22 março 2014

Resenha Crítica: "Pépé le Moko" (1937)

 Pelas ruas labirínticas da casbah de Argel, Pépé le Moko (Jean Gabin) ludibria as autoridades francesas, desaparece sem deixar rasto, sendo um protegido no submundo do crime, amado por Inès (Line Noro) e enamorado por Gaby (Mireille Balin), que não tem problemas em eliminar um inimigo de forma fria e ajudar um amigo. Nos momentos iniciais de "Pépé le Moko", uma das obras marcantes realizadas por Julien Duvivier, encontramos as autoridades francesas a planearem a captura deste criminoso que conta com quinze condenações, trinta e três roubos de dia, dois assaltos a bancos, encontrando-se escondido numa área projectada para dez mil pessoas, mas habitada por quarenta mil. Esta área é labiríntica, recheada de lugares escuros, ruas estreitas e esconderijos, de gentes de várias nações e comportamentos, sendo apresentada nos momentos iniciais pelos elementos da polícia, com Julien Duvivier a tomar o acto inteligente e didáctico de nos expor as características deste território argelino. É neste local que encontramos Pépé le Moko e o seu gangue, lidando ainda de perto com Slimane (Lucas Gridoux), um agente argelino matreiro que o pretende prender, embora se fique temporariamente pelas ameaças, esperando pelo momento ideal. A acção da polícia na casbah de Argel surge visível logo no primeiro terço da narrativa, com Régis, um elemento traiçoeiro, a conseguir a informação de que Pépé e os integrantes do gang se encontram na casa do "avô", embora os planos saiam gorados. O "avô" faz parte do grupo, bem como Pierrot (Gilbert Gil), um elemento que Pépé trata como se fosse o seu irmão, algo que conduz Régis a traçar um plano para atrair o personagem interpretado por Gilbert Gil para fora de casbah e assim fazer com que o protagonista também saia do espaço. Pierre acaba morto, bem como Régis, enquanto Pépé suspira por Gaby. Esta é uma mulher sensual, fatal, arranjada, que faz o protagonista recordar-se de Paris e promete levá-lo à perdição, ao mesmo tempo que Inès desespera perante a falta de atenção do amado. Julien Duvivier apresenta-nos a um filme que pode ser considerado como antecessor dos filmes noir, remetendo para o realismo poético francês, um "movimento" (ou tendência) cujas obras por vezes são protagonizadas por elementos à margem da sociedade, apresentando uma visão algo fatalista e pessimista da vida (associado ao complicado contexto histórico).

"Pépé le Moko" coloca-nos exactamente perante populações das margens, numa então colónia da França, povoada por distintas gentes, ao longo de uma história centrada num grupo de criminosos, em particular no personagem do título, interpretado de forma sublime por Jean Gabin, compelindo-nos a sentirmos alguma afinidade por este anti-herói. Diga-se que Julien Duvivier é certeiro na exploração do elenco, dando espaço a vários actores e actrizes secundários para sobressaírem, criando uma teia narrativa coesa, onde nos apresenta um conjunto de personagens interessantes de acompanhar, com personalidades bem definidas e vincadas. Veja-se desde logo Inès, uma cigana que ama o protagonista mas é rejeitada por este; Carlos, um elemento algo rude e intempestivo do gang; o traiçoeiro Slimane; o ingénuo Pierre, entre muitos outros que fazem sobressair a qualidade do argumento desta obra que tem como pano de fundo um claustrofóbico território argelino. O território da casbah de Argel é cenário e personagem de "Pépé le Moko", com as suas características a serem-nos apresentadas desde o início e a serem exploradas ao longo da narrativa, visível quando encontramos Pépé em fuga pelos terraços que ligam os diferentes prédios, ou quando este decide partir da casbah, mas também na forma como encontramos as suas ruas sempre muito povoadas. Este excesso de população não implica que o protagonista se apaixone pelo território, bem pelo contrário, com este a desejar sair dali para a fora, a sonhar com o regresso para Paris, embora o seu passado e presente como criminoso impeçam o seu desejo. Este muitas das vezes surge coberto pelas sombras, com "Pépé le Moko" a contar com uma magnífica utilização da iluminação, permeando a narrativa de algum simbolismo e um trabalho de câmara de meter respeito, remetendo também aqui para os noir, sobretudo num dos momentos finais, quando vemos o protagonista agarrado a uma porta com grades, simbolizando a sua prisão, enquanto vê a uma enorme distância a sua femme fatale. Ela é bela e muito sensual, existindo um certo erotismo na sua representação, fazendo o protagonista cantar e sofrer, mas também cair em desgraça, ainda que nem sempre Gabi seja a principal culpada. Entre sonhos de partidas impossíveis e amores improváveis, mortes sentidas e acontecimentos esperados mas não ansiados, "Pépé le Moko" deixa-nos perante um gangster dado a fatalismos e ao sentimento, colocando-nos perante uma obra marcante do cinema francês dos anos 30 e da carreira de Julien Duvivier.

Título original: "Pépé le Moko".
Título em Portugal: "O Fugitivo Desceu à Cidade".
Realizador: Julien Duvivier.
Argumento:  Jacques Constant, Henri Jeanson, Julien Duvivier, Henri La Barthe.
Elenco: Jean Gabin, Gabriel Gabrio, Saturnin Fabre, Fernand Charpin, Lucas Gridoux.

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