28 março 2014

Resenha Crítica: "Os Mortos e os Vivos" (Die Lebenden)

 Uma fotografia pode esconder várias memórias e episódios passados. No caso de Sita (Anna Fischer), a protagonista de "Os Mortos e os Vivos", o novo filme realizado por Barbara Albert, a descoberta de uma fotografia do avô fardado como um elemento das SS logo vem mudar a sua percepção em relação a este último. Sita vive em Berlim perto da mãe, tendo como emprego elaborar os vídeos dos concorrentes de um programa de talentos e uma vida pessoal algo complicada, visível quando o namorado a abandona. Esta tem um caso de uma noite com Jocquin (Itay Tiran), um artista de Israel, que terminou o curso e pretende efectuar uma exposição fotográfica. Sita parte para Viena, onde habita o pai (August Zirner) e a nova mulher deste, bem como o avô (Hanns Schuschnig) que se encontra prestes a fazer 95 anos. O aniversário é o motivo para a viagem, embora esta efeméride logo a faça confrontar com a descoberta de uma fotografia onde o avô está fardado como um soldado das SS. É então que esta decide partir em direcção a Varsóvia, onde se encontra um arquivo relevante que lhe pode dar pistas sobre o passado do avô, embora as informações só possam ser disponibilizadas com a autorização do mesmo. No território de Varsóvia, esta conta com a companhia de Silver (Daniela Sea), uma activista, recebendo ainda a visita de Jocquin, que acaba por se envolver com a personagem interpretada por Daniela Sea. De regresso a Viena, para o funeral do avô, Sita conhece Michael Weiss (Winfried Glatzeder ), um primo do seu pai, que escreveu um livro inspirado na história do personagem interpretado por Hanns Schuschnig. A personagem interpretada por Anna Fischer contacta com algumas gravações em vídeo do avô, onde este relata alguns episódios menos edificantes, proporcionando-se alguns momentos tensos, onde Sita descobre alguns pedaços escondidos sobre o seu familiar. Entre Berlim, Viena e Varsóvia, Sita procura descobrir os segredos sobre os seus antepassados, ao mesmo tempo que parece procurar a sua própria identidade, encontrando episódios negros e devastadores sobre o seu avô, enquanto o filme aborda (ainda que nem sempre de forma assertiva) questões ligadas com os familiares dos antigos elementos pertencentes às SS ou ao Partido Nazi, as memórias da II Guerra Mundial, e a procura de uma jovem de se reconciliar com as memórias que tinha do avô. O discurso falado pelo avô de Sita é exposto em vídeos quase caseiros, onde este confronta o seu passado e a sua neta assiste atentamente quando o mesmo já faleceu, colocando-a perante os actos do mesmo, ao mesmo tempo que parece encontrar um estranho conforto nesta demanda.

 "Os Mortos e os Vivos" não podia ser uma escolha mais feliz para o título desta obra cinematográfica, com Barbara Albert a colocar-nos perante as repercussões dos antepassados nos seus descendentes, quer a nível corporal, comportamental e até a nível de consequências dos seus actos. A doença de que Sita padece pode ser ligada a algo hereditário, com o sangue a uni-la aos seus antepassados, algo que adensa a curiosidade desta em relação ao avô. Esta é algo solitária, lidando com as memórias do avô com um misto de dor e curiosidade, praticando jogging nos tempos livres, circulando por vezes com uma mota, descendendo de elementos polacos e romenos, sendo oriunda da Transilvânia. A escolha da Transilvânia, local de origem da cineasta, é explicada por Barbara Albert da seguinte forma: "The Saxon people of Transylvania were transformed into both perpetrators and victims by World War II. My great-aunt was taken away to a Russian prison camp – while several other relatives who had volunteered to join the SS were deployed as guards in concentration camps after being wounded at the front". Uma fotografia simples, mas cheia de significado, desencadeia uma série de descobertas na vida desta protagonista descendente de saxões da Transilvânvia, ao mesmo tempo que ficamos desde logo perante o poder da imagem e o que esta pode representar, algo que Barbara Albert nem sempre consegue trabalhar, pois a sua câmara de filmar inquieta, por vezes tremida, quase como se estivesse a filmar de um telemóvel, nem sempre é capaz de expressar a inquietação e pulsão que a cineasta pretende. O próprio argumento tem alguma dificuldade em explorar as temáticas relacionadas com os personagens que rodeiam Sita. O seu emprego pouco é aproveitado, a relação com Jocquin é explorada de forma pueril, a presença de Silver é reduzida, a doença da protagonista é encaixotada na narrativa de forma pouco convincente, sendo que o relacionamento com o pai também está longe de convencer. Diga-se que o afastamento de Sita em relação ao pai é algo propositado, com esta a apresentar uma curiosidade excessiva em relação ao passado do avô que nem sempre agrada ao progenitor. Este tem uma forma distinta de olhar para o passado, com o sentimento de culpa a revelar-se numa procura em reprimir a actividade do progenitor e evitar mais chatices do que aquelas que outrora tiveram, considerando que a entrada do personagem interpretado por Hanns Schuschnig nas SS se deve ao facto deste ser alemão. Existe uma certa procura de problematizar a sua entrada nas SS e o seu comportamento do presente, com Barbara Albert a colocar-nos perante um elemento nazi que está longe de ser o estereótipo frio e malévolo que poderíamos esperar.

 Se o pai quer "atirar o passado para baixo do tapete", já Sita quer procurar pelas suas raízes, sejam estas agradáveis ou não, enquanto Anna Fischer convence como esta jovem complexa, com uma vida aparentemente estável que parte em busca do passado do seu avô. O argumento nem sempre a ajuda, atirando com diversas subtramas e explorando muito pouco as mesmas, mas a actriz dá conta do recado, com os close-ups a aproveitarem na perfeição a sua expressividade, por vezes acompanhada por algum mistério, permitindo a Anna Fischer ter uma interpretação acima da média. O mesmo elogio pode ser feito para Hanns Schuschnig como o avô da protagonista, sobretudo no momento em que assistimos aos depoimentos do seu personagem, poderosos a nível emocional, com a cineasta a colocar as imagens em movimento como baixa qualidade como se fosse um documento classificado que saiu dos arquivos e ganhou vida. Esta busca da jovem Sita é a força motriz do filme, com Anna Fischer a dominar uma narrativa centrada na sua personagem, uma mulher curiosa, que a nível sentimental está longe de encontrar uma relação sólida. A família de Sita vive em parte na Áustria, refletindo os fluxos de saxões da Transilvânia que saíram deste local da Roménia para outros territórios após a II Guerra Mundial, algo muito bem explorado no press kit do filme, mas nem por isso nos é exposto da forma mais coesa ao longo do filme. Parece claro que Barbara Albert pretendia dar uma complexidade à obra que não é acompanhada pelo produto final, existindo demasiadas temáticas por abordar, embora consiga realizar um interessante drama humano, que ganha sempre quando procura concentrar as suas atenções na busca da sua protagonista. Por vezes temos desilusões com familiares e estes connosco, no caso de Sita, esta depara-se com o passado negro do avô, alguém de quem gosta, algo que vem abalar a percepção que tinha do mesmo. Embora apresente um argumento algo irregular e um trabalho de câmara nem sempre inspirado, "Os Mortos e os Vivos" revela-se um drama humano interessante de acompanhar, abordando questões pertinentes e relevantes, embora nem sempre tenha o engenho para as explorar.

Título original: "Die Lebenden".
Título em inglês: "The Dead and the Living".
Título em Portugal: "Os Mortos e os Vivos".
Realizadora: Barbara Albert.
Argumento: Barbara Albert.
Elenco: Anna Fischer, Hanns Schuschnig, August Zirner.  

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