30 março 2014

Resenha Crítica: "Gloria" (2013)

 Gloria (Paulina García) é uma mulher divorciada e solitária, que conta com dois filhos adultos e a presença esporádica de um gato que teima em entrar sorrateiramente na sua casa. Esta tem um emprego num escritório onde as divisórias entre trabalhadores adensam essa solidão, conta com um vizinho barulhento que apoquenta as suas noites, tendo nas visitas a um clube nocturno uma forma de expurgar esta solidão, ao dançar e ter alguns momentos de convívio. Nestas saídas nocturnas, "Gloria" maquilha-se de forma cuidada, procurando esconder um pouco os efeitos que a passagem do tempo causou no seu rosto, algo visível quando ao final da noite chega a casa sozinha e retira todas as camadas extra que preenchiam a sua face. É nestas saídas que Gloria conhece Rodolfo (Sergio Hernández), um homem divorciado há um ano, gerando-se uma atracção mútua, com uma dança a iniciar os preliminares para uma noite de sexo, onde Gloria expõe o seu prazer e o seu corpo. Diga-se que a relação de Sebastián Lelio com o corpo da protagonista é algo de fundamental ao longo da narrativa de "Gloria", a sua inspirada nova longa-metragem, onde as marcas da idade não parecem afectar os comportamentos de Gloria, mas ao mesmo tempo influenciam de forma latente. O gesto é relevante para Lelio, seja a mostrar Gloria a tirar a sua maquilhagem e expor o seu rosto junto de nós, seja a exibir a sua nudez durante uma cena de sexo, seja um entrelaçar de mãos entre a protagonista e Rodolfo, seja um beijo entre estes dois últimos. Gloria é uma mulher vivida, cujas experiências de outrora lhe dão um certo pragmatismo, embora não lhe tirem um comportamento juvenil, mas longe de ser ridículo ou desadequado, algo que explica algumas das suas atitudes. Por sua vez, Rodolfo, o dono de um parque de diversões e antigo elemento da Marinha, encontra-se em mudança, tendo efectuado uma cirurgia para reduzir o peso, encontrando-se a efectuar "operações internas" para mudar a sua alma, com as suas filhas ainda a dependerem da sua pessoa, algo que o leva a não expor a relação com Gloria junto destas. Esta opção não agrada inicialmente a Gloria, sendo notória uma diferença entre ambos a lidarem com os respectivos filhos e ex-cônjuges. Gloria tem uma relação aberta com os filhos, revelando o seu envolvimento com Rodolfo. Diga-se que os próprios filhos de Glória apresentam um comportamento diferente, com ambos a trabalharem, ao contrário das filhas de Rodolfo, que são sustentadas por este, bem como a sua ex-mulher, com o personagem interpretado por Sergio Hernández a revelar um comportamento algo passivo para com as as mulheres.

 O encontro de Gloria com o seu ex-marido, a nova companheira deste, o filho e a filha, na companhia de Rodolfo, revela-se um dos momentos mais marcantes do filme, com Sebastián Lelio a expor com enorme subtileza alguma da estranheza dos relacionamentos humanos nas famílias contemporâneas. A filha está grávida de Theo, um sueco, pretendendo ir com este para a Suécia, mas o pai não sabe; o ex-marido de Gloria tem outra companheira; a protagonista tem outro namorado, encontrando-se todos na mesma casa como se nada fosse, embora já não se vejam há alguns anos. Recordam velhos momentos, bebem demasiado, deixam Rodolfo praticamente de lado e este decide sair sorrateiramente. A relação entre ambos surge muitas das vezes minada pelo seu passado, sobretudo no caso de Rodolfo, com este a surgir com uma personalidade pouco decidida e pronto a deixar-se comandar pelas figuras femininas. Esta situação é visível nos momentos com Gloria, com esta mulher a comandar, enquanto Paulina García tem uma interpretação soberba como esta figura feminina a caminhar para os sessenta anos, que parece um pouco como o território do Chile que nos é apresentado, em busca de um caminho ainda não encontrado, feita de sonhos pensados mas não executados, de alegrias e decepções, enquanto no seu âmago está alguém pronto a protestar com o destino e a mostrar que a idade não é problema para se envolver emocionalmente. "Gloria" não é um romance, mas sim um drama humano centrado na personagem do título, permitindo a Sebastián Lelio pelo meio efectuar algumas críticas subtis ao Chile do seu tempo, quer num jantar entre casais, quer na exposição de um protesto numeroso, exibindo que muito falta por cumprir no seu país, mas também na sua protagonista. Os anos passam mas Gloria ainda não parece por completo ter encontrado a sua identidade, nem uma relação amorosa que a complete, tendo no envolvimento com Rodolfo uma experiência nem sempre gratificante, cometendo alguns erros e acertando em alguns comportamentos ao longo deste sublime drama humano. A realização de Sebastián Lelio é eficaz e discreta, bem como a sua fotografia, com o filme a ser capaz de apresentar com inteligência e sem melodramas excessivos a história de Gloria, uma mulher que canta, bebe, dança, mas nem por isso parece totalmente feliz, sobretudo a nível pessoal, parecendo existir uma obsessão por não aceitar a passagem do tempo, embora o destino lhe diga que tem de começar a lidar com o avançar da idade. A banda sonora é um elemento fulcral do filme, mas nada comparado com a interpretação de Paulina García, com esta a ter um papel marcante, eivado de melancolia, numa obra que nos conquista com enorme facilidade.

Título original: "Gloria".
Título em Portugal: "Glória".
Realizador: Sebastián Lelio.
Argumento: Sebastián Lelio e Gonzalo Maza.
Elenco: Paulina García, Sergio Hernández, Diego Fontecilla.

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