19 fevereiro 2014

Resenha Crítica: "A Grande Beleza" (La Grande Bellezza)

 Entre os monumentos e clubes nocturnos de Roma, Paolo Sorrentino mostra-nos uma cidade repleta de história, que vive entre a opulência do passado e alguma decadência de valores do presente, mas também entre o sonho daqueles que a habitam e a realidade que encontram na mesma. O cineasta apresenta-nos logo de início a um conjunto de turistas japonesas que visitam o território, em particular, os monumentos de Roma até nos deixar perante uma discoteca onde se dança, bebe, o lado mais fútil da humanidade é exposto e Jep Gambardella festeja o seu 65º aniversário. O espaço da discoteca é marcado por mais do que uma pista de dança, estrelas de televisão em decadência, actrizes que procuram ganhar conhecimentos por outros meios, actores que procuram utilizar a sua fama, enquanto o divertimento parece geral, quais festas marcadas pela luxúria durante o Império Romano. Por vezes parece que Paolo Sorrentino usa e abusa da contemplação do espaço da discoteca, algo que inicialmente estranhamos para depois se entranhar em nós, com o cineasta a transformar Roma, sejam os seus espaços fechados como as discotecas ou os seus monumentos e ruínas, num dos protagonistas, a par de Jep Gambardella. Este é interpretado por Toni Servillo, um colaborador habitual de Paolo Sorrentino (já participou em cinco filmes do cineasta), que sobressai pela positiva como este indivíduo algo solitário e carismático, que vive com condições financeiras acima da média, visível na sua casa marcada pela presença de livros, escrevendo a coluna cultural de um jornal e tendo no livro "O Aparelho Humano", escrito há quarenta anos, o seu maior feito. É na função de entrevistador e crítico que vê uma peça de teatro protagonizada por Talia Concept (Anita Kravos), cujo conceito passa pela actriz estar nua, com um véu a cobrir a cabeça, até direccionar a mesma contra um muro. A entrevista é hilariante, com Jep a mostrar pouca paciência para a actriz incompetente que apenas consegue chamar à atenção pela nudez e as pancadas que dá no muro, bem como por falar na terceira pessoa, a fazer lembrar alguns jogadores de futebol com problemas latentes a lidarem com o dicionário e a gramática, bem como as celebridades que tudo fazem para aparecer. A situação é absurda, mas também reveladora de um vazio de valores onde tudo parece valer (veja-se recentemente Miley Cyrus e até Shia LaBeouf cuja arte maior parece ser o provocar do choque pelos actos estapafúrdios), com Sorrentino a explorar o humor a partir do absurdo da situação.

O quotidiano de Jep passa pelo frequentar de festas (onde as conversas por vezes versam a futilidade e a vida alheia), o trabalho, participar em tertúlias nocturnas, tendo pelo caminho alguns percalços, como no momento em que recebe a notícia da morte de Elisa de Santis, uma amiga de juventude, que era apaixonada por este. Os dois viveram uma relação que terminou de forma inesperada, mas não foi esquecida. A notícia da morte da amiga traz-lhe alguma tristeza, mas o impacto maior surge quando uma jovem criança lhe diz que este não é ninguém, com o personagem a parecer começar a questionar a sua existência. Jep nunca perde o seu estilo sarcástico, pronto a defender os seus ideais de arte e a mostrar a sua elevação cultural, descrevendo-se como um misantropo, parecendo por vezes cansado de todos os que o rodeiam, adiando constantemente o regresso à escrita de um livro. Paolo Sorrentino interessa-se por este personagem da alta sociedade, que não parece querer envelhecer, vivendo muito de aparências, sobretudo a da procura de manutenção da juventude, visível quando se encontra a colocar botox. Os seus diálogos com Stefania (Galatea Ranzi) durante as várias tertúlias são duros, não tendo problemas em expor os podres da suposta amiga, sempre com alguma elegância e sarcasmo. Não é só a postura do protagonista que é elegante, mas todo o trabalho que Paolo Sorrentino nos apresenta. A fotografia do filme é de uma elegância e delicadeza sintomáticas do cuidado que Paolo Sorrentino procurou ter nos pormenores e pormaiores, quer seja a exposição dos cenários, quer seja o guarda-roupa, quer seja na exposição da narrativa. O enredo desenrola-se a um ritmo contemplativo, pronto a deixar-se apaixonar pela "Grande Beleza" da cidade, enquanto o protagonista parece aparentemente sem rumo, mantendo uma amizade com Romano, um aspirante a encenador de teatro e fã do livro de Jep, tendo na data em que conhece Ramona, uma stripper filha de um amigo, um momento de alguma relevância. Jep leva a bela mulher a jantar consigo, ensina-lhe regras de etiqueta (incluindo como se comportar em funerais), dorme com esta, embora não façam sexo. Este tem ainda uma relação de cumplicidade com a sua editora, uma anã que não tem problemas em brincar com a sua limitação física. Diga-se que o filme não deixa de ter alguns momentos de humor, que vão desde aos acontecimentos inusitados que ocorrem em alguns momentos até aos diálogos sardónicos de Jep, passando pelas citações aleatórias a escritores famosos, enquanto o protagonista se envolve num conjunto de episódios marcantes, onde não falta o travar de conhecimento com Maria, uma freira que está prestes a ser considerada santa.

A religião também não passa incólume ao longo do filme, ou não estivéssemos em Roma, local onde se encontra o Vaticano, embora os seus personagens não se pareçam levar muito pelos valores defendidos pelo mesmo, ou não levasse Jep um estilo de vida marcado pela opulência que contrasta com o de Maria. A freira exibe um pouco o contraste com o vazio que rodeia estes personagens, incluindo Bellucci, um candidato a Papa bastante peculiar, e o protagonista, que parecem viver numa letargia evidente, aproveitando o que de fútil Roma tem para dar, mas não criando algo de relevante que iguale os pergaminhos da cidade. Esse contraste aparece ainda exposto na banda sonora, com Sorrentino a contrastar a música techno (e até o famoso Papamericano, o paradigma do vazio) com música sacra, reunindo o sagrado e o profano no seu filme marcado por contrastes, onde as ruínas cheias de história permanecem perante os seus passageiros habitantes. Tudo parece ser efémero à volta de Jep. A glória da sua escrita ficou pelo passado, Roma é gloriosa nos seus monumentos mas algo vazia nas festas frequentadas por Jep, enquanto o tempo passa e este vai conhecendo, afastando e perdendo pessoas amigas. A morte de Elisa é um momento marcante, sobretudo se pensarmos que o marido logo a esquece, embora esta saliente no diário que o seu grande amor era Jep. Por sua vez, Romano decide sair de Roma, desiludido por quarenta anos de sonhos por realizar. Paolo Sorrentino mostra-nos o lado humano de Roma e o seu espaço, através do olhar da sua câmara e de um peculiar indivíduo com 65 anos de idade, que acaba por representar o território onde vive, quer nos seus excessos, glória, ruína e opulência. Este é um solitário, embora esteja quase sempre acompanhado, conversa muito mas muitas vezes sobre nada, procura a grande beleza que lhe servirá de inspiração para a sua obra mas tarda em encontrar a mesma. Jep cria raízes junto desta cidade que Paolo Sorrentino reverencia e crítica, com o cineasta a explorar um conjunto de episódios que ocorrem na vida do seu protagonista, apresentando uma estrutura narrativa relativamente fragmentada que nos dá pequenos pedaços da vida de Jep e dos muitos elementos secundários que o acompanham, expostos de forma bela, sobressaindo os enquadramentos meticulosos, a magnífica utilização da cor e da iluminação.

O filme não tem uma história maior do que a vida, não tem um argumento complexo, mas consegue jogar com os episódios da sua narrativa e até gerar questões relevantes sobre a arte, a vida e até as nossas pessoas. Não seremos nós nos cafés a falar sobre nada um pouco como Jep nas festas? Não seremos nós tão frívolos e pueris em espaços como discotecas? Claro que no caso de Jep estamos perante um diletante, mas é impossível não olhar para este e pensarmos em como seremos daqui a longos anos. Teremos o mesmo desencanto de Jep em relação a muito que o rodeia? Continuaremos a gastar o nosso tempo a falar sobre nada? Será o recordar das nossas memórias do passado o melhor que teremos para fazer aos sessenta e cinco anos? Está aqui também presente um sentimento de um certo desencanto de uma Itália de e pós-Silvio Berlusconi, de festas Bunga Bunga, opulência, mas também decadência moral e aparências vãs, ou não fosse o ex-primeiro ministro italiano um homem dado a plásticas e à aparência exterior, tendo contribuído para esta "cultura do nada" que Sorrentino nos exibe. A cena inicial da discoteca, mas também posteriormente a de outra festa nocturna marcada pelo "comboio", exibem esse hedonismo de uma Itália que vive entre o passado e o presente, entre as memórias passadas e a construção de novas memórias, entre o império e a decadência. O cineasta parece também procurar um sentido da vida num mundo que parece cada vez mais estar a perder os seus valores, com a sua obra a ser comparada comummente com "La Dolce Vida", embora Paolo Sorrentino até se afaste das comparações salientando que Fellini fez obras primas e ele não. Sorrentino marca ainda o enredo com alguma fantasia, não faltando a presença de flamingos e uma girafa, mas também sentimentos bem humanos, numa obra visualmente bela, cujo retrato que nos traça de Roma vagueia entre a paixão e o desencanto.

Título original: "La Grande Bellezza".
Título em Portugal: "A Grande Beleza".
Realizador: Paolo Sorrentino.
Argumento: Paolo Sorrentino e Umberto Contarello.
Elenco: Toni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli, Carlo Buccirosso, Iaia Forte, Pamela Villoresi, Galatea Ranzi. 

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