01 março 2014

Resenha Crítica: "Non-Stop" (Sem Escalas)

 Chuck Norris que se cuide porque Liam Neeson parece estar disposto a roubar-lhe o estatuto de herói de acção capaz das habilidades mais improváveis e de nos despertar um largo sorriso, fazendo com que esqueçamos temporariamente que pouco do que estamos a ver faz sentido. Liam Neeson tem ainda a vantagem de ser um actor bastante competente, dando uma credibilidade evidente aos seus personagens, fazendo com que facilmente nos identifiquemos com estes, algo que em parte justifica o seu sucesso recente em filmes de acção, tais como a dose dupla de "Taken" e até "Unknown", este último realizado por Jaume Collet-Serra, o realizador de "Non-Stop", o novo filme protagonizado pelo primeiro. Neeson interpreta Bill Marks (Liam Neeson), um marechal da Força Aérea que se encontra num voo transatlântico dos EUA para Londres, tendo de vigiar o mesmo, encontrando um contratempo inesperado quando começa a receber mensagens de alguém que anuncia estar prestes a eliminar um passageiro de vinte em vinte minutos se não forem depositados 150 milhões de dólares numa conta bancária. Este começa a desconfiar de tudo e de todos, excepção feita em relação a Jen (Julianne Moore), uma mulher afável que se senta ao seu lado e irá apoiar o protagonista, e Nancy (Michelle Dockery), uma hospedeira de bordo. Pelo caminho desconfia de um colega que descobre transportar cocaína, de um polícia (Corey Stoll) que até o vai ajudar a certa altura da narrativa, de Tom Bowen (Scoot McNairy), um indivíduo que mente em relação ao seu destino, entre outros elementos, com Jaume Collet-Serra a procurar adensar o mistério e inquietação em volta da identidade do assassino, ao mesmo tempo que explora as potencialidades das novas tecnologias, quer a nível de segurança, quer de actos de terrorismo, procurando gradualmente criar ainda uma onde de desconfiança em relação ao protagonista. Bill conta com os seus fantasmas do passado, tendo outrora sido um polícia respeitado, embora tenha entrado numa espiral descendente com a morte da sua filha, algo que conduziu ao seu despedimento e divórcio, bem como a problemas com o álcool, sendo que a sua conduta algo agressiva não ajuda a que os outros passageiros confiem nele. As novas tecnologias permitem vigiar os diferentes espaços do avião, mas também fazer com que a informação que passe para fora deste surja muitas das vezes emitida de forma falsa, criando-se um jogo inquietante entre o protagonista e o autor das mensagens, onde a credibilidade do primeiro é colocada em causa e as vidas dos passageiros em perigo.

Aparentemente ninguém é totalmente inocente e todos podem ser culpados ao longo deste thriller a espaços inquietante, que procura jogar com a paranóia pós-11 de Setembro, ao mesmo tempo que expõe o facto dos perigos dos EUA não se encontrarem apenas no exterior. Esta situação resulta na presença de um médico árabe simpático, que alguns elementos pensam ter alguma culpa, mas o filme resolve e bem não ter o cliché do árabe terrorista. O mesmo não se pode dizer em vários personagens secundários, com Moore a interpretar um apoio quase submisso (embora a presença da actriz dê qualidade a qualquer filme e a dinâmica com Neeson funcione), Lupita Nyong'o a ser completamente desaproveitada (chega a ser embaraçoso ver o papel tão apagado desta actriz que teve um desempenho tão poderoso em "12 Years a Slave"), Bar Paly a interpretar uma mulher meio tarada que se destaca pelos atributos físicos (tal como a modelo), entre vários outros elementos, sobressaindo ainda os argumentos risíveis dos terroristas para atacarem o avião e procurarem incriminar Bill. Percebe-se a ideia, mas esta é exposta de forma tão pueril para criticar a política de segurança e militar dos EUA que quase chega a causar um efeito de ricochete, com "Non-Stop" a usar e abusar das situações implausíveis, a ponto de contar com o protagonista a voar no interior do avião depois de uma janela ter sido quebrada por um tiro, apanhar uma pistola pelo ar e mostrar todo o seu heroísmo. Liam Neeson luta, enfrenta vários adversários, mata, procura mostrar que só está a ajudar, dispara com a sua pistola, conquista a confiança de Jen, mostra saber cuidar de crianças, embora até diga que é um tipo cheio de defeitos. Chuck Norris não faria melhor e diga-se que Liam Neeson parece divertir-se imenso a interpretar estes personagens capazes do aparentemente impossível, garantes da autoridade e segurança. Neeson dá credibilidade ao personagem, revelando-se um dos pontos positivos do filme, a par do aproveitamento do espaço do avião e da fotografia (os tons azulados sobressaem a certa altura da narrativa), mas o argumento não se revela à altura da ambição de Jaume Collet-Serra, cujas reviravoltas e explicações ficam demasiadas vezes aquém daquilo que promete. Não é um filme de acção completamente nulo, algo evidenciado pelo mistério criado em volta dos terroristas, bem como no eficaz jogo entre o "gato e o rato" protagonizado por Bill e os antagonistas, e até em pormenores como a iluminação do avião (veja-se as cenas nocturnas, com a pouca iluminação a adensar a inquietação em volta das primeiras mensagens recebidas), embora os excessos do último terço atraiçoem uma obra que inicialmente chegou a apresentar algum realismo, coerência e interesse.

Título original: "Non-Stop".
Título no Brasil: "Sem Escalas".
Realizador: Jaume Collet-Serra. 
Argumento: John W. Richardson, Chris Roach, Ryan Engle.  
Elenco: Liam Neeson, Julianne Moore, Scoot McNairy, Michelle Dockery, Nate Parker, Jason Butler Harner, Anson Mount, Lupita Nyong'o.

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