26 março 2014

Resenha Crítica: "Rosinha" (Rózyczka)

Ao terminarmos de ver "Rózyczka", uma longa-metragem realizada por Jan Kidawa-Blonski e lançada originalmente em 2010, é fácil identificarmos a história da sua protagonista com a de Mata Hari, ou não estivéssemos também perante uma espia sensual, que utiliza o seu corpo para conseguir informações. Greta Garbo outrora dera vida a Mata Hari, embora o seu final fosse bem mais trágico do que esta espia interpretada de forma muito convincente pela bela e felina Magdalena Boczarska. Esta interpreta Kamila Sakowicz, uma estenógrafa que tem um relacionamento amoroso com Roman Rożek (Robert Więckiewicz), um coronel dos serviços secretos da Polónia. Este esconde inicialmente a profissão de Kamila, mas quando sabe que esta conhece o escritor e professor universitário de literatura Adam Warczewski (Andrzej Seweryn), logo revela a sua profissão e procura convencer a sua cara metade a envolver-se com o intelectual. A razão é simples: os serviços secretos acreditam que Adam é um contra revolucionário sionista, um judeu chamado Wajner, que supostamente esconde a sua verdadeira identidade e escreve para a Rádio Europa Livre, considerada anti-regime. Diga-se que este personagem é livremente inspirado em Paweł Jasienica, um historiador e jornalista polaco, conhecido pelas suas críticas contra a censura, que foi casado com uma agente comunista disfarçada que procurava encontrar informações sobre a sua pessoa. Kamila reluta inicialmente e nem parece muito interessada nas questões de espionagem, mas acaba por aceitar participar na missão, escolhendo o nome de código "Rosinha" (fazendo justiça ao gosto desta por rosas vermelhas), tendo de descobrir as actividades de Adam e o seu círculo de amigos. Adam tem uma filha pequena, sendo um intelectual refinado que aos poucos começa a interessar-se por Kamila. Esta é uma mulher sensual, interessada na cultura, bela, aparentemente frágil, que aos poucos encontra em Adam uma pessoa cuja companhia lhe agrada, um homem culto, viúvo, de ideias fortes, de fino trato, distinto da rudeza de Roman. Estas dicotomias comportamentais entre Roman e Adam ficam ainda melhor expostas nas cenas de sexo com Kamila, com o primeiro a apresentar uma brutalidade e frieza latente, enquanto o segundo apresenta um cuidado e romantismo. 
Até a filha de Adam começa a gostar de Kamila, com esta última aos poucos a começar a apreciar esta família, enquanto os ciúmes de Roman e o intuito inicial de "Rosinha" prometam trazer graves problemas a esta mulher, ou não estivéssemos na Polónia de 1967 e 1968, em plena convulsão e pronta a mostrar pouca parcimónia para com aqueles que tenham ideias contrárias ao seu regime político. Essa violência contra aqueles que poderiam representar uma ameaça aos ideais comunistas fica paradigmaticamente representada no último terço, com o protesto de Março de 1968 (baseado num episódio real), protagonizado por alunos e intelectuais, que culminou numa forte repressão por parte das autoridades polacas. O contexto histórico não se fica pelos momentos deste último terço, veja-se desde logo as imagens de arquivo relacionadas com a Guerra dos Seis Dias, um conflito armado que opôs Israel a uma frente de países árabes (Egipto, Jordânia e Síria), apoiados pelo Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Argélia e Sudão, mas também pela União Soviética, tendo resultado numa vitória israelita (e contribuído para um sentimento anti-judeu expresso no filme). Por sua vez, na então Checoslováquia assistíamos à Primavera de Praga, iniciada a 5 de Janeiro de 1968 (até 21 de Agosto do mesmo ano), cujas reformas não agradaram à União Soviética, algo que explica o clima de repressão apresentado no filme, com os protestos a serem desde logo reprimidos de forma a evitar novas iniciativas do género. "Rosinha" transporta-nos assim para uma intrigante história de espionagem, onde uma mulher sedutora se deixa seduzir pelo seu alvo, percebendo que este é uma figura muito mais complexa do que inicialmente lhe fora apresentada pelo seu namorado. A intolerância e anti-semitismo estavam ao rubro no território, bem como as medidas de repressão aos críticos do regime comunista polaco, cujos ideais estavam longe de serem democráticos nesta fervilhante Polónia do final dos anos 60 que nos é apresentada. Existe algum cuidado de Jan Kidawa-Blonski em nos estabelecer o contexto histórico desta história de espionagem e de desenvolvimento dos personagens, sobretudo desta espia interpretada por Magdalena Boczarska. A actriz convence como Kamila, sendo notória a evolução da personagem ao longo do filme, começando a perceber a diferença entre a realidade e a propaganda que lhe é passada, enquanto gradualmente entra numa encruzilhada sentimental, ao começar a nutrir sentimentos afectuosos por Adam, um indivíduo que aos poucos conquista a sua confiança. 

 Com uma postura calma, serena, capaz de expor a cultura acima da média do seu personagem, Andrzej Seweryn é outro dos elementos que se destaca, estabelecendo uma relação de afectos com Kamila, integrando-a junto da sua família e círculo de amigos, distinta da brutalidade do personagem interpretado por Robert Więckiewicz, com este último a ficar um pouco com o lugar comum do indivíduo rude e pouco dado a romantismos. Essa brutalidade de Roman fica visível quando num clube nocturno chamam a sua namorada de prostituta, mas também quando esmurra Kamila, mostrando estar disposto a tudo para incriminar Adam. Nem é só o incriminar que Roman pretende, com o ciúme a falar muitas das vezes mais alto, perseguindo um personagem por razões pouco recomendáveis, num período complexo deste território polaco. Jan Kidawa-Blonski explora a complexidade destes relacionamentos, aumenta gradualmente a tensão em volta dos mesmos, ao mesmo tempo que não descura o contexto intrincado que os engloba. O contexto é conturbado, visível nos exemplos já sugeridos ao longo do texto, mas também quando o Governo polaco trava uma simples peça de teatro que adapta "Dziady" de Adam Bernard Mickiewicz devido a suposta propaganda anti-soviética, com o filme a dar-nos posteriormente números sonoros dos elementos que tiveram de abandonar o país devido a esta repressão das ideias e ideais. No epicentro de tudo está "Rosinha" mulher de beleza notória, enquanto o filme não tem problemas em abordar questões ligadas com o anti-semitismo, mesclando imagens de arquivo, nesta obra livremente inspirada em episódios reais. Jan Kidawa-Blonski nem sempre opta pela subtileza para abordar as temáticas, mas consegue desenvolvê-las de forma eficaz, explorando pelo meio o melodrama que envolve os seus personagens. Filme de espionagem marcado por uma personagem feminina forte, "Rosinha" conta com um argumento globalmente positivo, um trabalho de fotografia eficaz e um realização que não compromete, revelando-se uma das boas opções da segunda edição da Judaica - Mostra de Cinema e Cultura.

Título original: "Rózyczka"
Título em inglês: "Little Rose".
Título em Portugal: "Rosinha".
Realizador: Jan Kidawa-Blonski.
Argumento:  Maciej Karpiński e Jan Kidawa-Błoński.
Elenco: Magdalena Boczarska, Andrzej Seweryn, Robert Więckiewicz.

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