificar o final. Foi elaborada uma versão que Francis Ford Coppola sentia ser a única possível para conseguir ser distribuída naquele momento histórico. Existiu aqui uma noção de Coppola de que o filme estava a ficar demasiado longo e começou a cortar, visto que existia um objectivo. Esta versão era vista como a única maneira do filme poder ser compreendido na época".

No entanto, e como é do conhecimento geral, Coppola lançou posteriormente a versão "Apocalypse Now Redux", algo que Vittorio Storaro fez questão de comentar: "Dezassete anos depois, uma companhia francesa pediu a Coppola uma versão mais longa do filme, uma "director's cut", que permitisse expor a ideia original do cineasta. Portanto, o Coppola voltou a chamar Walter Murch, que na versão original tinha efectuado a montagem do som e não das imagens, e retomou este projecto. Foram acrescentados mais de 54 minutos de imagens em movimento, sendo que existiu ainda uma ideia de Vittorio Storaro de imprimir a cor original do filme. E talvez ainda não tenha terminado e um dia surja uma versão Redux, Redux". Apesar de toda a simpatia e disponibilidade em responder às questões sobre os seus trabalhos, Vittorio Storaro encontrou-se em Portugal para apresentar "O Último Imperador" em 3D, tendo-se mostrado algo curioso em relação ao resultado final, visto que ainda não tinha visto esta nova versão do filme. Storaro salientou que "após o grande sucesso do 'Avatar' existiu uma grande necessidade dos distribuidores cinematográficos em mudarem os projectores para videoprojectores. Esta situação mudou de forma radical a distribuição em todo o Mundo. É uma perda mas cada vez menos se reproduzem os filmes em película, sendo a maioria exibido em digital. Veja-se que até a Kodac já faliu. Os projectores que reproduzem os filmes em película estão a transformar-se cada vez mais em objectos de museu. Hoje tudo acontece com máquinas digitais, exibe-se os filmes em DCP. Com o sucesso do 3D, tudo parecia que tinha de ser exibido neste formato, embora este tenha decaído. Temos filmes de animação neste formato e alguns filmes que mais parecem videojogos, sendo que parece ter existido uma necessidade de recuperar os clássicos. A tecnologia foi ao encontro desta necessidade, a partir do filme original para extrair a terceira dimensão. Não se trata de um verdadeiro 3D, dá é esta ideia de estereoscopia".

Vittorio Storaro nem pouco mais ou menos se revelou avesso em relação a estas conversões, considerando que "Esta situação dá aos distribuidores a oportunidade de voltar a propor ao público obras como "Star Wars", "O Último Imperador", transformando a nova exibição destes filmes em eventos. Existiu uma oportunidade de voltar a apresentar um grande filme em 3D. Eu segui a primeira parte da extracção da imagem, mas não segui o momento em que combinaram tudo, visto que estava a trabalhar no Irão. Estou com curiosidade em ver o resultado final, pois estamos perante um bom filme. Esta versão já esteve no Festival de Cannes, onde teve uma recepção muito boa. O filme está a voltar a ganhar dinheiro". "O Último Imperador" foi uma das várias obras onde Vittorio Storaro colaborou com Bernardo Bertolucci, um cineasta que conheceu "em 1963, quando eu era um assistente de operador e Bertolucci estava no seu segundo filme como realizador, o 'Prima della Rivoluzione'. O que me fascinou no Bernardo Bertolucci foi a sua grande vontade e determinação em escrever as histórias com a câmara de filmar. Vários anos se passaram e o Bernardo ligou-me para trabalhar na cinematografia do seu novo filme, após ele ter estado algum tempo parado. Ele recordava-se do meu comportamento como operador em 'Prima della Rivoluzione', tendo dito que eu sabia o que estava a fazer e via-se que estava a trabalhar com amor. Chamou-me para um pequeno trabalho chamado 'Strategia del ragno' e existiu logo ali uma grande harmonia entre nós, porque o Bertolucci trabalhava por um lado dizendo as coisas e por outra sugerindo, quase de uma forma inconsciente. Portanto existiu aqui uma sobreposição do mesmo caminho, onde o consciente era a luz e o inconsciente as sombras, sendo que a estrada a percorrer era longa. O filme foi baseado num conto de José Luís Borges, tendo como protagonista um traidor que se propõe como um herói, transformando-se quase num símbolo na luta contra o fascismo. Eu sugeri que não interessava o rosto desta pessoa, do protagonista, mas sim a sua silhueta. O Bertolucci achou esta ideia fantástica, tendo nascido aqui uma grande empatia profissional".

Não foi apenas com Bernardo Bertolucci e Francis Ford Coppola que Vittorio Storaro trabalhou. Aproveitando o facto de Storaro ter trabalhado na cinematografia de "L'uccello dalle piume di cristallo", um giallo realizado por Dario Argento, e a retrospectiva a Mario Bava, um mestre do giallo, tentámos descobrir se existiu alguma influência das obras deste último, algo que foi prontamente negado: "Não. O Mario Bava na época não era considerado de classe. Hoje tem sido justamente alvo de uma reavaliação. Eu pessoalmente não. O Dario Argento foi um pouco influenciado pelo Alfred Hitchcock. No entanto, nós continuamos a levar connosco o que já foi feito, mesmo não pensando propositadamente nisso. De forma consciente, não foi uma inspiração". Fora do trabalho na cinematografia, Vittorio Storaro lançou o livro "The Art of Cinematography" na Masterclass conduzida na sétima edição do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano. Este salientou que a ideia para este trabalho nasceu "durante as filmagens de 'The Life of Mohamed' de Majid Majidi. Eu senti esta exigência que resulta quase como uma homenagem e agradecimento a quem me precedeu, senti-me abençoado por esta carreira. Este filme aconteceu durante uma altura especial. Enquanto em Itália se encontram a fazer comédias e filmes de ficção de menor orçamento, eu com esta idade trabalhei recentemente num filme épico, espiritual e grandioso, é algo de fantástico. Foi uma forma de agradecer aos realizadores, mas também aos cinematógrafos que me precederam e ajudaram a chegar onde cheguei. Tanto que o título do livro é a "arte da cinematografia". A palavra arte surge com o significado do meio para uma pessoa se exprimir. Existiu também uma vontade de sublinhar o termo e o significado de cinematografia, a expressão utilizada sobre a profissão que exerço. Geralmente utiliza-se a expressão 'fotografia do filme', mas esta palavra por si só não é suficiente. Não é só fotografia. Esta é uma palavra oriunda de um termo grego que significa escrever com a luz. A arte da fotografia é exercida pelo fotógrafo. Daí chamar-se photography e photographer. Aqui estamos perante imagens em movimento ao longo do tempo, portanto, cinematografia. Assim, a expressão é cinematography ou cinematographer. Na língua italiana existe a cinematografia e o cinematógrafo (habitualmente e erroneamente chamado de director de fotografia). 

Storaro acrescenta ainda que "A expressão director de fotografia foi inventada erroneamente pelos americanos em 1949. Veja-se que a associação criada em 1919 chama-se American Society of Cinematography. Quando se criou a associação de realizadores (directors), os cinematographers quiseram também ficar com essa expressão, no caso, director de fotografia. Foi um grande erro. Tal como na orquestra existe um maestro a conduzir, no cinema existe um único director/realizador. O segundo erro é que a fotografia é uma expressão singular, é de uma única pessoa, enquanto a cinematografia é algo de comum/plural. Por isso, para além de ser um agradecimento a quem exerceu esta profissão, este livro serve também para reforçar o significado destas expressões. Alterar estes hábitos vai ser muito difícil e vai demorar muito tempo". E foi assim que terminou a entrevista a Valerio Storaro, com muitas questões a ficarem pelo caminho devido a este nome respeitável da História do Cinema já contar com compromissos assumidos, mas a enorme certeza que foi uma grande honra poder entrevistar um profissional deste calibre. Diga-se que a entrevista beneficia imenso não só da qualidade do entrevistado, mas acima de tudo pela sua disponibilidade deste em responder às questões colocadas. 

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