21 março 2014

Resenha Crítica: "Centurion" (Centurião)

 O sucesso de obras como "Gladiador" e "300" trouxeram uma nova procura em aproveitar a antiguidade romana e grega para o grande ecrã, embora nem sempre com grande sucesso. "The Last Legion" espalhou-se ao comprido, "Legion" também e "Centurion" também não é dos exemplares mais felizes. Realizado por Neil Marshall, um cineasta com uma apetência para a realização de filmes do género e apresentação de sangue em doses elevadas, "Centurion" mostra desde os momentos iniciais ao que o cineasta vem nesta adaptação livre do suposto desaparecimento da IX Legião romana a 117 d.C. Quintus Dias (Michael Fassbender) apresenta-se brevemente, e à sua guarnição, localizada no extremo norte da fronteira, em Inch-Tuth-Il, bem como aos Pictos, os adversários locais que se encontram irredutíveis, e logo a sua unidade é atacada, com este a ser mantido vivo por saber o dialecto dos antagonistas e, sejamos sinceros, porque é o protagonista. Logo depois somos colocados perante Titus Flavius Virilus (Dominic West), um legionário romano que se encontra em York, onde se encontra a Guarnição da Nona Legião, enquanto este se encontra numa disputa por braço de ferro (desde "Over the Top" que sabemos que é uma boa forma de mostrar virilidade), seguida de um conflito entre os dois grupos que estavam à mesa. Pouco depois, Virilus, o comandante da Nona Legião, recebe uma mensagem transportada pelo enviado especial do Governador Agricola a mobilizar a Nona Legião para a Guerra na Bretanha, naquele que é um conflito visto pelo político como uma forma de poder conquistar maior poder em Roma. Agricola obriga Virilus e os seus homens a receberem a companhia de Etain (Olga Kurylenko), uma batedora descendente de pictos, que não fala e tem uma habilidade enorme para o combate (e Marshall precisava de uma desculpa para colocar uma mulher atraente ao olhar masculino), que evidencia logo as suas qualidades para a matança. 

Após ser torturado, Quintus consegue escapar dos pictos, liderados por Gorlacon (Ulrich Thomsen), sendo perseguido e salvo durante a fuga por Virilus e os seus homens. Pelo caminho, muito mais sangue e violência, com "Centurion" a parecer muitas das vezes utilizar os diálogos para unir as cenas de acção. É assim que Quintus se reúne com Virilus, é apresentado aos homens deste e logo se junta para regressar até ao local onde estivera em cativeiro para combater os pictos. No caminho, estes deparam-se com um conjunto de soldados inimigos, fruto de uma traição de Etain, algo que resulta num combate sangrento e violento, onde boa parte da legião é eliminada e o General Virilus é raptado. Perante o rapto do general, Quintus e um conjunto diminuto de sobreviventes procura salvar Virilus, algo que acaba por (ridiculamente) correr mal, resultando na morte do líder. Estes são obrigados a fugir, sendo perseguidos por Etain e os pictos liderados por esta, uma "loba" em busca das suas presas que apenas promete parar quando eliminar Quintus e companhia. Ficamos assim por uma segunda parte marcada por um jogo entre a presa e o caçador, com Quintus a procurar ludibriar o inimigo numa luta pela sobrevivência inspirada livremente em factos históricos, que surge bem mais interessante do que a primeira "parte". Esta luta pela sobrevivência permite explorar um pouco mais o personagem interpretado por Michael Fassbender, com este a mostrar carisma e talento para aguentar a narrativa e Quintus mostrar o seu espírito de liderança ao longo desta obra algo irregular de Neil Marshall. Com um argumento frágil, personagens secundários maioritariamente unidimensionais, questões políticas pouco exploradas e alguns anacronismos, "Centurion" oferece-nos muita pancadaria, corpos decepados, correria, mas pouco sentimento ou até uma história minimamente coerente. Percebe-se a ideia de Neil Marshall e o filme até pode chegar a um público que goste de obras do género, que exacerbam a violência e o sangue, mas o cineasta opta por demasia em exacerbar estes em detrimento de um argumento elaborado ou pelo menos uma história minimamente capaz de desenvolver os personagens que rodeiam Quintus. 

No quesito da acção, "Centurion" apresenta alguns momentos bem coreografados, não tem medo em expor os corpos a serem decepados e as consequências dos conflitos, glorificando e ao mesmo tempo expondo o lado negativo dos mesmos, apresentando um ligeiro comentário sobre as guerras que para nada servem. Não é só nas cenas de acção intensas e sangrentas que "Centurion" se destaca, mas também pela capacidade de Neil Marshall em explorar os territórios apresentados e servir-se dos mesmos ao serviço da narrativa. Essa situação é visível nos terrenos selvagens, por vezes cobertos de neve (dando uma sensação de algum vazio e frieza), nevoeiro (mistério) e até do rio cujas águas podem surgir manchadas de sangue quando menos se espera. Nesse sentido a obra de Neil Marshall é bem eficaz, proporcionando um festim gore marcado por batalhas intensas, cenários bem aproveitados, mas com argumento pueril e um conjunto de personagens secundários pouco elaborados. Michael Fassbender é um actor acima da média e já o provou várias vezes, mostrando isso mesmo em "Centurion", destacando-se ainda uma muito secundária Imogen Poots, que no pouco tempo de antena consegue ter uma personagem mais densa do que elementos como David Morrissey, Riz Ahmed, Dimitri Leonidas, Liam Cunningham, entre outros que raramente escapam dos lugares-comuns. Poots interpreta Arianne, uma mulher expulsa pelos pictos devido a ser considerada uma bruxa, que ajuda Quintus, Bothos e Brick, formando uma relação de alguma proximidade com o primeiro. Não chega a ser estabelecido um romance propriamente dito, mas assistimos a uma tensão romântica e alguma candura nos momentos entre ambos, com a doçura de Arianne a contrastar com a ferocidade de Etain. Olga Kurylenko tem pouco ou nenhum material para explorar, com a descrição da sua Etain a ter que chegar pelas várias narrações em off efectuadas pelo protagonista e pelos comentários de alguns personagens. Neil Marshall tem em "Centurion" um filme irregular, onde a acção e violência sobressaem, bem como o cuidado guarda-roupa, mas não chega para dizermos que estamos perante algo minimamente coeso, com o cineasta a deixar em Michael Fassbender o "fardo" de agarrar muitas das vezes o filme.

Título original: "Centurion".
Título em Portugal: "Centurião".
Realizador: Neil Marshall. 
Argumento: Neil Marshall. 
Elenco: Michael Fassbender, Dominic West, Olga Kurylenko, Imogen Poots.

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