27 março 2014

Resenha Crítica: "Mãe e Filho"

     A história de “Mãe e Filho” centra-se numa relação complexa e disfuncional entre as duas personagens do título na Roménia contemporânea, concentrando-se na sua evolução na sequência de um acontecimento gravoso e inesperado – um atropelamento, por negligência, e o consequente assassinato de uma criança numa via rápida, por parte do filho. Este, de seu nome Barbu, deverá ser julgado pelo crime e, provavelmente, enfrentar uma pena de prisão de alguns anos, pelo que será necessário subornar polícias e apoiar a família da vítima. É normal, portanto, sermos confrontados com alguns momentos de tensão, tendo em conta a imprevisibilidade da situação. Curiosamente, apesar destas circunstâncias, o mais importante para a narrativa, e parece até para o próprio personagem, um tipo reservado, alto e barbudo na casa dos trinta anos, vai ser a forma como será obrigado a relacionar-se com a sua mãe, Cornelia.
     Não quer isto dizer que a mãe deseje mal ao filho, ou que tenha intenções de rebaixá-lo. Na realidade, “Mãe e Filho” é mais intrincado do que isso. Cornelia deseja, antes de mais, ajudá-lo. Será acima de tudo na forma como o vai fazer que está o cerne da história, pois é nesta mulher fascinante e aparentemente poderosa que, do início ao fim, a câmara vai seguir, ininterruptamente. Cornelia, uma mulher loira com os seus sessenta anos – nas palavras da própria, “uma mulher de trinta anos que aparenta ter sessenta” - pertence à nova burguesia da Roménia, e parece encarnar a imagem que Calin Peter Netzer (realizador e co-argumentista) e Razvan Radulescu (co-argumentista) têm deste grupo social emergente: se, por um lado, é culta, lê autores vencedores do prémio Nobel e dá-se com ministros, por outro consegue mexer-se com alguma naturalidade e com muito poucos escrúpulos nos meandros de uma sociedade para a qual a corrupção é um fenómeno perfeitamente natural e inquestionável. Denota-se que a relevância da corrupção foi colocada propositadamente na narrativa para que Netzer e Radalescu pudessem efectuar uma crítica social ao seu país de origem, uma das características partilhadas por algumas das obras mais importantes da nova vaga de cinema romeno, e nisso conseguiram ser particularmente eficazes. Sobressai assim uma sociedade – tanto no campo como na cidade - transversalmente habituada ao suborno e ao tráfico de influências, incluindo-se neste espectro tanto os inspectores dos cargos mais altos da polícia como os simples agentes da autoridade provincianos, que não têm pudor em pedir favores em troca de maior compreensão e que carecem de escrúpulos e de qualquer intenção de demonstrarem profissionalismo.
     Outra característica que “Mãe e Filho” partilha com as outras obras da nova vaga romena é o seu realismo, e foi nesse sentido que Netzer recorreu a um estilo que pudesse providenciar ao filme um certo tom documental, assente numa fotografia discreta, na ausência de banda sonora e num constante tremelicar da câmara, dando a ideia de que o espectador é, acima de tudo, uma testemunha. Estes pormenores complementam de forma muito adequada o universo frio e pessimista criado em torno do filme, mas como é lógico não é neles que residem as suas principais qualidades. Essas estão na beleza do processo estruturado com muita inteligência e sensatez por Netzer e Radalescu a partir do qual nos vamos apercebendo, de forma gradual e natural, como funciona a mente da personagem de Cornelia, à medida que esta vai lidando com as adversidades que lhe vão surgindo pela frente, que por vezes a obrigam a interagir com as diferentes personagens que vão sendo incluídas na narrativa. Temos assim uma protagonista pluridimensional, capaz de captar a nossa atenção, coerente nas suas próprias contradições, que à primeira vista parece ser essencialmente poderosa e autoritária, mas cujo poder deriva, acima de tudo, das suas próprias fraquezas. É evidente, de facto, desde o primeiro instante, que Cornelia ama o filho e que se preocupa com ele, mas só no final nos é inteiramente dado a entender que o medo de o perder (sendo ele a única coisa que ela tem na vida, como ela própria chega a admitir) consiste na principal razão para a obsessão claramente exagerada que ela tem por controlá-lo e para não o perder de vista. Incapaz de admitir o seu carácter obsessivo, culpa Carmen, a namorada de Barbu, por mantê-lo trancado em casa e de o proibir de falar com a mãe, e considera-se uma mulher frontal e honesta – na mesma conversa em que tentara convencer Carmen a manipular Barbu -, e como tal “uma mulher difícil”.
     Cornelia não é a única personagem sagazmente construída na evolução desta narrativa, e vão-nos aparecendo uma plêiade de homens e mulheres com papéis secundários, alguns deles memoráveis, incluídos sensatamente no meio da história com o único propósito de a enriquecer. Juntamente com a protagonista, vão proporcionar diálogos interessantes que nunca parecem desfasados da realidade, bem como um conjunto de cenas de desfecho imprevisível, capazes de captar a nossa atenção. Assim sucede com Barbu, bem interpretado por Bogdan Dumitrache, um homem que apesar de adulto continua perturbado pelo sufoco que a mãe lhe proporcionou, deduzimos nós, desde sempre, e que no âmbito da luta pela pela sua própria independência parece, como já foi referido, preferir responder pelos seus crimes do que ser obrigado a seguir os comandos de Cornelia. Carmen, a sua namorada, tem uma interpretação à altura por parte de Ilinca Goia, que de um vulto quase ausente se transforma, aos nossos olhos, numa mulher relativamente forte com preocupações e uma personalidade que vai ser aprofundada pelo argumento. Sobressaem ainda Vlad Ivanov como Laurentiu, um indivíduo enigmático e pouco recomendável que se limita a surgir numa cena quase surreal em que troca um diálogo fascinante com Cornelia, ou Adrian Titieni como o pai da criança vitimizada, um irrepreensível espelho de dor e de sofrimento.
     No final “Mãe e Filho” sobressai como um filme muito inteligente e fascinante, e não é por acaso que graças aos seus propósitos e à forma como os cumpre chegou a ser comparado a uma espécie de psicanálise. Efectivamente, raramente vemos obras que aprofundam de tal modo os seus protagonistas, com tal sagacidade e sensibilidade. Calin Peter Netzer e Razvan Radulescu engrandeceram assim o surpreendente número de obras cinematográficas que têm vindo a ser incluídas na chamada nova vaga do cinema romeno, que eles próprios, aliás, ajudaram a criar - Netzer realizou “Maria” em 2003 e “Medalha de Honra” em 2009, ambos premiados numa diversidade de festivais europeus, e Razvan Radulescu co-escreveu o argumento do aclamado “A Morte do Sr. Lazarescu” em 2005. Não nos devemos esquecer ainda da portentosa interpretação de Luminita Gheorghiu como Cordelia, que volta mais uma vez a dar mostras do seu talento, como de resto o fizera no referido “A Morte do Sr. Lazarescu”. Netzer, Radulescu e Gheorghiu demonstraram-nos assim que o seu país pode estar corrompido e ter poucos recursos, pode estar longe de recuperado dos tempos negros de Ceaușescu, mas que, pelo menos a nível de cinema, o que não falta é talento para dar e vender.

Ficha técnica:

Título original: Pozitia copilului
Título em Portugal: Mãe e Filho
Realização: Calin Peter Netzer
Argumento: Calin Peter Netzer e Razvan Radulescu
Elenco: Luminita Gheorghiu, Bogdan Dumitrache, Natasa Raab, Ilinca Goia, Florin Zamfirescu, Vlad Ivanov, Adrian Titieni, entre outros.

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