08 fevereiro 2014

Resenha Crítica: "Her"

 Servirá a tecnologia para nos isolar ou aproximar dos outros seres humanos? Muitas são as pessoas que diariamente visitam as redes sociais, falam ao telefone e/ou telemóvel, enviam mensagens, descurando com essa situação o contacto diário. Pessoas de quem gostamos bastante passam a ser substituídas imensas vezes pelos caracteres, os sentimentos fluem com uma certa artificialidade e por vezes nem nos damos conta que estamos sozinhos a escrever num teclado. Podemos olhar pelo lado positivo. Nunca tivemos tão em contacto uns com os outros, o encontro com novas pessoas e até comunicar com aqueles que estão mais afastados é algo que está mais facilitado. Dois lados complexos de uma mesma moeda, que surgem expostos em "Her", o novo filme realizado por Spike Jonze e protagonizado pelo assombroso Joaquin Phoenix. Seja a fazer de Commodus em "The Gladiator" ou de Johnny Cash em "Walk the Line", passando por Freddie Quell em "The Master" ou Bruno Weiss em "The Immigrant", Joaquin Phoenix encarna e dimensiona os seus personagens com uma energia e assombro raros, tendo em "Her" um indivíduo algo peculiar, tão estranho como algumas das figuras cinematográficas que cria. Phoenix interpreta Theodore Twombly, um indivíduo algo introvertido, sensível, com um bigode deveras arranjado, óculos de massa, calças bem subidas, com um estranho fetiche por grávidas, tendo um emprego numa empresa onde os funcionários escrevem cartas de amor a mando de clientes com dificuldades em exprimirem os seus sentimentos. Sem muitos diálogos, Spike Jonze explora desde logo o local de trabalho do protagonista e a forma como a tecnologia tirou parte do contacto entre os seres humanos e até os privou do tacto: os funcionários trabalham em divisórias isoladas, pessoas pagam para alguém expressar por si os seus sentimentos, seres humanos falam para o computador e este escreve, sem que tenha de existir contacto com um teclado. Expressar os nossos sentimentos nem sempre é algo fácil, "Her" salienta isso desde cedo com estas cartas, mas também no próprio quotidiano do protagonista. Quando sai do trabalho, Theodore ouve música, deambula pelas ruas de um espaço metropolitano composto por vastas gentes e edifícios elevados, anda em transportes públicos, isolado, o que não deixa de ser irónico se tivermos em linha de conta a enorme quantidade de população com que este se depara nesta Los Angeles ficcional, até chegar a casa onde joga computador, sem ter que tocar num comando. O jogo permite alguns momentos de humor, não faltando a presença de um estranho boneco com uma linguagem vulgar (muito à "South Park"), onde jogador e máquina interagem, criando-se uma relação algo artificial, quando na realidade Theodore está num quarto escuro a jogar.

Num flashback descobrimos que Theodore outrora fora feliz e sorridente ao lado de Catherine (Rooney Mara), a mulher de quem se encontra a divorciar. Ambos influenciaram-se mutuamente, mas foram-se afastando gradualmente e como em todos os relacionamentos que terminam, várias feridas difíceis de cicatrizar foram abertas, com "Her" a mostrar que também é um filme sobre recordações do passado que continuam bem vivas e de memórias que se encontram em constante construção. Theodore tem um aparelho que lhe dá as principais notícias, permite saber as mensagens que chegam ao e-mail e até encontros às cegas com as vozes de outras pessoas, pelo menos até decidir comprar o OS 1, um aparelho com inteligência artificial semelhante a um ser humano, que tem uma identidade de mulher e nomeia-se de "Samantha" (voz de Scarlett Johansson). Esta evolui consoante as suas experiências, efectuando alguns comentários sarcásticos ao seu "dono" e mostrando por vezes uma estranha dose de humanidade inerente ao bom argumento do filme e ao magnífico trabalho vocal de Scarlett Johansson (não deixa de ser irónico que um dos papéis de maior destaque não conte com a presença do seu corpo, pela qual esta é bastante conhecida), com esta a dar uma dimensão imensa à personagem que interpreta, chegando até a protagonizar um momento algo comovente no último terço da narrativa. Instigado por Samantha, Theodore aceita o convite para jantar com uma desconhecida (Olivia Wilde), organizado por um casal de amigos, algo que não corre da melhor maneira devido ao facto da estranha pretender ter certezas em relação aos objectivos que o protagonista tem para o relacionamento entre ambos. Theodore tem em Amy (Amy Adams), a sua melhor amiga, uma personagem que ganha a vida a desenvolver jogos de computador, embora tenha o sonho de terminar um documentário sobre a sua mãe e os sonhos desta última. Amy também se encontra a terminar uma relação, com o casamento desta a ter ruído recentemente, algo que permite a "Her" mais uma vez expor a capacidade destrutiva do ser humano em relação ao amor e aos relacionamentos, onde o que outrora fez todo o sentido, no presente pode ser apenas uma amarga memória. Esta temática das pessoas que nos deixam marca e nas quais deixamos marca, mesmo que nos separemos das mesmas é aproveitada de forma sublime pelo filme, algo visível nas relações que rodeiam o protagonista, com "Her" a utilizar mais uma vez uma temática que tanto nos diz. A companhia mais segura de Theodore parece ser Samantha, que embora seja um mero aparelho electrónico é capaz de fazer com que este se abra a nível sentimental, revele o que o prende à sua esposa (que o abandonou há um ano), e até consiga que este visite uma praia cheia de pessoas e deixar a sua alma exposta perante o espectador.

Theodore é um tipo solitário, pouco dado a modas e até ao contacto humano, que outrora até já foi feliz, mas agora é alguém que apenas tem num aparelho electrónico uma companhia. Diga-se que que este "apenas" tem de ser visto com muitas nuances, visto que o aparelho consegue mostrar mais doses de humanidade que muitos seres humanos e dar a Theodore um complemento que este possivelmente já nem esperava vir a ter. A espaços Theodore faz-nos recordar o personagem de Jim Carrey em "Eternal Sunshine of the Spotless Mind", um indivíduo que pretende apagar as memórias da amada, mas logo se apercebe que é incapaz de o fazer, entrando numa luta para não as deixar para sempre. As memórias do passado continuam a afectar o comportamento de Theodore no presente, sobretudo quando este tem de lidar com Catherine, num diálogo tenso, marcado pelo constrangimento deste revelar que tem uma relação com um aparelho, com esta última até a fazer um pouco do nosso papel e questionar o caso amoroso. Será possível sentir amor por um aparelho electrónico? Será possível algum dia substituirmos as emoções humanas? Em "Her" essas perguntas colocam-se, mas também recebemos a resposta de Theodore, com os seus sentimentos a revelarem-se humanos e a ter uma cura para a solidão com Samantha, embora exista sempre alguma bizarria inerente a toda esta situação. Spike Jonze e peculiaridade também não são novidade, ou não fosse este o realizador de "Being John Malkovich", "Adaptation" e do magnífico "Where the Wild Things Are", com o cineasta a não descurar o facto dos sentimentos humanos do seu protagonista serem bem reais, pese a relação deste seja com uma máquina com inteligência artificial. Theodore é uma pessoa estranha. Não parece existir grandes dúvidas em relação a isso. Mas quanto de nós já não tivemos um momento de solidão? A vida deste personagem não é feita de momentos algo solitários, mas sim de dias marcados pela solidão, com o seu quotidiano a reduzir-se a um trabalho pouco motivante, jogos de computador e porno, pelo menos até conhecer Samantha, um aparelho electrónico com enorme sede de aprender junto de um humano, incluindo sentir, despertando neste os sentimentos mais profundos, mas também muita confusão.

O ser humano é cheio de contradições, ou não fossemos figuras complexas, cujas diferenças e semelhanças nos unem e separam, Theodore não escapa a essa regra, tendo em Samantha um bálsamo para sua depressão e em Amy um dos poucos portos de abrigo humanos. Amy é interpretada por Amy Adams, uma actriz versátil, que tanto é capaz de interpretar uma mulher sensual como a decotada Sydney Prosser em "American Hustle" e esta personagem sóbria, que se divorciou recentemente do marido, algo desarranjada, marcada pela certeza de que não está a ter o sucesso que pretendia da vida, formando amizade com um sistema operacional feminino que o marido deixou na sua casa. Embora nem sempre explore os personagens secundários com a eficácia desejada (e conte com um ou outro problema de continuidade, como no momento em que Theodore está com uma camisa vermelha lisa e quando chega junto da futura ex-mulher tem uma camisa aos quadrados), "Her" conta ainda com algumas presenças marcantes, tais como Portia Doubleday como Isabella, uma mulher que supostamente iria fazer de duplo de Samantha para Theodore poder fazer sexo, mas tudo resulta num momento de enorme estranheza (uma daquelas cenas de sexo que poderia figurar numa das obras de início da carreira de Hong Sang-soo, algo despojadas de sensualidade). No entanto, o foco da narrativa é Theodore e os seus sentimentos, expostos quer por Joaquin Phoenix, quer pela banda sonora belíssima, quer pelo apurado trabalho de fotografia (o passeio entre casais de Theodore e Samantha com Paul e a esposa deste é marcado por algumas imagens muito belas, tais como as cenas do casal de protagonistas na neve, para além do trabalho a nível da exploração da luz e da cor ser magnífico), mas também pelo argumento, que é capaz de levantar questões relevantes. Não só as já levantadas no decorrer no texto, mas também sobre o que poderá acontecer se o aparelho avariar. Sem um corpo humano Samantha não envelhece, nem morre, ao contrário de Theodore, o que levanta mais uma vez uma série de dúvidas sobre esta complexa relação e comprovam que Spike Jonze conseguiu criar uma obra inteligente, cujo interesse da história vai muito para além da relação entre um indivíduo comum e um aparelho electrónico. Vale ainda a pena realçar o facto de Samantha poder contactar com outros aparelhos, algo que pode colocar em risco a relação entre os dois amados, num filme com uma premissa algo sui generis, que poderia facilmente desembocar numa caricatura sem sentido e sensaborona, mas escapa dessas armadilhas com a delicadeza que Spike Jonze abraça todo este universo narrativo que cria. Jonze tem dois trunfos para este seu mundo funcionar: um argumento coeso, bem escrito e capaz de problematizar as temáticas e um enorme Joaquin Phoenix.

Joaquin Phoenix por vezes faz-nos recordar o seu personagem em "Two Lovers" de James Gray (também este um indivíduo marcado por uma relação passada falhada, algo indeciso e sonhador), mas com diversas variâncias, não estando entre dois amores mas sim perante uma paixão aparentemente ridícula, que com o desenrolar do filme até começa a fazer sentido e é capaz de nos fazer questionar sobre o que faríamos na situação do protagonista. O argumento apresta-se a levantar estas questões, com o protagonista a chegar a questionar Amy se esta relação o torna "uma aberração". Por sua vez a amiga tem uma resposta paradigmática da magnífica qualidade dos diálogos que permeia a narrativa: "Qualquer pessoa que se apaixone é uma aberração. É algo louco de se fazer. Uma forma socialmente aceitável de insanidade". As paixões quando nascem trazem algo de imprevisível e "Her" aborda isso mesmo, enquanto explora este futuro próximo, exposto de forma algo minimalista, quase palpável e muito próximo da nossa realidade. É um futuro, mas ficamos conscientes que não é um tempo assim tão distante do nosso tempo, ou não estivéssemos também tão dependentes das tecnologias, algo que quase torna plausível a história de Theodore, ao longo de um filme onde esta temática é abordada com enorme humanidade. Acima de tudo estão os sentimentos, o abraçar das diferenças, o afastar da solidão e o abrir do coração, os amores que nascem e aqueles que partem, os sorrisos que se levantam e as lágrimas que caem, sensações profundamente humanas ao longo de uma obra delicada, que não procura o ridículo embora cause estranheza, mas também muita ilusão. A ilusão bem real que o cinema continua a ser um palco onde podemos sonhar e "Her" apresta-se paradigmaticamente a esse nobre e apaixonante desiderato.

Título original: "Her".
Título em Portugal: "Uma História de Amor".
Título no Brasil: "Ela".
Realizador: Spike Jonze.
Argumento: Spike Jonze.
Elenco: Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Amy Adams, Portia Doubleday, Rooney Mara, Olivia Wilde. 

4 comentários:

Anónimo disse...

Este é um filme pelo qual espero há muitos meses. Se for tão bom como o teu texto, não vou ficar decepcionado.

Aníbal Santiago disse...

Eu gostei imenso (vi por duas vezes e parece-me que não vou ficar por aqui). Eu acredito que não vá despertar a mesma atenção em toda as pessoas, mas acho que o filme é muito inteligente na forma como aborda as temáticas e ao mesmo tempo nos levanta questões. Para além de que o Phoenix dá uma dimensão extraordinária ao personagem. Cumprimentos.

Anónimo disse...

Já vi, e adorei. Só lhe encontro qualidades. Destaco uma, os diálogos e situações são todos tão bem conseguidos que podem ser interpretados de vários pontos de vista. É daqueles filmes que consoante o nosso estado de espírito nesse dia, nos parecerá um filme diferente. Vale a pena ver de 6 em 6 meses :)

Aníbal Santiago disse...

Ainda bem :) Eu optei por ver o "Her" duas vezes exactamente por essa situação, é um filme que ganha imenso com as diferentes visualizações. Ajuda imenso ter um bom argumento, interpretações, banda sonora, etc. É uma das boas confirmações de 2014.