24 março 2014

Resenha Crítica: "Three Days of the Condor" (1975)

 Thriller intrigante que traduz na perfeição o clima de paranóia após a descoberta do caso Watergate, "Three Days of the Condor" deixa-nos perante um enredo intrigante e inquietante centrado em Joe Turner (Robert Redford), um investigador da CIA de baixo escalão que de um momento para o outro é alvo de uma conspiração interna, que promete ter repercussões internacionais. Turner é um indivíduo inteligente, culto e aparentemente calmo, que utiliza referências literárias para ligar com os crimes que investiga, tendo como nome de código: "Condor". Quando chega ao seu local de trabalho, Turner encontra os colegas mortos, tendo sido eliminados pelos homens de Joubert (Max von Sydow), um indivíduo misterioso, que aos poucos vai revelando as suas intenções. Turner, tal como nós, pouco sabe sobre o que se está a passar, ligando para os seus superiores, mas acabando por ser alvo de uma emboscada que resulta na morte de Sam Barber (Walter McGinn), um amigo seu. É então que este percebe definitivamente que a investigação envolve agentes da CIA, que se encontram numa conspiração interna, tendo eliminado os colegas numa acção que visava o cumprimento de uma agenda muito própria. Durante a fuga, Turner rapta a bela Kathy Hale (Faye Dunaway), uma fotógrafa que encontra aleatoriamente numa loja de produtos de esqui, com quem mantém uma relação problemática, embora esta até acabe por se deixar gradualmente convencer pelo protagonista. A relação entre os dois é complexa, mas intensa e convincente, tal como o caso onde se encontra envolvido o protagonista, que aos poucos consegue contactar pessoalmente com os perseguidores, envolvendo-se num jogo de intrigas perigoso, onde as descobertas são surpreendentes e Sydney Pollack revela-se exímio na capacidade de nos intrigar e inquietar para a história. Os escritórios da CIA e alguns dos elementos da agência de segurança representam a dissimulação e o perigo, o protagonista tem a sua vida ameaçada, enquanto o enredo avança de forma fluída e tem o mérito de nos fazer questionar sobre o quão real esta história poderia ser. Não faltam agentes com agendas duplas (veja-se o caso de Higgins, um indivíduo que contacta várias vezes o protagonista), uma conspiração pelo controlo de algo que ainda está bastante ligado a confrontos nos dias de hoje, mas também uma crença no papel da imprensa, uma situação que remete paradigmaticamente a história para o período pós-Watergate, onde Carl Bernstein e Bob Woodward fizeram história e conseguiram expor a relevância do trabalho dos jornalistas.

"Three Days of the Condor" entronca em filmes pós-Watergate como "All The President's Men" (1976, de Alan J. Pakula), explorando o clima de paranóia em relação às autoridades, sejam estas as agências secretas ou entidades políticas, ao mesmo tempo que nos deixam perante investigações inquietantes. Curiosamente, quer "Three Days of the Condor", quer "All the President's Men" contam com Robert Redford como protagonista, com o actor a surgir sublime em ambas as obras. No caso deste thriller realizado por Sydney Pollack, com quem Redford colaborou em várias obras (tais como o subestimado "Havana"), o actor é essencial para agarrar a narrativa e dar vida ao bom argumento de Lorenzo Semple Jr. e David Rayfiel (com base no livro "Six Days of the Condor" de James Grady), dando uma notória credibilidade ao personagem que interpreta, sendo fulcral para que nunca duvidemos da sua inocência, de que aceitemos que Kathy realmente acredita no protagonista e de que este não tem mesmo experiência em trabalho de campo. Pollack coloca o seu protagonista por várias zonas de Nova Iorque, deixa-o em perigo, quer a fugir de um inimigo que não conhece, quer de Joubert, quer de outros elementos que vão surgindo pela narrativa, ao mesmo tempo que cria uma intriga que realmente nos consegue prender, tudo com uma certa contenção e verismo. Não são os tiroteios loucos ou as cenas de acção espalhafatosas que interessam a Sydney Pollack, mas sim uma procura de manter a narrativa próxima do que poderia acontecer na realidade, jogando também com a própria atmosfera de paranóia que se vivia na época, resultando num filme que ainda continua relevante nos dias de hoje (a desconfiança em relação às agências de segurança continua na ordem do dia). Pollack conta ainda com um elenco secundário que se revela um luxo. Faye Dunaway surge não só belíssima, mas também eficaz a interpretar esta fotógrafa que é raptada, embora gradualmente estabeleça uma relação de proximidade com o protagonista, percebendo, tal como nós, que este não é uma figura de má índole, para além de um magnífico Max Von Sydow como Joubert, o assassino de serviço. Os actores contribuem para o enredo nos convencer, mas também o argumento e sobretudo a realização sóbria de Sydney Pollack, culminando num final sóbrio, revelador de tudo que funciona tão bem neste thriller inquietante, onde o cineasta e Robert Redford exibem mais uma vez os bons frutos das suas parcerias.  

Título original: "Three Days of the Condor".
Título em Portugal: "Os Três Dias do Condor".
Realizador: Sydney Pollack.
Argumento: Lorenzo Semple Jr. e David Rayfiel.
Elenco: Robert Redford, Faye Dunaway, Cliff Robertson, Max von Sydow.

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