15 março 2014

Resenha Crítica: "Need For Speed"

 A certa altura de "Need For Speed", a adaptação cinematográfica da célebre saga de jogos de computador, é exibida uma icónica perseguição do filme "Bullitt", com a obra cinematográfica a passar num drive-in. Nestes momentos do filme protagonizado por Steve McQueen temos uma cena de perseguição e fuga de carros marcante onde não falta sentimento, sentido de ritmo, intensidade, realismo, ou seja, praticamente tudo aquilo que o filme de Scott Waugh queria ter mas raramente consegue nas disputas com carros. Waugh realiza uma obra marcada por uma típica história de vingança, filmada com uma falta de sobriedade latente e um sentido estético que faria Michael Bay orgulhoso, acompanhada por uma banda sonora intrusiva que procura insuflar todos os acontecimentos e compensar aquilo que o argumento nem sempre nos consegue dar. Nota-se que existe uma procura de criar uma saga semelhante a "Velocidade Furiosa", a começar por Tobey Marshall (Aaron Paul), o seu protagonista, também ele um indivíduo de poucas palavras e com um passado complicado, com enorme talento para as corridas de carros (um pouco como o personagem interpretado por Diesel). Este tem uma oficina que herdou do seu falecido pai, onde trabalha com Pete (Harrison Gilbertson), Finn (Remi Malek), Joe (Ramón Rodriguez), contando ainda com a colaboração esporádica de Benny (Scott Mescudi) como um piloto de aviões que controla o espaço das corridas. Estes personagens pouco evoluem ao longo do filme, raramente passando dos lugares comuns, sobretudo o personagem de Mescudi, um suposto alívio cómico que desperta mais bocejos do que riso. O quotidiano de Tobey muda quando este recebe a visita de Dino Brewster (Dominic Cooper), um indivíduo abastado ligado ao negócio automóvel e às corridas, rival do personagem interpretado por Aaron Paul, que pede a este último para consertar um Ford Mustang idealizado por Ford e Carroll Shelby, antes deste último falecer, tendo em vista a vender o carro. O arranjo é feito com sucesso, embora Dino e Tobey logo entrem em choque, ou não fossem estes rivais no automobilismo e até na vida pessoal com o primeiro a namorar a irmã de Pete, a ex-namorada do protagonista. 

O conflito entre os dois rivais conduz Dino a desafiar Tobey e Pete para uma corrida com três carros ilegais nos EUA mas de alta cilindrada, algo que corre pelo pior, com uma morte a acontecer, o personagem interpretado por Dominic Cooper a conseguir forjar a sua inocência e o protagonista a ser preso por dois anos. A narrativa avança dois anos e Tobey logo pensa em vingança, procurando participar numa corrida ilegal organizada por Monarch, onde o vencedor fica com os carros dos derrotados. Monarch relata ainda os acontecimentos, aparecendo-nos na maioria das vezes como se estivesse a ser filmado por uma câmara de filmar, apresentando um comportamento frenético e apaixonado pelas corridas. Para participar na prova, Tobey consegue o Ford Mustang, contando com Julia (Imogen Poots), a intermediária no negócio da compra do carro a Dino, como co-piloto, enquanto se dirigem até à Califórnia. Estes fogem das autoridades, dos elementos associados a Dino que pretendem que Tobey não participe na corrida, enquanto Tobey procura limpar a sua imagem, provar a culpabilidade de Dino e vencer este último na corrida. Dominic Cooper surge como o estereótipo do antagonista sem escrúpulos, unidimensional, que apenas está na narrativa para colocar o protagonista em perigo e mostrar o quão bem intencionado é Tobey, sendo um piloto nato, embora pouco consigamos ver desse suposto talento. No entanto, quem mais brilha é Imogen Poots, que surge luminosa, prática, sardónica, com um sotaque britânico longe de ser escondido e belíssima. Os diálogos muitas das vezes atingem níveis de mediocridade desastrosos, mas Poots convence, com a dinâmica entre Julia e Tobey a ser do melhor que o filme tem para nos dar. Aaron Paul também convence, embora raramente acreditemos que é este a conduzir os carros, com as corridas a surgirem em doses excessivas, comprovando que quantidade nem sempre é qualidade, embora seja difícil negar que no último terço Scott Waugh incute algum ritmo e emoção às mesmas, procurando por vezes copiar a experiência que podemos ter nos jogos da franquia, não faltando alguns elementos para os fãs se idenficarem com a mesma.

 Estas corridas em excesso quase que nos remetem para "Le Mans", outro célebre filme protagonizado por Steve McQueen, que pouca história tinha, sendo marcado por corridas intensas e realistas. As comparações com "Need For Speed" ficam-se por aqui, com o filme a ser marcado por momentos irreais, por vezes estapafúrdios, sendo provavelmente capaz de agradar a um público alvo que apenas pretende assistir ao filme devido às corridas. Acerta no último terço quando dá alguma carga emocional à mesma e o CGI por vezes é desculpado, embora seja algo óbvio que o confronto mais tarde ou mais cedo fica apenas entre Dino e Tobey. No entanto, "Need For Speed" por vezes espalha-se nos seus descomedimentos, como na cena do acidente mortal que conduz Tobey à prisão, onde pouco nos convence e os exageros tomam demasiado conta do ecrã, um pouco à imagem dos comportamentos dos personagens secundários com o filme a procurar demasiadas vezes ter piada à força quando não consegue. Não ajuda ter personagens secundários unidimensionais e caricaturais, tais como os interpretados por um pavoroso Scott Mescudi e um canastrão Remi Malek, com "Need For Speed" a surgir diante nós como um filme de acção e vingança anódino, que sobressai pelos bólides caríssimos e a dupla formada por Aaron Paul e Imogen Poots, mas pouco de novo tem para nos dar ou surpreender, prometendo sair da memória com a mesma velocidade dos veículos de alta cilindrada que nos são apresentados. E são muitos os carros apresentados, chegando a impressionar nesse quesito, com Scott Waugh a dar uso aos mesmos, embora não tivesse custado nada ter uns bólides a menos e investido um pouco num argumento mais elaborado. O argumento é o elo mais fraco do filme, procurando resolver tudo da forma mais preguiçosa possível, algo visível no desenvolvimento dos personagens e na forma esquemática como nos apresenta a história de vingança, mas também na forma pueril como efectua algumas revelações relevantes, algo visível na cena onde a irmã de Pete descobre que Dino é o culpado da morte do familiar. Monarch, o organizador da competição do último terço, salienta que "correr com paixão é uma arte". Filmar com paixão também é uma arte, infelizmente pouco dominada por Scott Waugh.

Título original: "Need For Speed".
Realizador: Scott Waugh.
Argumento: George Gatins. 
Elenco: Aaron Paul, Dominic Cooper, Imogen Poots, Ramón Rodríguez, Michael Keaton.

5 comentários:

Dyego Moderador disse...

Vai jogar o jogo antes de falar besteira..o intelectual

Aníbal Santiago disse...

A crítica é ao filme não é ao jogo. Não sei se o Tico e o Teco do Dyego perceberam isso?

Bruno Duarte disse...

Sendo eu um fã desde o primeiríssimo jogo na Sega Saturn e tendo jogado todos até ao último NFS Rivals... posso concluir que basta ter carros rápidos e pronto. Não há mais nada de história na saga ou o pouco que há é fina como uma folha de papel, além de banal e cliché.

Não há nada para conhecer nos jogos além de personagens que têm uma mentalidade de criança no que toca à lei. E antes de falares besteira aprende a pontuar uma frase.

Hugo Barcelos disse...

É assim mesmo, Dyego!!! Defender a franquia até à morte! Abaixo os intelectuais!

paulo joão disse...

Discordo em parte.As corridas são magnificas. Não tem como considerar ruim elas. A química da menina com ele funciona muito bem. Nisso se distancia dos Velozes em que os romances nunca deram certo. O resto é mais do mesmo realmente, mas o filme no final acaba sendo bacaninha.