19 fevereiro 2014

Resenha Crítica: "Lone Survivor" (O Sobrevivente)

O ataque às Torres Gémeas a 11 de Setembro de 2001 causou uma grande comoção nos EUA. Desde Pearl Harbor que os EUA não eram directamente atacados no seu território por um inimigo externo, sendo que desta vez esse inimigo não vinha identificado como uma nação ou nações, mas sim com uma célula terrorista, a Al-qaeda. Esse ataque e o clima revanchista e de paranóia que se seguiu, propiciou a política da Guerra ao Terror do Governo de George W. Bush que, embora as medidas de marketing o procurem ocultar, continua com Barack Obama. Nada contra o desmantelamento de grupos criminosos, mas no caso dos EUA podemos associar ainda um aproveitamento que conduziu a que a sua entrada no Afeganistão e no Iraque não tenha resultado em melhorias evidentes nos países, com estes a darem razão a Niall Fergunson que em "Colossus: The Rise and Fall of the American Empire" comparava os EUA ao Exterminador Implacável devido a terem mais habilidade a destruir do que a construir. Serve toda esta introdução para contextualizar o desenvolvimento de "Lone Survivor", um filme realizado por Peter Berg, inspirado livremente no livro homónimo de Marcus Luttrell e Patrick Robinson, sobre a missão "Operação Red Wings", que decorreu entre 27 de Junho e meio de Julho de 2005. A missão desenvolvida pelos elementos do SEAL Team 10 centrava-se na tentativa de encontrar Ahmad Shah, um elemento que liderava uma milícia anti-coalisão, ligado ao extremismo islâmico. Um dos primeiros problemas do filme começa exactamente pela pouca exploração deste indivíduo que praticamente não passa de um nome atirado nos momentos iniciais, cuja personalidade não é explorada, apesar dos protagonistas até encontrarem a sua pessoa. Peter Berg está pouco interessado na exploração do inimigo e até no contexto global desta missão, tendo como cerne o exacerbar do papel do militares dos Estados Unidos da América. Os momentos iniciais do filme mesclam imagens de treino reais com momentos de ficção, explorando a dureza da preparação dos Navy SEALs, apresentando pelo caminho o quarteto principal formado por Marcus Luttrell (Mark Wahlberg), Michael P. "Murph" Murphy (Taylor Kitsch), Danny Dietz (Emile Hirsch) e Matthew "Axe" Axelson (Ben Foster"). Logo depois é apresentada a missão por Erik Christensen (Eric Bana), o superior dos mesmos, que coloca os quatro Seals a liderar uma missão de reconhecimento no território, comunicando com os restantes militares a partir da base militar local. 

O quarteto encontra-se na zona restrita de território, encontrando o alvo definido, embora estejam proibidos de atacar até terem ordens superiores. Ficam pelo chão, procurando passar despercebidos, trocando alguns diálogos de treta para desanuviarem da missão, pelo menos até encontrarem três elementos ligados aos talibãs. "Axe" pretende eliminá-los de imediato, sendo que Luttrell surge como o elemento aparentemente mais consciente do grupo, existindo aqui um esboçar de uma interpretação complexa em relação a estas missões e aos actos de Guerra, embora seja apenas fogo de vista. Os talibãs soltos logo chamam outros elementos para atacar comprovando a teoria que deveriam ter sido eliminados (e o maniqueismo arreigado do filme começa a ser exposto), preparando um ataque aos Seals. O ataque é demorado, com o tiroteio entre ambas as partes a parecer saído de um jogo de computador, onde o jogador tem de eliminar o mais depressa possível os inimigos. Diga-se que nos jogos ainda existem alguns vídeos introdutórios, algo que "Lone Survivor" abdica, deixando de lado a exploração do outro lado da contenda. Eles são maus e nós somos bons, é isto que parece interessar a Peter Berg, cujas intenções na elaboração do filme são claras, exacerbando o papel dos militares dos EUA, sem praticamente explorar em nada o lado inimigo. Os cerca de 40 minutos iniciais são relativamente interessantes. A construção dos personagens e das suas personalidades deixa algo a desejar, embora dê espaço para Mark Wahlberg e Emile Hirsch sobressaírem, compensando essa situação com uma interessante exposição do trabalho de campo dos SEALs. Podemos não achar piada ao jingoísmo made in USA exposto nesta missão anti-terrorista, mas existe uma procura notória de detalhar de forma algo realista uma missão do género, algo exposto não só no treino, no guarda-roupa, na utilização das comunicações e até no espírito de entreajuda entre os militares, mas também no trabalho com a câmara e até na sonoplastia (veja-se som dos arbustos por onde se deslocam os personagens em determinados momentos, bem como os disparos).

 A partir do momento em que o tiroteio começa, Peter Berg mostra a sensibilidade de uma parede a abordar o ataque inimigo e deixa-nos perante tiros em massa, disparos de mísseis, algumas perdas relevantes mas pouco sentidas. Como nos podemos preocupar com personagens que praticamente não são apresentados, não geram empatia e estão numa missão que pouco é explorada? Peter Berg faz lembrar os disparos dos muitos talibãs anónimos (não confundir como meramente afegãos, visto que alguns até surgem representados como pessoas prestáveis que sabem dizer "fuck taliban"), que surgem em massa mas muitas das vezes ao lado, realizando um filme que apesar de ser uma obra pouco relevante do género, promete ter algum valor histórico. Veja-se as hipóteses que permite se reunirmos alguns filmes de guerra do pós-11 de Setembro com os filmes do género produzidos durante a IIª Guerra Mundial, e até como um exemplar dos filmes dos EUA no pós-11 de Setembro, dando espaço a elaboração de estudos que prometem ser interessantíssimos sobre o género, quer no âmbito da história do cinema, quer no âmbito da influência destas obras para a diplomacia cultural dos EUA. No entanto, "Lone Survivor" pouco mais tem para dar. Os personagens secundários raramente são explorados (estar ali o Eric Bana ou outro actor seria igual), as implicações políticas desta missão passam praticamente ao lado do filme, com este a apresentar um início onde até gera algum interesse para a missão do quarteto, mas a não passar daí, procurando exacerbar o espírito de sobrevivência destes homens ao mesmo tempo que desafia a nossa resistência para não largarmos o filme. Temos ainda uma notória procura em expor o lado de camaradagem destes soldados, exposto não só em actos de sacrifício, mas também em voice-over pelo personagem interpretado por Mark Wahlberg, com o filme a apresentar uma enorme reverência a estes homens. Num ano onde até Michael Bay apresenta um olhar algo crítico para a sociedade do seu tempo e temos obras relevantes como "12 Years a Slave" a ir às entranhas de um passado nefasto dos EUA (e até Mundial), "Lone Survivor" surge como um exemplo maniqueísta e jingoista, onde Peter Berg mostra que "Battleship" não foi obra do acaso. E atenção, isto não é um elogio, bem pelo contrário.

Título original: "Lone Survivor".
Título em Portugal: "O Sobrevivente".
Realizador: Peter Berg. 
Argumento: Peter Berg.
Elenco: Mark Wahlberg, Taylor Kitsch, Emile Hirsch, Ben Foster, Eric Bana. 

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