26 março 2014

Resenha Crítica: "O Atentado" (The Attack)

 Como poderemos lidar com uma descoberta dolorosa sobre uma pessoa amada recentemente falecida? Amin Jaafari (Ali Suliman), o protagonista de "O Atentado", é um prestigiado cirurgião árabe que vive em Israel, o primeiro a receber o prémio Bar Eliezer, sendo casado com Siham (Reymond Amsalem), uma cristã, com quem mantém um casamento aparentemente estável. Este recebe a notícia que dezassete pessoas foram violentamente feridas, entre as quais onze crianças, num ataque bombista suicida a um restaurante. Durante a noite, Amin recebe um telefonema para se deslocar ao hospital, onde descobre que tem de identificar o corpo da sua mulher. Como se a notícia e a visão do corpo da sua mulher queimado já não fosse péssimo o suficiente, estas surgem acompanhadas pela notícia de que Siham foi a mulher-bomba responsável pelo atentado terrorista. Amin não se quer acreditar nas autoridades israelitas e entra num assomo de emoções difíceis de controlar e digerir. Este pensava que a esposa se encontrava em Nazareth, na casa do avô, mas este último logo confirmou à polícia que não via Siham há nove meses. A polícia interroga-o violentamente, a sua casa é vandalizada, todos parecem desconfiar da mulher menos este, algo que muda quando Amin descobre uma carta de Siham onde esta revela o crime. Diga-se que a convivência de Amin com a imagem da esposa é assaz interessante, com este a procurar proteger as boas memórias que guarda desta e os retratos físicos da mesma, algo visível quando pega na moldura com a fotografia de Siham que se encontrava no chão e a coloca à mostra na estante. Mais do que uma mera fotografia, este retrato conserva uma imagem de momentos de felicidade, de um casamento marcado por um segredo devastador descoberto no leito da morte, mas um notório amor e cumplicidade durante a vida. É então que Amin se dirige até Nablus, na Cisjordânia, onde se encontram a sua irmã e cunhado, bem como os dois sobrinhos, entre os quais Adel, que mais tarde sabemos estar ligado à organização de Siham, descobrindo que a esposa é idolatrada no território pelo acto terrorista. Amin logo rasga os cartazes a admirar a mártir, sendo notório que não é assim que este pretende ver a esposa ser recordada, embora as consequências deste acto não se apaguem com tanta facilidade como o rasgar de um papel. Este procura descobrir quem a influenciou e trabalhou com a esposa, descobrindo que esta lhe mentia, apesar de o amar, algo que o leva a revoltar-se, sentir dor profunda, encolerizar-se, mas também a não deixar de sentir o mesmo afecto por esta, procurando compreender a mesma e recordando-se dos momentos que vivera com Siham. 

Os flashbacks incutem alguma dimensão em relação ao casamento de Siham e Amin, exibindo alguns momentos de felicidade entre ambos no passado e mostrando que as desilusões e a morte nem sempre chegam para quebrar o amor. Estes flashbacks são utilizados de forma certeira e permitem a Reymond Amsalem sobressair como esta mulher misteriosa, que vai muito para além de uma fundamentalista unidimensional, com o argumento a mostrar qualidades e Ziad Doueiri a deixar-nos perante uma personagem complexa, embora pouco tempo tenha no ecrã. Siham tinha tudo para ser feliz, mas escolhe um caminho de vingança, eliminando inocentes, fazendo vitimas e tornando-se terrorista para uns, mártir para outros, complexa para quem está a ver o filme. Diga-se que pode aparecer pouco mas o seu acto violento deixa repercussões que vão muito para além do seu marido, despertando ódios antigos e mostrando a intolerância em Israel. Ziad Doueiri aborda estas temáticas de forma humana e delicada, explorando as intolerâncias mútuas entre israelitas e palestinianos, mostrando que muito os divide e pouco os parece conduzir a uma paz, conduzindo a ataques extremistas como o protagonizado por Siham. Sem criticar os personagens que permeiam a narrativa, nem fazer a apologia dos mesmos, Ziad Doueiri exibe em "O Atentado" que existe algo de muito mais complexo para além dos estereótipos associados aos ataques terroristas e às questões relacionadas com Israel e Palestina. Veja-se desde logo o caso de Siham. Será a personagem interpretada por Reymond Amsalem a típica terrorista? Nem por sombras. Estamos perante alguém de famílias abonadas, com um casamento estável, bela e que nada aparentava que pudesse cometer um crime tão hediondo. O que levará alguém a cometer um atentado desta natureza? A busca do protagonista pela verdade sobre a esposa (e alguma paz interior) procura exactamente responder a esta questão, com a sua demanda a surgir a espaços inquietante, com a câmara de filmar a adensar essa situação (embora a fotografia seja discreta), ao mesmo tempo que o enredo avança por caminhos que podem colocar a vida de Amin em perigo, sobretudo em Nablus. O território é sui generis, mesclando elementos ligados à tradição, incluindo religiosa, sendo notória uma abertura ao exterior (veja-se os cachecóis do F.C.Barcelona à venda numa loja de rua), embora as ligações ao passado pareçam sempre mais fortes. 

Ficamos assim perante uma obra capaz de abordar temas polémicos de forma algo corajosa, com Ziad Doueiri a não ter problemas em entrar em polémicas, ou não estivéssemos perante um marido que procura descobrir a verdade sobre a sua esposa, uma terrorista, ao longo desta adaptação ao grande ecrã do livro L'Attentat" de Yasmina Khadra. Doueiri consegue ainda tirar uma interpretação de peso a Ali Suliman, com o actor a ser essencial para acreditarmos em Amin e querermos seguir a sua jornada de descoberta. Amin é um árabe que está aparentemente bem integrado em Tel Aviv, mas na realidade continua algo à margem, habitando num vulcão fervilhante, prestes a explodir e a deixar soltar todas as suas intolerâncias e ressentimentos antigos. Essa situação é visível quando está para operar um indivíduo israelita e este recusa-se a ser tocado por um árabe, mas também no tratamento dado pelas autoridades e até por uma colega sua amiga, com quase todos a tratarem a sua ascensão social e laboral em Tel Aviv como um favor, quando na realidade Amin conseguiu as mesmas devido ao valor do seu trabalho. Amin pensa estar acima do conflito entre israelitas e palestinianos mas acaba por se ver envolvido pelo mesmo, com a sua esposa a tomar uma atitude dicotómica dos seus ideais (o cirurgião procura salvar vidas), acabando por expor a dificuldade em fugir a esta guerra. Ainda forma uma aparente amizade com elementos como Raveed, um agente das autoridades, embora nunca pareça realmente integrado. Vale a pena realçar que Ziad Doueiri não diaboliza os israelitas, nem os palestinianos, deixando a nós espaço para decidirmos, embora deixe bem claro que esta contenda tem muitas nuances (que seriam impossíveis de serem todas abordadas ao longo do filme), enquanto nos apresenta às consequências sofridas por um familiar de uma terrorista. Curiosamente o filme acabaria por ser proibido nos países árabes devido a ter sido filmado em Israel e conter actores israelitas, tendo também gerado alguma controvérsia junto desta última nação, algo que mostra bem a forma sublime como Ziad Doueiri conseguiu abordar questões ligadas a ambos os lados da contenda. Entre o drama humano e o thriller, "O Atentado" revela-se uma obra competente e intrigante, capaz de abordar questões polémicas e delicadas, enquanto nos deixa perante um marido que procura preservar as memórias da sua esposa e preencher os espaços em branco de um casamento terminado de forma dolorosa e sentida. 

Título original: "The Attack".
Título em Portugal: "O Atentado".
Realizador: Ziad Doueiri.
Argumento: Ziad Doueiri e Joelle Touma.
Elenco: Ali Suliman, Reymond Amsalem, Evgenia Dodena, Dvir Benedek, Uri Gavriel.

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