28 março 2014

Resenha Crítica: "A Lua é Judia" (The Moon is Jewish")

 Dizer que mudamos ao longo da vida é algo de redutor, mas poucos certamente conhecemos alguém com transformações tão drásticas como Pawel, o caso de estudo de "The Moon is Jewish", um cativante documentário realizado por Michal Tkaczynski. Pawel era um adepto fanático do Légia de Varsóvia, um hooligan, skinhead, violento, intolerante para com as minorias, odiando negros, judeus, ciganos e até os sem-abrigo. Quando Pawel descobre que descende de judeus logo a sua vida muda, sofrendo um "murro no estômago" ao tomar conhecimento que está "no outro lado" que tanto odiava. O que fazer quando nos tornamos alguém que supostamente odiamos? Pawel surpreendentemente começa a procurar compreender os seus antepassados e gradualmente muda o seu modo de agir, pensar, vestir, deixando crescer o cabelo e a barba, assumindo a sua faceta de judeu ortodoxo, algo aprovado pela sua esposa. Começa a frequentar a sinagoga, procura que os filhos apliquem os seus ideais, considerando ter a sua maior fraqueza no seu amor pelo Légia, embora agora já não possa ir ao estádio devido à intolerância da claque. A violência no desporto e dos Hooligans é também abordada ao longo do filme, indo desde a atitude durante os jogos, passando pelos confrontos com a polícia "no aquecimento" pré-jogo, tudo acompanhado por uma banda-sonora que ajuda a ritmar a narrativa enquanto somos apresentados a esta peculiar história de vida. A transformação de Pawel não é imediata, com este a ter de se adaptar gradualmente a um grupo, tal como tivera de fazer na claque a que pertencera, embora com as devidas distinções. A mãe não apreciou a mudança, sobretudo o facto do filho ter falhado o funeral do progenitor, ficando presente também as intolerâncias a nível religioso. Não é certo que Michal Tkaczynski tenha feito esta analogia de forma propositada, mas não deixa de ser curioso que Pawel não tenha entrado numa igreja cristã devido aos seus ideais, existindo uma subtil intolerância, embora longe da violência dos seus tempos como Hooligan. Pawel ainda regressa ao estádio do Légia, embora vazio, outrora o seu espaço de culto, hoje símbolo de um passado violento, onde transgredia as regras, algo que mudou com uma simples mas tão importante descoberta. O documentário conta ainda com depoimentos da esposa do protagonista e o rabino que convive de perto com este, abordando este novo modo de vida de Pawel, demonstrando paradigmaticamente que a mudança está muito no querer de cada um. Michale Tkaczynski parece estar consciente das limitações do material que tem para abordar, concedendo ao seu documentário uma duração que não chega a cinquenta minutos (ou rondará os mesmos), não dando mais do que aquilo promete, deixando-nos perante uma história de mudança deveras peculiar.

Título original: "The Moon is Jewish".
Título em Portugal: "A Lua é Judia".
Realizador: Michal Tkaczynski.


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