30 março 2014

Resenha Crítica: "O Casamenteiro" (The Matchmaker)

Um dos objectivos de acompanhar algumas mostras e festivais de cinema nacionais deriva da procura de encontrar filmes que habitualmente não encontro em circuito comercial. As antestreias que figuram em alguns destes eventos são mais mediáticas, mas o mais relevante é encontrar algumas "preciosidades" que me satisfazem como cinéfilo e raramente posso encontrar em sala. Nesse sentido, "The Matchmaker", exibido na segunda edição da Judaica, marca um regressar à filmografia do peculiar Avi Nesher, após "The Wonders" (exibido em Portugal na 6ª Mostra de Cinema Israelita), com o cineasta a demonstrar uma habilidade invulgar para a mescla de géneros cinematográficos. Em "The Wonders" mesclou elementos noir, thriller, fantasia, investigação e humor, algo que também efectuou na sua obra anterior, "The Matchmaker" (também conhecido em inglês como "Once I Was"), com Avi Nesher a realçar ainda neste último a descoberta do primeiro amor de um adolescente e a sua transição para a idade adulta. Este jovem adolescente é Arik Burstein (Tuval Shafir), um amante da literatura, em particular dos livros noir (fã do enorme Dashiell Hammett), que um dia goza com Yankele Bride (Adir Miller), um casamenteiro que procura reunir seres humanos com dificuldades latentes a nível da formação de relações amorosas. Arik revela a Yankele que a sua irmã tem mãos semelhantes a barbatanas, algo que a leva a não conseguir ter relacionamentos e conduz o "casamenteiro" a contactar o pai do personagem interpretado por Tuval Shafir e passar uma vergonha, pelo menos até descobrir que o progenitor do adolescente é um dos seus grandes amigos de infância que julgara morto nos campos de concentração. Estamos em 1968, em Israel, onde as memórias do Holocausto ainda aparecem bem vivas em alguns elementos, entre os quais Yankele e o pai do jovem Arik. Yankele contrata o jovem Arik como seu espião para descobrir as intenções dos seus clientes (quem quiser "amor rápido" é descartado pelo casamenteiro), formando com o adolescente uma relação de cumplicidade. É nestas andanças que Arik conhece Sylvia (Bat-El Papura), uma anã que possui um cinema, mas tarda em encontrar o amor, procurando os serviços de Yankele (que a descreve como uma face de Greta Garbo e peitos semelhantes a Sophia Loren). Arik conhece ainda Clara (Maya Dagan), uma espécie de femme fatale que descobrimos ter um passado conturbado, mantendo uma relação de grande proximidade com Yankele, com este a nutrir sentimentos amorosos por este, mas a bela mulher tarda em conseguir abrir o seu coração.

Pelo caminho, Arik descobre o amor junto da jovem Tamara (Neta Porat), uma adolescente que se encontra a passar férias nas imediações da sua casa (em Haifa), com o seu pai a deixá-la na casa de familiares. Tamara vive nos Estados Unidos da América, trazendo para casa a rebeldia dos tempos de 1968, ano onde se desenrola boa parte da narrativa, ouvindo rock, não utilizando soutien, apresentando saias ou calções curtíssimos, despertando a atenção do protagonista que a vê como uma espécie de femme fatale. A jovem Tamara é prima de Benny, o melhor amigo de Arik, com quem está nos escuteiros, algo que proporciona momentos de saudável loucura quando esta logo começa a quebrar as regras no grupo. Temos ainda Meir (Dror Keren), o bibliotecário, um homem isolado e vingativo, que decide recorrer ao serviço do casamenteiro, embora logo gere uma animosidade para com este, procurando descobrir os segredos do passado de Bride. Yankele ganha a vida no contrabando, tendo numa cicatriz uma marca latente no rosto, embora o seu passado conturbado seja a maior ferida na sua pessoa, com as marcas do Holocausto a serem uma das temáticas de relevo do filme. Avi Nesher desenvolve a narrativa de "The Matchmaker" como se estivesse a apresentar uma obra literária, com as suas cenas/sequências a serem divididas quase como se fossem capítulos que se fecham e se abrem, povoando a obra de diversas referências literárias e cinematográficas. Veja-se a menção a vários escritores e actrizes famosas, passando pela sala de cinema que passa filmes indianos, até ao próprio enredo do filme que mescla elementos noir (femme fatale, personagens de carácter dúbio, narração em off, entre outros), drama (passado de Clara, marcas do Holocausto), romance (Arik e Tamara, mas também a tensão amorosa entre Yankele e Clara), humor (sobretudo de situação), ao mesmo tempo que nos deixa com alguns laivos do contexto histórico. As referências aos traumas sobre o Holocausto são evidentes, o contexto pós-Guerra dos Seis Dias também (veja-se os subtis anúncios sobre as incursões militares), ao mesmo tempo que somos deixados perante esta história muito própria de Avi Nesher. O cineasta teve como base o livro "When Heroes Fly", de Amir Gutfreund, procurando explorar questões ligadas ao Holocausto e entranhar-se nas raízes de Israel e da sua população, expondo as cicatrizes deixadas no território e nas suas gentes. A situação é particularmente dramática no caso de Clara, com esta mulher a ter sobrevivido nos campos de concentração, mas a nunca mais recuperar do trauma, com Maya Dagan a expor com enorme eficácia essa fragilidade da sua personagem, uma mulher bela e sedutora, mas marcada pelo passado. 

Não é só Maya Dagan que sobressai. Adir Miller, conhecido até então pelos papéis televisivos cómicos, dá a credibilidade necessária ao seu personagem, um indivíduo que vive de contrabando mas não tem má índole, procurando tomar atenção aos pormenores de cada potencial cliente, ajudando seres humanos a encontrarem a sua cara metade, embora este seja algo isolado. A companhia do jovem Arik traz um novo fôlego à vida de Bride, enquanto o jovem tem a oportunidade de se embrenhar em buscas semelhantes às dos detectives que tanto admira, aprendendo com o amigo do progenitor elementos que vão ser essenciais para a sua vida. A narrativa desenrola-se durante as férias de Verão de Arik, um período quente e intenso da sua existência, inesquecível pelas memórias que forma, ao mesmo tempo que começa a escrever, quer pequenas histórias, quer a sua própria vida. Veja-se a relação com Tamara, cheia de perigos e novidade, de descoberta sexual e sentimental, mas também a amizade com Clara e Yankele. Na biblioteca o jovem encontra-se com os grandes autores, mas também com pedaços da história, embora até tenha em casa um elemento que é destaque por ter sobrevivido ao Holocausto, apesar do progenitor procurar esconder o seu passado. Essa repressão da memória e a vergonha em relação ao passado pela parte de alguns elementos que estiveram detidos nos campos de concentração, algo exposto numa cena poderosíssima onde o personagem interpretado por Adir Miller é revistado e parece estar a rever outros tempos, é outra das temáticas de relevo, com este casamenteiro a parecer sempre algo à margem da sociedade que integra. São vários os personagens que Avi Nesher nos apresenta, gente humana, assaz peculiar, algo à margem da sociedade, parecendo incapaz de se integrar totalmente. Não são apenas os sobreviventes do Holocausto. Veja-se o personagem interpretado por um sublime Tuval Shafir, um adolescente que ama literatura e detectives, mas também a irreverente Tamara, ou até Sylvia, uma anã que tarda em encontrar o amor. Estes encontram-se na "Cidade Baixa", um local conhecido pelo contrabando e gentes das margens, local estratégico para Bride exercer os seus negócios. Este procura ter no despertar do amor alheio um modo de vida, um bálsamo para as dores da alma, ao longo desta obra que a espaços perde algum fulgor, mas consegue conjugar de forma assertiva esta mescla de géneros, contando para isso com um argumento bem interessante. "The Matchmaker" é assim um filme sobre a descoberta do amor por parte de um adolescente, uma obra sobre a transição para a idade adulta, mas também sobre os sobreviventes do Holocausto e a população israelita, revelando a ambição e algum do talento de Avi Nesher.

Título original: "Once I Was" ou "The Matchmaker".
Título em Portugal: "O Casamenteiro".
Realizador: Avi Nesher.
Argumento: Avi Nesher.
Elenco: Adir Miller, Maya Dagan, Tuval Shafir, Dror Keren.

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